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CHAPTER 2:  CO-MARKET ORIENTATION IN NETWORKS

2.2  P ROBLEMS OF CO - MARKET ORIENTATION

2.2.2  Types of coordination problems

“O importante não são os livros, mas é a prece”, diz Guimarães Rosa em uma de suas derradeiras conversas com o filósofo Vilém Flusser11. Ainda neste sentido, Rosa revela a Flusser que estaria disposto a sacrificar todos os seus livros ao esquecimento caso isto implicasse a salvação de sua alma. Em seu Língua e Realidade, Flusser diz que a “oração é a boca da língua, isto é, a extrema articulação através do qual o indizível é abordado” (FLUSSER, 2007a, p.152).

Para Guimarães Rosa, a linguagem, qual uma prece, almeja o nada primordial. De modo que não é possível ler a obra de Rosa sem atentar para a força quase litúrgica que as palavras assumem. É a busca pela palavra poética, que está irmanada com o sagrado, que

11 Em ensaio intitulado Guimarães Rosa, Vilém Flusser revela que sua última conversa com o escritor girou em torno no tema morte/imortalidade. O texto, escrito uma semana após a morte de Rosa, em 1967, está disponível no Arquivo Vilém Flusser, na Universität der Künste Berlin. Disponível nos Anexos.

anima Rosa em sua empreita. “Credo e poética são uma mesma coisa”, diz em entrevista ao crítico alemão Gunter Lorenz (1991, p.74). Ainda a Lorenz, revela: “Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. Devemos conservar o sentido da vida, devolver-lhe esse sentido, vivendo com a língua” e, em alusão ao Evangelho segundo João, conclui: “Deus era a palavra e a palavra estava em Deus” (LORENZ, 1991, p. 88).

É pela via da oralidade – reavivando um modo de contar que começou a cair em desuso – que Rosa almeja chegar a esta linguagem transcendente, icônica, que não intenta representar, mas dizer o ser, exibi-lo. Iconizar a palavra é resgatar sua origem arqueológica, destruir-lhe a dimensão pragmática a fim de recuperar sua dimensão mágica. É, ainda, um retorno aquilo que a escrita substituiu: a oralidade (BAITELLO, 1999).

É importante pontuar, contudo, que a escrita não nasce da necessidade de representar graficamente os sons. Os vínculos que irão se estabelecer entre estes dois universos se dá muito depois do nascimento da escrita. Ao tratar das relações entre o signo oral e o escrito, Roland Barthes e Eric Marty (1987, p.32) apontam para um paradoxo: “o homem soube ler antes de saber escrever”.

Em todas as línguas indo-europeias, semíticas e orientais, a etimologia de escrita tem a ver com o gesto de gravar, fazer uma marca. Na tradição chinesa, a invenção da escrita é atribuída a Cang Jie, um alto funcionário do imperador Huang Di, que após observar as marcas das patas dos pássaros na areia, teve a idéia de reproduzi-las em uma tábua de madeira (BARTHES, 1987). É provável que tenham sido os caçadores os primeiros a “narrar uma história” (GINZBURG, 1989, p. 152). Assim, ao decifrar ou ler as pistas deixadas pelos animais, os homens desenvolvem uma forma de expressão que tem as suas raízes fincadas no visual.

Também interessado pelo tema, Jean-Jacques Rousseau (2008, p.112) defende que a primeira forma de escrever não consistia em pintar os sons, mas os próprios objetos, seja diretamente, como faziam os mexicanos, ou por alegoria, como os egípcios. De fato, só muito tempo depois há é que há a fonetização da escrita e as palavras tornam-se suporte para os sons. “Tudo se passa como se a escrita já tivesse sido inventada antes de ser posta em relação com a língua, antes de ser fonetizada: o advento de algo que já é a escrita (...) que, depois de uma evolução lenta e descontínua, acaba por poder servir de suporte ao som” (BARTHES, 1987, p.32).

Na escrita ‘pictográfica’ o caráter predominantemente gestual e visual propicia uma apreensão do real de modo diverso do da escrita fonética. Se esta fica subordinada ao “eixo da palavra”, aquela encontra-se “multidimensional no espaço”.

Embora se exclua a hipótese de falar, a propósito deste tipo de ‘escrita’, em subordinação ao oral, podem-se, sem exagero, apontar por vezes as suas relações com a palavra. A própria organização destas figuras indica que serviam, sem dúvida, de suportes para narrativas orais. O carácter multidimensional destas figuras corresponde ao carácter mítico das narrativas de que eram o suporte, visto que a imagem desencadeia um processo verbal que se concretiza na recitação do mito (BARTHES, 1987, p.34).

Em paralelo à pictografia, uma outra escrita desenvolve-se e, caracterizada pela repetição e pelo gesto ritmado, tem relação com a fabricação de objetos. O suporte são os entalhes, as marcas, os nós. Aqui, o modo de apreensão do real dá-se muito mais no tempo do que no espaço. É neste instante – em que a narratividade é condicionada a um ritmo –, que o grafismo aproxima-se do oral e asfata-se do visual.

Barthes relaciona o desenvolvimento da escrita à necessidade de domesticação do real, ou seja, aponta para o esforço de mediação do mundo, de ordená-lo, de lhe conferir sentido. O tempo ainda é circular, um tempo mítico, que retorna sempre. “Para eles [os nossos antepassados] o ‘mundo’ era um amontoado de cenas que exigiam um comportamento mágico” (FLUSSER, 2007, p.132).

Segundo Vilém Flusser, o desenvolvimento da escrita é fruto de um contínuo processo de abstração. Abstração que não se restringe à grafia, mas que também diz respeito às mudanças no estilo de pensar do homem. Na escrita pré-histórica, antes do desenvolvimento do alfabeto, eram as imagens que norteavam os homens no mundo. Nesta época, o tempo era circular. “É o tempo do retorno, de dia e noite e dia, de semente e colheita e semente, de nascimento e morte e renascimento” (FLUSSER, 2007, p.132).

Com o desenvolvimento da escrita alfabética, nasce a História e, com ela, o homem vive uma nova experiência temporal, de um tempo linear e irrevogável. Mas há uma razão maior para o desenvolvimento da escrita histórica, diz Flusser. É o que ele aponta como sendo a dialética das imagens: “o propósito das imagens é dar significados ao mundo, mas elas podem se tornar opacas para ele, encobri-lo e até mesmo substituí-lo. Podem construir um universo imaginário que não mais faz mediação entre homem e o mundo, mas, ao contrário, aprisiona o homem” (FLUSSER, 2007, p. 143). O pensamento linear foi inventado para salvar o homem da alienação, da “imaginação alucinatória”, diz Flusser.

Vale dizer, ainda, que esta passagem do mundo mágico, mundo do mito, para o histórico e racional dá-se apenas de modo gradual. Até o período final da Idade Média, apenas os aristocratas eram letrados e àquela época, para compreender um texto, fosse prosa ou poesia, era preciso lê-lo em voz alta. “A leitura permanecerá na ambiguidade de uma enunciação em voz alta, que se assemelha mais a uma recitação encantatória que a uma verdadeira leitura: ou seja, a escrita sustenta-se exclusivamente através de seu suporte fundamental da palavra, a oralidade” (BARTHES, 1987, p.49). É o surgimento da imprensa e não a escrita ou a palavra que funda o pensamento racional.

Na obra de Guimarães Rosa, a narrativa tem a estrutura do universo do mito. Um mundo mítico e a-histórico, estórico, para dizer como Rosa12. Lá, as palavras parecem ainda não carregarem o peso da letra, ainda tem, como previne o narrador de São Marcos, conto de Sagarana, canto e plumagem13.