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CHAPTER 7:  RESULTS AND IMPLICATIONS OF THE FINDINGS

7.1  R ESULTS

A imagem positiva da poeira sofreria uma avaliação sistemá- tica e rigorosa. Na Segunda Consideração Intempestiva, por exemplo, Nietzsche identiica três modos de delinear o passado: o antiquário, o monumental e o crítico. Sobre o modo antiquário, é ressaltado, entre outras coisas, o apelo tátil, com destaque para o “ar bolorento” que tanto fascinava o diretor do Museu Histórico do Ceará e o diretor do Museu Histórico Nacional. Para Nietzsche, essa “sede insaciável por novidade, ou, mais corretamente, por antiguidade” é sentida quando o “homem en- volve-se com um cheiro de mofo”. O portador da “mania antiquária”, no inal das contas, tem seus poros afetados: “frequentemente ele desce tão baixo que acaba por icar satisfeito com qualquer migalha de alimento e devora com prazer mesmo a poeira de minúcias bibliográicas”.122

Possuidores dessa “alma preservadora e veneradora do homem antiquário”,123 como diria Nietzsche, Eusébio de Sousa e Gustavo Bar-

roso se mobilizaram para entrar em contato com o pretérito. Por outro lado, eles assumiram uma posição cientiicista, que havia combatido os antiquários no decorrer do século XIX. Para ambos, o pesquisador pode e

121 QUINTANA, Mário. Apontamentos de história sobrenatural. 4. ed. Porto Alegre: Globo, 1987,

p. 31. Apud YOKOZWA, Solange Fiuza Cardoso. A memória lírica de Mário Quintana. Porto Alegre: UFRGS, 2006, p. 255.

122 NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempesiva: da uilidade e desvantagem da

história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 29.

deve concluir sobre o passado, e a conclusão equivale à verdade pesqui- sada. Mas o sentido do passado não se restringia a isso. Havia uma emo- tividade que alimentava a escrita, sob inluência mais ou menos direta do romantismo com o qual Alencar ou Michelet seduzia os leitores. O contato com o pretérito não se apegava ao raciocínio dedutivo ou indutivo: havia sentimentos em jogo, inclusive o “sentir”, de modo positivo ou negativo, a presença da poeira, acumulada na pátina, ou aérea em seu nomadismo.

É claro que, na argumentação de Nietzsche, tem-se uma desqua- liicação do antiquário, a mesma que se foi montando na própria querela sobre o modo correto de articular a fragmentação do passado. Por outro lado, é preciso perceber que, ao ser via de afeto, o olfato seria acionado em registros próprios, nas situações especíicas que caracterizam os eruditos em suas maneiras de guardar e estudar os artefatos.

Walter Scott explicou que existia, nas ruínas da abadia de Mel- rose, “uma rara seleção... como num queijo Stilton e com o mesmo gosto – quanto mais mofado, melhor”.124 É por isso que, de acordo com Ste-

phen Bann, havia aí uma espécie de “apetite pelo passado”, também encontrado na sensibilidade de Du Sommerard, o fundador do Museu de Cluny. Havia, nesse sentido, um “ardor pelo passado”, que dava aos objetos uma centralidade peculiar: “... podiam ser tocados e cheirados, se não efetivamente saboreados”.125

Necessário se faz, então, retornar à pergunta de Stephan Bann a respeito da sensibilidade antiquária, citada no início: “Nietzsche fala de ‘um ar bolorento’; mas o que faz o sentido do olfato neste contexto?”.126

Em suma, Bann esclarece que o antiquário envolve, também, os sen- tidos de baixo prestígio: o tato, o olfato e o paladar. Se, na hierarquia racional, o olho tem o domínio quase absoluto, na hierarquia da “eru- dição”, o olho compartilha a responsabilidade do ato de conhecer com a insubstituível e inestimável participação da pele, do nariz e da boca.127

124 BANN, Stephen. As invenções da história: ensaios sobre a representação do passado. São

Paulo: Edusp, 1994, p. 146.

125 BANN, Stephen. As invenções da história..., p. 147. 126 BANN, Stephen. As invenções da história..., p. 140. 127 BANN, Stephen. As invenções da história..., p. 147.

As imagens literárias citadas até aqui atestam exatamente o fun- cionamento dessa sensibilidade: o uso do passado pelo uso do corpo. O olho parece ter o comando, mas nunca age sozinho. A poeira incomoda. Mas não se trata, aqui, de inventariar esses recursos literários, e sim de salientar que, na poeira, há um componente em disputa: o tempo, ou melhor, a temporalização da cultura material. Gradativamente e não sem muitas tensões, as diferenças entre velho e novo vão necessitando de linguagem que organize os indícios percebidos, dotando-os de uma dinâmica passível de datação. É aí que entra em cena a disputa pela limpeza, ou pelo que é tido (ou não) como sujeira.

Em seu romance O Antiquário, Walter Scott dá a ver uma situ- ação particularmente signiicativa. Trata-se da cena na qual o Sr. Old- bruk recebe a visita de um amigo, mais precisamente quando ambos entram na casa que abrigava o acervo e escutam o comentário de uma mulher “jovem e agradável”: “— El aposento, tío — dijo —, no estaba en condiciones que nadie pudiera verlo, y me he permitido venir con Jenny para que lo aseara y colocara cada cosa en su sitio otra vez”. “Jovem e agradável”, a mulher torna-se ícone em oposição ao Sr. Ol- dbruk. Velho e, portanto, sujo. Sujo não só ele, mas onde ele vive. Sua resposta, dada em contraposição, foi ríspida e, a depender do ouvido do leitor, um pouco ranzinza:

“— ¿Y por qué se atreven ustedes a mezclarse en mis asuntos privados? ¿No tengo dicho que mis objetos son cosas sagradas que las manos de ustedes profanan al tocarlos? ¡Fuera de aquí, cara de mico, y que no vuelva a encontrarte otra vez en este aposento, si es que estimas en algo tus orejas! Le aseguro a usted, señor Lovel, que la última incursión de pretendida lim- pieza de esta gente ha sido tan fatal para mi colección como lo que Hudibráz hizo a la de Sinofel, pues he perdido: “Mis gra- bados en cobre, con almanaques y otras chucherías; mi reloj lunar, con huesos de Napier, y varias gemas; mi pulga, mi garra- pata y mi chinche, que compré par solazarme”, como dijo Butler en su poema”.128

Na edição mexicana, com a qual estou lidando, há uma ilustração exatamente dando conta dessa cena. “Jovem e agradável”, a mulher se- gura com leveza e certa timidez uma espécie de lenço, obviamente um instrumento de limpeza.

Trata-se, obviamente, de uma escolha do editor retratar esse trecho da trama. Comparando essa edição mexicana com outra (inglesa do inal do século XIX), mais econômica no uso do papel, há poucas

ilustrações, mas a igura que abre o livro combina com o ar desgre- nhado do ser velho. Velhice que se vê tanto no Sr. Oldbruk quanto no lugar onde ele se encontra. Enquanto o primeiro editor (no século XX) valoriza a cena da limpeza, o segundo (no século XIX) dá mais sentido ao ambiente “entulhado” do Sr. Oldbruk.

Menos ácido e talvez um pouco saudoso, o romance A ilustre casa de Ramires articula de modo sutil iligranas de sentido a respeito da escrita pretendida pelo personagem central e o corpo de quem pre- tende escrever: “... pesadas estantes de pau-preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos fólios de convento e de foro...”. A grande mesa de pés torneados, a exemplo de tudo que havia ali naquele espaço, deixava entrever que pertencia a outros sé- culos, “coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho”. O móvel, tal como Eça de Queiroz o descreve, estava “atravancado” por

livros de história, dicionários, jornais e “ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott”.129

O olho do Sr. Oldbruk era aguçado, obviamente, mas nem por isso o nariz deixava de sê-lo: “Dotado de un verdadero olfato en mate- rias biblióilas, sabía descubrir con sagacidad los sítios en que alguno se deshacía de tales o cuales volúmenes, y atisbar entre éstos los que tenían valor positivo”.130 Por um lado, Walter Scott incorpora os es-

tereótipos que começaram a colar na igura do antiquário: desorgani- zado, desconectado com o presente, inútil, sem método de trabalho, colecionador de curiosidades.131 Por outro, emergem indícios do modo

pelo qual essas desqualiicações se articulam com o uso do passado que pressupõe o uso do corpo, sobretudo o nariz. Na sua ambiguidade, Scott deixa entrever o trabalho do “erudito”, igura a ser cada vez mais desprestigiada. Estava em decadência a colaboração entre o olho e os outros sentidos. Coniável passaria a ser a visão, e somente ela.

***

As práticas de Gustavo Barroso no Museu Histórico Nacional e de Eusébio de Sousa no Museu Histórico do Ceará podem ser tratadas na qualidade não simplesmente de sobrevivências, mas de pontos sobre os quais tensões e disputas em torno do passado ganham lugares con- cretos. Ambos misturaram colecionismo com patriotismo, fragmentos com o todo, particularidades únicas com o sentido de progresso, his- tória cientíica com ilosoia da história. Extrapolando as fronteiras na- cionalistas de Gustavo Barroso, Eusébio de Sousa criou outras zonas de ambiguidade, que parecem não apenas beber em tratados oiciais, mas também nas tradições orais que valorizam “curiosidades” vindas de antanho, como se certos fragmentos do passado devessem entrar nos

129 QUEIROZ, Eça. A ilustre casa de Ramires. São Paulo: Ateliê, 2000, p. 39. 130 SCOTT, Walter. El anicuario..., p. 23.

131 GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Reinventando a tradição: sobre aniquariado e escrita da

história. In: RIOS, Kênia Sousa; FURTADO FILHO, João Ernani (Org.). Em tempo: história, me- mória, educação. Fortaleza: Imprensa Universitária -UFC, 2008, p. 48.

espetáculos de circo, junto com o homem que engole fogo ou a mulher que vive no meio das cobras.

O gosto de Eusébio de Sousa por armas e fardas o fez publicar biograias de generais e uma coletânea de “casos curiosos”, intitulada Anedotário da guerra da tríplice aliança (1860-1870), com a epígrafe de um autor também seduzido por guerras e medalhas, Gustavo Bar- roso: “as anedotas pintam o caráter dos homens melhor do que muitas páginas de psicologia”.132 Apesar da circunscrição temática e crono-

lógica, além da promessa de análise psicológica, a sua escrita, quase sempre envolvida em julgamentos, cede espaço para o pitoresco, o frag- mento que até pode ser exemplar, mas se envolve de tal modo com a particularidade dos fatos que passa a ser o veículo do acontecimento em si mesmo, refratário a qualquer costura da ilosoia da história em sua pretensão de encadeamentos lógicos.

É claro que Eusébio e seus “opositores” não estão reproduzindo a querela entre antigos e modernos, entre antiquário e história cientí- ica. Mas há traços de semelhança, há certas repetições nas diferenças. Eusébio, quando assume a direção do museu, em 1932, deixa de ser juiz de Direito apenas no plano oicial. Na verdade, não há propria- mente uma troca de proissão, mas a utilização do universo do julga- mento na própria escrita da história, como se a própria escrita fosse um tribunal, a instância competente e válida para avaliar o passado que ainda há nos artefatos. Isso, obviamente, o afastaria da sensibili- dade antiquária, mas procurar essa coerência signiica apenas cair nas armadilhas de uma história do pensamento que não enxerga as ambi- guidades, os cruzamentos que geram as especiicidades das disputas em torno do que seria a “História do Ceará” e da responsabilidade do museu diante dessa história.

Em certo sentido e em certa medida, Gustavo Barroso e Eusébio de Sousa prolongam, cada qual ao seu modo, a sensibilidade dos anti- quários, que pode ser entendida hoje em outra dimensão, quer dizer, na

132 SOUSA, Eusébio de. Anedotário da guerra da tríplice aliança (1865-1870). Rio de Janeiro: La-

própria “memória da disciplina”, que se foi constituindo em um campo de tensões nem sempre explicitado pelos descendentes vitoriosos de certos combates em torno dos modos pelos quais o passado chega ao presente e como são desenvolvidos procedimentos para tratar as passa- gens do tempo. Os estereótipos diante dos antiquários, que os colocam na qualidade de conhecimento desarranjado e desconexo, movimentam- -se no meio de uma “derrota da erudição”, em nome de sentidos vincu- lados à utilidade prática do saber sobre o pretérito.133 O combate à eru-

dição dos antiquários realiza-se em duas frentes: por um lado a história cientíica e por outro a ilosoia da história, tanto nas suas diferenças propaladas quanto nas semelhanças nem sempre confessáveis.134 De

qualquer modo, um dos alvos estava deinido: o ar bolorento.

Papel velho: com ou sem valor? Qual valor? Pelo que diz ou, também, por sua textura antiga e, portanto, venerável? A depender das respostas, entra em jogo, ou não, a porosidade da pele. De um lado, pode-se dizer: o documento histórico a ser pesquisado, quase impotente como peça a ser exibida em um museu, pois não tem a aura da antigui- dade que se revela em manchas e desgastes. De outro lado: o mesmo documento histórico a ser pesquisado, mas portador da poeira dos sé- culos, excitante insubstituível para acionar a imaginação do historiador e, portanto, propício para ocupar as vitrines, na qualidade de pedaço e presença do passado. Em pauta, o valor do tempo, ou melhor, o valor da relação entre a contagem do tempo e a textura da matéria. Valor que vai do negativo ao positivo, por meio de uma imensa e instável rede de contratos, gradações e contradições. Nesse sentido, há uma ocasião em que Machado de Assis é exemplar e quase didático:

Pedro quis responder ao remoque do irmão, e propôs comprar o retrato de Pedro I. [...] o lojista pedia dous mil-réis. Notava-lhe que estava encaixilhado, e Luís XVI não; além disso, era mais novo. [...]

133 GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. “Reinventando a Tradição”..., p. 48.

134 POULOT, Dominique. Uma história do patrimônio no Ocidente, séculos XVIII-XIX: do monu-

— Que lhe custa dar dous mil-réis? — Dou-lhe dez tostões; serve?

— Não serve. Mais que isso me custou ele. — Pois então...

— Veja sempre. Pois isto não vale até três mil-réis? O papel não está encardido; a gravura é ina.

— Dez tostões, já disse.

— Não, senhor. Olhe por dez tostões leve este de D. Miguel; o papel está bem conservado.135

TEMPO