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2.7.3.1 Fluxo salivar

A medida da taxa do fluxo salivar é um dos parâmetros utilizados para a avaliação do risco da instalação e do desenvolvimento das doenças infecciosas bucais. É o fator de maior importância que afeta a composição salivar (LAGERLOF; OLIVEBY, 1994; TENOVUO; LAGERLOF, 1995).

A avaliação do fluxo salivar pode ser estimulada ou não estimulada. Diz-se não estimulada quando a secreção salivar é produzida sem nenhum estímulo. É praticamente impossível obter saliva verdadeiramente em repouso, uma vez que, durante a consciência, o fluxo salivar é sempre influenciado por algum estímulo (THYLSTRUP; FEJERSKOV, 1995). Contudo, a saliva colhida sem nenhum estímulo mastigatório ou gustativo, simplesmente salivando passivamente dentro de um cilindro, é o indicador mais confiável de fluxo de salivar reduzido e hiposalivação, do que a saliva estimulada (DAWES, 2008).

Em repouso, a secreção salivar varia entre 0,25 e 0,35 mL/min. Antes de estímulos sensitivos e elétricos mecânicos, o volume pode chegar até 1,5 mL/min. O maior volume salivar é produzido antes, durante e depois da alimentação, alcançando seu pico máximo em torno do meio dia e diminui de forma significativa à noite (NAUNTOFTE, 2003). Existe uma séries de situações fisiológicas que reduzem a secreção salivar, como a idade (HIROTOMI et al., 2006,2008), o número de dentes na boca (FLINK et al., 2008), o sexo, o peso corporal e o momento do dia.

Existem outras situações patológicas que reduzem o fluxo salivar, é importante destacar medicamentos (SREEBNY et al., 1992), irradiação na região da cabeça e do pescoço (ANDREWS; GRIFFITHS, 2001), fatores psicológicos, alterações hormonais, algumas enfermidades autoimune, por exemplo, síndrome de Sjögren (MARIETTE, 2004), Diabetes mellitus, síndrome da imunodeficiência adquirida – AIDS – (KIDD; FEJERSKOV, 2005).

2.7.3.2 Duração do estímulo

De acordo com o tempo de duração do estímulo, pode haver variação no teor das substâncias da saliva. Caso a estimulação persista por muito tempo, a concentração das substâncias na saliva tende a diminuir, mas dentre elas o cálcio e as proteínas tendem a recuperar-se logo após cessado o estímulo (EDGAR, 1992; DOUGLAS, 2002).

2.7.3.3 Contribuição das glândulas

A maior glândula salivar é a parótida, a qual é puramente serosa que, quando estimulada, produz saliva fina, aquosa e rica em amilase. Quando não estimulada, a parótida contribui com aproximadamente 10% do volume (EDGAR, 1992), com a estimulação ácida ela contribui com cerca da metade do volume da saliva integral. No estado estimulado, a parótida tem uma menor contribuição para o volume total, por que cerca de 2/3 desta secreção é produzida pelas glândulas submandibulares (NAUNTOFTE, 2003).

2.7.3.4 Ritmo Circadiano

A quantidade e a composição da saliva não são constantes e estão relacionadas ao ritmo biológico circadiano. É um fator importante a ser considerado quando se pretende realizar um estudo com a saliva (EDGAR, 1992).

A secreção salivar é menor á noite em relação á diurna. Todavia, a concentração de proteínas é maior á tarde, enquanto que as concentrações de eletrólitos, tais como sódio e cloretos, são maiores pela manhã, enquanto que o potássio é mais excretado pela saliva no

crepúsculo. Os teores de cálcio e fosfato na saliva são maiores à noite (DOUGLAS, 2002).

2.7.3.5 Dieta

Mudanças em longo prazo na dieta não parecem ter efeito dramático na composição salivar, mas mudanças da concentração de fosfato e uréia no plasma induzida por alterações dietéticas podem ser refletidas na saliva (EDGAR, 1992).

Segundo Douglas (2002) a qualidade da dieta pode interferir na composição salivar. Indivíduos que ingerem uma dieta rica em carboidratos torna o conteúdo da amilase salivar mais alto que naqueles que se alimentam com dieta pobre em glicídios.

2.7.3.6 Associação dos componentes salivares com doenças

De acordo com Mandel (1990), a saliva é o ―espelho do corpo‖, pois reflete o estado geral da saúde do corpo no que se refere aos níveis dos fluidos corporais das substâncias naturais e uma ampla variedade de moléculas introduzidas com finalidades terapêuticas. Refletem os estados emocional, hormonal, imunológico e neurológico e ainda, as influências nutricionais e metabólicas.

A saliva humana possui um amplo grupo de constituintes protéicos e não protéicos com o propósito de manter a saúde da cavidade oral. Esse arsenal de componentes possui um imenso potencial informativo para a detecção de doenças sistêmicas. Entretanto, esse potencial só poderá ser traduzido em metodologias efetivas a partir do estabelecimento de um padrão referencial dos compostos salivares (XIE et al., 2005). A partir desse padrão referencial, a interpretação qualitativa e quantitativa dos componentes da saliva poderá não só determinar o diagnóstico, mas também avaliar o melhor tratamento para desordens sistêmicas. Determinadas doenças sistêmicas podem comprometer o funcionamento das glândulas salivares e consequentemente a produção de saliva, influenciando tanto na quantidade de saliva produzida quanto na qualidade desse fluido, uma vez que pode afetar os constituintes químicos e as propriedades físicas do mesmo. Essas mudanças podem servir de parâmetro para o diagnóstico de determinadas doenças.

Muitas substâncias encontradas no sangue periférico também são encontradas na saliva, embora na saliva as concentrações sejam geralmente mais baixas que no sangue (MILLER, 1994). Mesmo aqueles componentes do soro que não fazem parte dos constituintes salivar normal (drogas e hormônios) podem chegar à saliva. Através de mecanismos de transferência que incluem rotas intra e extracelular, dentro das glândulas salivares. A rota mais comum intracelular é difusão passiva, embora transporte ativo seja usado, e extracelular mais usada é a ultrafiltração, que ocorre através das junções entre as células, (DROBITCH; SVENSSON, 1992; HAECKEL; HANECKE, 1993; JUSKO; MILSAP, 1993).

O fluido salivar pode oferecer uma alternativa ao plasma e à urina, como matriz de análise para o diagnóstico e controle de diversas doenças sistêmicas. A análise da saliva com finalidades diagnósticas se fundamenta na possível correlação entre os constituintes salivares e os parâmetros bioquímicos tradicionais, principalmente do plasma (WONG, 2006). Bioquimicamente, a maior discrepância entre a saliva e o plasma está relacionada à grande variação dos valores de referência encontrados nos componentes constituintes do fluido salivar. A maioria dos compostos estudados no soro já é bem documentada, e possuem uma posição sólida em relação à sua utilidade e confiabilidade. A variação dos valores de referência desses compostos no plasma se mantém em uma faixa estreita, entretanto o mesmo não acontece na saliva, o que dificulta o desenvolvimento de métodos de análise e a elaboração de valores padronizados desses componentes (DRUMMER, 2006).

Para que a saliva se torne uma análise alternativa ao plasma com semelhante grau de confiabilidade, é necessário o estabelecimento de uma correlação confirmada entre as concentrações dos compostos nos dois meios.