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Designing and selecting samples

CHAPTER 4:  METHODOLOGY

4.1  M ETHODS

4.1.4  Designing and selecting samples

Viajante, Gustavo Barroso exercitava o seu regime de tempora- lização da cultura material, tornando-a fonte da memória e do relato. Não bastava o contato pelo livro porque aí o olho dominava sem con- corrência. O caminhar, sobre o qual Graciliano fala na epígrafe, dava a Gustavo Barroso um saber inestimável e insubstituível:

Perlongando as margens dos dois braços do Sena, em redor das ilhas de São Luís e da Cité, os cais de Paris apresentam ao via- jante observador uma vida curiosa e original. Aqui se estendem sobre eles as sombras imponentes e veneráveis dos edifícios car- regados de história: Palácio da Justiça, torres medievais da Con- ciergerie, cúpula mazarina, fachada monumental do Louvre, rendilhamentos góticos de Notre Dame. Ali, recantos tranquilos e melancólicos, ensombrados de castanheiros seculares, onde se imobilizam vultos de pescadores pacientemente à espera da is- gada. Acolá, olhando a torre do Relógio, o colorido e perfumado Mercado das Flores. E por quase todos eles — cais da Tournelle, cais Voltaire, cais São Miguel, cais Malaquias, cais do Relógio, cais da Megisserie, cais d’Orsay — os sebos ou buquinistas ao pé das caixas recheadas de velhos livros e antigas gravuras, que a freguesia remexe em busca de preciosidades esquecidas.

Avistava quase sempre pela sua vizinhança sábios e escritores de nomeada, conhecidos pela sua paixão de bouquiner: Anatole France, Diehl, Schlumberger, Emile Gebbart e Hugues Delorme que cantou na “Gasconnade”:

... dans les bouquins que sur les quais

on achête vingt-cinc centimes...

Encontram-se ainda no cais os chamados marinheiros de água

doce, tripulantes das barcaças e alvarengas do tráfego luvial do

Sena, que se dão engraçados ares de marujos de verdade; os er- vanários, os banhistas e, no contorno da ilha de São Luís, antiga ilha das Vacas, as pequeninas rotisseries anônimas, sumidas nos porões de velhas casas, onde, às vezes, como na da Reine Pé- dauque, um cão ensinado faz girar o grande espeto da lareira carregado de frangos e de codornas.

Bizarros, interessantes, cheios de tradição, de recordações, de vida própria e frequentadores especiais alongam-se sob as ne- vadas do inverno ou o sol do verão os velhos cais de Paris, onde passo dias inteiros lanando e conversando com os vagabundos, os pescadores, os embarcadiços, as loristas e os vendedores de livros. Um deles se tornou meu amigo e me cede, às vezes, para um descanso, o banquinho de abrir e fechar em que se senta ao lado de sua caixa grampeada na muralha de pedra. É bem ao pé das escadas do cais da Tournelle, de onde se avista a abside de Notre Dame escorada de contrafortes, as duas torres sobrepu- jando a cobertura de ardósias do transepto e a esguia lecha cen- tral espiritualizada no espaço. Foi soldado na campanha de Ton- quim. Traz sempre na botoeira do sobretudo ruço e pelado a ita duma condecoração. Por brincadeira, pus-lhe o apelido de Char- lemagne, devido à sua longa e branca barba anelada, leurie como dizem as canções de gesta.

Não se passa uma semana em que não reserve um dia pelo menos para andar pelo cais. Nos róseos nevoeiros matutinos e nas dou- radas brumas crepusculares, adoçam-se as silhuetas das torres medievais, das lechas góticas, dos majestosos entablamentos clássicos. O Louvre, Notre Dame, a Conciergerie, a Santa Ca- pela, o Hôtel-Dieu, o Palácio Mazarino, o Palácio da Justiça, a caserna da Guarda Republicana, as estátuas equestres do Parvis e do redondel da Ponte Nova, Carlos Magno e Henrique IV, os renques de altos esgalhados castanheiros, tudo se esvanece nos

cinzeiros que boiam pelo ar. Acerco-me e despeço-me do velho, barbudo e humilde amigo:

— Bonjour, Charlemagne!

— Au revoir, Charlemagne!53

Além disso, ou subjacente a isso, o aprendizado no contato com comerciantes que lidavam com antiguidades, e a oportunidade de au- mentar as coleções que ele alimentava, tanto a pequena coleção privada, seguindo a tradição dos antiquários, quanto o acervo do MHN, também inspirada na sensibilidade antiquária, mas, antes de tudo, submetida aos recortes do nacionalismo.

Meu amigo José Kelekian tem uma casa de antiguidades na praça das Pirâmides. Sempre que desço a rua da Paz para ver a coluna Vendôme e chegar à rua de Rivoli, faço pequena visita a esse armênio gordo, careca e alto, delicado como uma dama, grave como um monge das lauras do monte Alto e pachorrento como todo oriental que não deseja apressar alguns minutos da eternidade nesse mundo. Nossa amizade nasceu no dia em que entrei na sua loja para comprar um desses Osíris pequeninos, feitos de barro de Oph, esmaltados de azul, que os antigos egíp- cios costumavam ritualmente depositar nos esquifes das múmias para protegerem as almas na perigosa e longa viagem descrita e pintada no famoso Livro dos Mortos.

Em França, repete-se constantemente o brocardo: — Un grec

trompe neuf juifs, a que alguns maliciosamente acrescentam: — Un arménien trompe neuf grecs. Apesar do ditado, esse nego-

ciante armênio nunca me enganou e até hoje possuo alguns ob- jetos verdadeiramente preciosos comprados em sua mão. No dia em que começamos a nossa amizade, eu por acaso havia lido alguma coisa sobre a antiga Armênia ao tempo dos célebres Reis Pagratidas, que residiam no faustoso palácio de Ani, quando esse país martirizado fora o baluarte mais avançado da cristan- dade oriental, a muralha de defesa do Império Bizantino no Cáu- caso, por onde passavam as grandes invasões turcas e tártaras.

Nossa conversa naturalmente tocou nesses pontos e foi talvez a consideração pelo remoto estrangeiro interessado na história de sua pátria que me favoreceu com a amizade de José Kelekian. Frequentando-o, aprendi seguidamente pequeninos segredos acerca do seu ramo de negócio. Ele sabia a fundo o que era pos- sível saber sobre objetos antigos: vasos gregos, estatuetas de Tá- nagra ou Mirina, bronzes etruscos ou sabinos, medalhas romanas, epígrafes egípcias das épocas saítica, menfítica ou tebana, mar- ins chineses, faianças mouriscas, porcelanas orientais.

Foi ele quem me explicou o motivo por que só se encontram visivelmente quebrados e restaurados esses procuradíssimos vasos persas de faiança azul celeste ou cinza pintalgada de azul ferrete, achados nas escavações das cidades mortas. O governo do Xá, cioso da posse das preciosidades arqueológicas do país, não consente que saia dele um exemplar perfeito ou que não tenha semelhante no museu de Teerã. Só os exemplares em cacos podem ser exportados.54