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Proposta Educativa de Fé e Alegria Brasil (2009, p. 59) afirma que:

A formação continuada é um processo sistemático e intencional organizado com vistas ao desenvolvimento pessoal e profissional do educador (popular) e orientado para a concretização de determinado modelo educativo. No caso de Fé e Alegria, esse modelo educativo tem por finalidade “a formação de homens e mulheres capazes de humanizar e transformar sua realidade, fazendo uso de suas próprias capacidades e potenciais, cognitivos e afetivos” [...].

Sendo assim, os discursos a seguir das educadoras C e D nos dizem algo a respeito da formação docente recebida no âmbito da Instituição:

Na linha da formação existem encontros em Fé e Alegria que falam de educação popular; explicam o que é Educação Popular; quem é Paulo

Freire; mas vai muito do educador. Eu aprendi muito aqui sobre educação popular. Quando eu conheci Fé e Alegria eu me apaixonei por Educação Popular. Poucos conhecem, poucos sabem o que é um educador popular; poucos valorizam a importância do que é um educador popular, que é educar muito mais além [...] (C).

Em Fé e Alegria não é perfeito, tem suas dificuldades, mas eu encontro assim muitas coisas favoráveis. [...] sobretudo o trabalho pedagógico que é realizado; todas as educadoras fazem universidade, estudam pedagogia; umas já se formaram, inclusive as que estão na hierarquia, as coordenadoras; então isso é um diferencial muito grande; é levado muito a sério os conteúdos, o que se trabalha, as reuniões, tudo pensado em transformar [...] (D).

Segundo a educadora C, a Fundação Fé e Alegria SC realiza encontros formativos na perspectiva da Educação Popular, salientando ainda que ela tem aprendido muito. A citação do nome de Paulo Freire, referencial da Educação Popular, denota, por sua vez, que a pedagogia freiriana possa ser tema recorrente de estudo nos encontros formativos realizados com os trabalhadores sociais de Fé e Alegria SC.

Do mesmo modo, no relato da educadora D, o trabalho pedagógico realizado em Fé e Alegria SC é avaliado positivamente, com destaque para a formação em nível superior das educadoras e gestoras da Instituição. Deduzimos, pois, dos discursos das educadoras C e D, que existem encontros e reuniões de formação com os trabalhadores sociais no espaço de Fé e Alegria SC.

Em relação aos documentos institucionais sobre a formação em Educação Popular, os mesmos afirmam que:

Em Educação Popular o que se intenta é a transformação social, e o educador, dentro desse contexto, precisa ser instrumento e mediador desse processo de mudança. Então temas como democracia, participação, cidadania, direitos humanos fazem parte do conhecimento e vivência do educador de Fé e Alegria [...] (Proposta Educativa de Fé e Alegria Brasil, 2009, p. 60).

Por sua vez, no discurso da trabalhadora social E a seguir, é sugerido que no espaço de Fé e Alegria SC existe a possibilidade de estudar a proposta educativa da Instituição, a pedagogia freiriana e a missão jesuíta:

Como eu já trabalhei em outros lugares, em outras escolas, eu penso que quando tu se torna um educador de Fé e Alegria, um educador popular, tu enxerga estudando a proposta, estudando até mesmo a missão jesuíta, estudando a história de Paulo Freire, a fundamentação freiriana; tu começa a enxergar os sujeitos diferentes; tu enxergas que tu podes fazer a diferença; que tem que partir de ti primeiro né, de entender quem é que tá

ali na tua frente; que não tem só conteúdo pra passar, que tu não tá ali só pra transmitir conhecimentos (E).

O relato acima da trabalhadora E evidencia, além do mais, uma compreensão do papel diferente de um educador popular, bem como o entendimento de que ao educador popular não basta a mera transmissão mecânica de conteúdos aos educandos. O discurso dessa trabalhadora indica maior sintonia com uma concepção libertadora de educação em oposição a uma concepção “bancária” de educação. Desse modo, é necessário ensinar e aprender de outra maneira, levando em consideração que a educação é prática de liberdade. A esse respeito, Paulo Freire afirma que:

[...] se os homens são estes seres da busca e se sua vocação ontológica é humanizar-se, podem, cedo ou tarde, perceber a contradição a que a “educação bancária” pretende mantê-los e engajar-se na luta por sua libertação (FREIRE, 2016, p.86).

Neste sentido, lutar pela libertação é tarefa histórica de todo ser humano oprimido em união com seus semelhantes também impedidos de realizarem sua vocação ontológica35. Para tanto, ao educador comprometido com a transformação e emancipação de seus educandos, ou seja, com a realização da vocação ontológica desses e de sua própria, Freire (2016, p.86) salienta que:

Um educador humanista, revolucionário, não há de esperar esta possibilidade. Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos. Do pensar autêntico e não no sentido da doação, da entrega do saber. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador. Isto tudo exige dele que seja um companheiro dos educandos, em suas relações com estes.

Sendo assim, um educador que se pretenda humanista deve procurar estabelecer com os seus educandos uma identificação que seja capaz de promover a sintonia necessária para o estabelecimento de um pacto afetivo e efetivo, ou seja, revolucionário, capaz de colocar em movimento um processo coletivo de transformação social.

35 Este conceito é essencial para o desenvolvimento de todo o pensamento antropológico, filosófico e pedagógico de Paulo Freire, pois é a partir da compreensão de nossa vocação ontológica direcionada para o ser mais, onde cada pessoa assume a condição de sujeito de sua própria história, que podemos pensar o processo educativo e a possibilidade de humanização, libertação histórica. Existir para o ser humano é tarefa sem fim, processo permanente de construção de si. Nossa existência se destina a ser o que ainda não somos. Realizamo-nos na história, no tempo. Cada pessoa é um processo que não acaba nunca [...] (TROMBETTA, 2016, p. 416).

Ainda sobre a questão da formação docente em Fé e Alegria SC, ocorreu no mês de julho de 2017, na cidade de São Leopoldo RS, um Seminário no qual participaram duas trabalhadoras sociais de Fé e Alegria SC juntamente com o autor da presente investigação. Nesse Seminário, denominado I Seminário para a Promoção da Justiça Socioambiental, promovido pela Companhia de Jesus, foi trabalhado o tema “Educação Popular – Contextualização e Metodologia”.

Portanto, a partir dos relatos dos trabalhadores sociais de Fé e Alegria SC e dos dados obtidos através da observação participante e da análise documental, inferimos que há uma preocupação, por parte da Instituição, pela formação de seus trabalhadores sociais na perspectiva da Educação Popular.

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