• No results found

A Educação Popular latino-americana recebeu, em sua gênese histórica, a influência de alguns intelectuais da modernidade clássica como Karl Marx (1818) e Antonio Gramsci (1891).

Segundo Marx, citado por Gadotti (1990), a ação educativa é uma ferramenta fundamental para a emancipação do sujeito e das classes exploradas, no caso o proletariado, porém não suficiente para promover a transformação social. Para esse intelectual e ativista, é necessário que no processo emancipatório esteja implicado, ao mesmo tempo, o engajamento pedagógico e político pela transformação material das relações sociais.

Além disso, Marx não separa, ao invés integra, a educação com o trabalho. Para ele, educação e trabalho devem manter uma estreita relação por meio da “[...] combinação da educação com a produção material [...]” (MARX, 2014, p.61).

Comentando essa estratégia pedagógica de Marx, Gadotti (1990, p. 53) afirma que:

Em Marx o trabalho assume um caráter formativo, eliminando o intelectualismo e fomentando a investigação do mundo circundante e preparando condições para superar a dicotomia entre trabalho manual e

trabalho intelectual, superando a dicotomia burguesa existente entre educação escolar e extraescolar.

Corroborando com a necessidade de unir trabalho intelectual e trabalho manual, teoria e prática, conscientização e ação, no processo de emancipação das classes populares, Pimenta (2014, p. 60) estabelece alguns outros indícios de articulação entre o marxismo e a Educação Popular:

“A ação educativa enraizada nas relações sociais, onde todos ensinam e aprendem ao mesmo tempo (concepção epistemológica, conhecimento como processo e aprendizagem como apropriação, reinterpretação e recontextualização de saberes). ” [...]

[...] “A aposta no protagonismo e no papel dos oprimidos como sujeitos da transformação” […]

[...] “O educador, a partir da diretividade da educação, como intelectual orgânico (Gramsci) comprometido com a transformação social. ” [...]

Desse modo, por meio do protagonismo mediado pelo educador comprometido (intelectual orgânico), os sujeitos oprimidos serão capazes de desenvolver uma consciência crítica capaz de produzir um saber crítico que desmascare as relações sociais de dominação de uns sobre outros, criando as condições para a transformação e emancipação sociais.

Por sua vez, Paulo Freire constitui-se um dos inspiradores da Educação Popular enquanto concepção de uma pedagogia conscientizadora e emancipadora dirigida às classes populares. A originalidade do seu pensamento teórico encontra- se na ideia de que devemos considerar o contexto no qual vivem os educandos como sendo a fonte dos conteúdos a serem estudados em um processo educativo dialógico. Em relação à necessidade de valorização desse contexto de origem dos educandos, Freire (2001, p.140) afirma que,

No universo infantil, para mim uma condição fundamental para que o educador trabalhe com eficácia, no bom sentido que a palavra deve ter, é exatamente o respeito a essa identidade cultural das crianças que, como disse, têm um corte de classe. E o respeito a essa identidade, sem o qual o esforço do educador fraqueja, tem que ver com essa leitura que a criança faz do mundo e com o qual ela chega à escola. É uma leitura que ela aprende a fazer, no convívio de sua casa, no convívio de sua vizinhança, de seu bairro, de sua cidade, com a marca forte do corte de sua classe social. Com essa leitura ela chega à escola, que, quase sempre, despreza esse saber anterior. Nessa leitura ela traz obviamente a sua linguagem, ela traz a sua sintaxe, ela traz a sua semântica. Ela fala, afinal de contas. Ela tem isso que os linguistas chamam de competência linguística.

Nesse sentido, é fundamental ao educador popular valorizar os saberes de seus educandos, auxiliando-os primeiramente na leitura do mundo como algo que precede e colabora, substancialmente, na leitura da palavra e que implica no desvelamento da realidade pelos próprios sujeitos.

Do mesmo modo, encontramos na Proposta Educativa de Fé e Alegria (2009, p.25), a preocupação com o protagonismo dos sujeitos e comunidades no processo de transformação da realidade na qual estão imersos.

Se a proposta educativa se viabiliza desde e com as comunidades, temos aí já um primeiro requisito: o ponto de partida é a prática social dessas comunidades, que problematizada, passa pelo crivo de criteriosa análise que possibilita um nível de conscientização, o qual desencadeia o processo de ação transformadora. Define-se, assim, um jeito peculiar de fazer, porque há uma finalidade especial a atender: a transformação, a mudança para melhor, protagonizada pelos próprios sujeitos envolvidos. Este é o jeito de fazer educação popular.

Esse processo de ação transformadora sobre a realidade a partir da conscientização dos próprios sujeitos e comunidades supõe, portanto, uma educação problematizadora. Quanto mais avança a problematização e quanto mais os sujeitos penetram na essência do objeto problematizado, mais capazes são de desvelar tal essência. Quanto mais a desvelam, mais se aprofunda o despertar de sua consciência. Essa autoinserção crítica na realidade, quer dizer, sua conscientização, faz com que a transformação do seu estado de apatia em um estado utópico19 de denúncia e anunciação se torne um projeto viável (FREIRE,

1990).

Sendo assim, a busca por um projeto viável de anúncio e denúncia que retire os grupos marginalizados e oprimidos do estado de apatia e resignação a que foram submetidos e os transformem em protagonistas da história, apresenta-se de extrema atualidade, haja vista que o modelo econômico neoliberal em curso tem produzido mais desigualdade e exclusão social e operado de tal modo através da grande mídia sobre as consciências, que essas permaneçam anestesiadas e apáticas.

19 A perspectiva utópica de Paulo Freire, em conformidade com a compreensão de Ernst Bloch, diz respeito à utopia concreta. Na obra Conscientização: teoria e prática da libertação – uma introdução ao pensamento de Paulo Freire, é explícita sua compreensão de que “o utópico não é o irrealizável; a utopia não é o idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante” (p.27). A utopia freiriana está relacionada à concretização dos sonhos possíveis [...] e decorre de sua compreensão da história como possibilidade, ou seja, a compreensão acerca de que a realidade não “é”, mas “está sendo” e que, portanto, pode vir a ser transformada (FREITAS, 2016, p.413).

Outline

RELATERTE DOKUMENTER