2.7 T EKNIKK
2.7.1 U TVALG
cienciometria (MENEGHINI, 1998; MINAYO, 1993; MUGNAINI, 2006; PACKER, 2014; RODRIGUES, 2005) que indica a necessidade de revisão de como o fator de impacto vem sendo considerado no processo de avaliação das pesquisas, artigos e periódicos. Indicam que o índice de citações muitas vezes desconsidera que os artigos mais citados se tratam de ensaios teóricos que embasam o pensamento de outras pesquisas, por isto acabam sendo muito mais citados que outras produções que poderiam até mesmo conter um material de maior relevância à aplicabilidade social, retomando a ideia inicial de que a ciência, a pesquisa, tem de estar a favor da melhoria da sociedade em geral e não uma ciência que se retroalimenta internamente sem aplicabilidade efetiva no âmbito social.
O que está em jogo é a necessidade de produção de conhecimento de qualidade e a disponibilização de tal saber à população em geral, buscando o que Campos (1984) ressalta ser a necessidade de fusão entre interesse científico e interesse social, redimensionando a importância da educação científica defendida por Bernal, desde a década de 1930.
Direcionando-se à área de Educação, pode-se nos perguntar se a produção do conhecimento e sua disponibilização tem se pautado por preocupações com sua qualidade, entendida como a fusão do interesse científico e social. O próximo item é dedicado ao tema.
2.4. A PESQUISA EM EDUCAÇÃO E A PESQUISA EM DIDÁTICA NO BRASIL
A discussão sobre a pesquisa em educação no Brasil já tem uma longa história. Dentre as análises disponíveis em publicações nacionais, encontra-se número significativo de avaliações sistemáticas que buscam oferecer um panorama abrangente da pesquisa nessa área. Exemplos desse tipo são os estudos de Gouveia (1970, 1971, 1974, 1976), que examinam a pesquisa educacional desde seu início como atividade regular, com a criação do Inep em 1938, até a década de 1970; o trabalho de Gatti (1983), que estende a análise até 1982; e as resultantes do projeto “Avaliação e perspectivas na área de educação” (Anped, 1993), que cobre o período de 1982 a 1991. Outras análises, ainda que se dediquem a aspectos mais específicos, tornaram-se referência e são mencionadas nas produções, como, por exemplo, as de Cunha (1979, 1991), Goergen (1986), Mello (1983) e Warde (1990).
Hayaschi (2007) salienta a importância das análises das pesquisas realizadas, indicando que a avaliação, em qualquer ramo do conhecimento, permite dignificar o saber na
utilização de métodos confiáveis e sistemáticos, para mostrar à sociedade como tal saber vem se desenvolvendo e de que forma tem contribuído para resolver os problemas que se apresentam em sua área de abrangência.
Dado o quadro social e a importância do conhecimento científico à sociedade, os 1729 programas de Pós-Graduação em Educação no Brasil, que juntos oferecem 246 cursos stricto sensu, adquirem papel de destaque no processo de produção de conhecimento que possa apoiar as necessidades de melhoria do quadro educacional do país, subsidiando ações de cunho governamental, políticas públicas, programas e ações educacionais, suporte de pesquisa e formação dos profissionais da educação, dentre outras. Para tanto, o acesso às produções dos diferentes grupos e pesquisadores que compõem estes programas ocorre, para além das publicações formais das pesquisas, em relatórios, banco de teses e dissertações, congressos, seminários etc., via periódicos indexados no SciELO, dada a maior amplitude de acesso que esta biblioteca virtual possibilita.
Bittar et al (2011) afirmam que o desenvolvimento da pesquisa em Educação no Brasil, sobretudo nos últimos anos, com a expansão dos programas de pós-graduação, trouxe contribuições significativas ao enriquecimento da compreensão dos processos educativos, particularmente escolares. Indicam que as revistas acadêmicas especializadas em educação, como a Revista “Educação e Pesquisa” (indexada no SciELO) e alguns outros periódicos, representam veículos imprescindíveis, capazes de divulgar os resultados de pesquisas e estudos sistemáticos sobre as questões educacionais, fundamentais para embasar determinadas posturas e concepções e, consequentemente, para elevar o nível do debate realizado na atualidade.
A partir da pesquisa que realizaram, Bittar et al (2011) levantam a constatação de que tanto na Revista Brasileira da História da Educação – RBHE – quanto na Revista Brasileira de Educação, as citações de teses e de dissertações são proporcionalmente baixas em relação às outras fontes pesquisadas, tais como livros, artigos de periódicos, capítulos de livros e até mesmo de jornais, como foi o caso dos artigos da RBHE. Afirmam que, se a pesquisa educacional está concentrada nos cursos de pós-graduação, onde naturalmente as teses e dissertações se constituem em produtos da pesquisa científica, possivelmente esteja acontecendo uma rápida transformação desses produtos em artigos de periódicos e capítulos de livro, ficando a impressão de que o objetivo é transformar, o quanto antes, as dissertações e
9 Dados quantitativos de Programas recomendados e reconhecidos pela Capes, localizados em:
https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/programa/quantitativos/quantitativoAreaConhecim ento.jsf?areaAvaliacao=38 – consulta em 15 de janeiro de 2017
teses em artigos, não se convertendo, elas mesmas, em objeto de consulta dos pesquisadores. Constata-se ainda ainda mais a percepção de que o locus de comunicação científica é o periódico científico, por meio do artigo.
Partindo, assim, do reconhecimento do contexto da Sociedade da Informação, da educação escolar como ação social fundamental à autoproteção dos indivíduos e grupos, respaldada pelo conhecimento científico, reforçam-se os indicativos à demanda por investigar as pesquisas do campo da Didática para repensar as questões radicais constitutivas da área da educação, como o processo de ensino e de aprendizagem de conteúdos, e o desenvolvimento de habilidades e competências pelos estudantes.
No que tange às pesquisas do campo da Didática, cabe sublinhar a de Fernandes e Leite (2007) e a de Gatti (2008), pois direcionam suas investigações junto a dois espaços que se dedicam exclusivamente a divulgar e colocar em discussão as pesquisas e estudos do campo, a saber: o Grupo de Trabalho de Didática da Associação Nacional de Pós- Graduação em Educação (GT-Didática da Anped) e o Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino (ENDIPE).
Fernandes e Leite (2007) realizaram uma pesquisa sobre a produção do GT Didática da Anped, nos 30 anos de existência da Associação, e apresentam, com base na análise de 317 trabalhos, as temáticas mais evidentes nas investigações ali realizadas: 97 trabalhos de teorização sobre didática; 42 trabalhos sobre formação docente; 41 trabalhos a respeito de metodologias/práticas; 36 trabalhos abordando ensino e aprendizagem de conteúdos específicos; 29 trabalhos sobre avaliação; 25 trabalhos sobre saberes docentes; 14 trabalhos sobre o professor; 8 trabalhos sobre projeto pedagógico; 7 trabalhos a respeito de material didático; 5 trabalhos focalizando escola; 5 trabalhos focalizando pesquisa e ensino; 4 trabalhos sobre prática de ensino; 3 trabalhos sobre aula; 1 trabalho sobre aluno. Para as autoras, todos estes estudos, embora realizados a partir de distintas abordagens metodológicas, tanto a partir de natureza teórica como de natureza empírica, apontam em seus resultados para transformações epistemológicas, teórico-metodológicas e das práticas cotidianas, abrem espaços para a incorporação de novos conceitos e enfoques. Mas, ao mesmo tempo, carecem de indicações objetivas, em que possam apoiar a compreensão das estruturas sociais e o seu funcionamento, e, as relações que a prática de ensinar estabelece com este. Gatti (2008) analisou os trabalhos apresentados no ENDIPE no período de 1998 a 2004, e afirma que todos apresentam análises de situações de ensino e de aprendizagem, com contribuições restritas ao campo, posto que se dedicam mais a apresentar descrições, do que efetuar uma análise propositiva do objeto investigado. A autora indica que nas pesquisas
sobre ensino, está sempre presente a figura de quem ensina, enfatizando os problemas e dilemas de sua formação, aparentemente desconsiderando todos os demais fatores que podem circundar a questão do ensino e da aprendizagem. Ela, porém, acredita que o problema não está nos recortes realizados para delimitar o objeto ou a questão de pesquisa, mas no fato destes serem tomados não como recortes parciais e sim como “o conhecimento” em Didática, sem inter-relacioná-lo com outros aspectos e recortes.
Junto a estas indicações, o tema “a importância da pesquisa na melhoria do ensino” é uma das abordagens de pesquisa analisada por Marcondes, Leite e Leite (2009). As autoras afirmam que os textos produzidos a partir de tal temática de investigação, embora apresentem indícios sobre sua relevância, não trazem evidências sobre sua efetividade. Ressaltam esperar da atividade científica, do campo científico educacional, não apenas uma dimensão epistêmica e pedagógica, mas, para além disso, uma dimensão social, que viabilize intervenções eficazes na sociedade, tendo em vista todos os dilemas que a instituição escolar vivencia e evidencia nos altos índices de analfabetismo, analfabetismo funcional e insucesso dos objetivos educacionais. Tais aspectos, por sua vez, indicam que, se por um lado, temos muitas contribuições do campo científico educacional no que diz respeito à dimensão epistêmica e pedagógica, por outro, as investigações não estão conseguindo executar com êxito sua dimensão social, para alavancar e estremecer a estrutura que fomenta o quadro de baixo índice educacional nas escolas públicas brasileiras.
Para Marcondes, Leite e Leite (2009), o problema de não estarem atingindo tal objetivo deve-se ao fato de que a grande maioria das pesquisas dedica-se intensamente às descrições e a análises pontuais, eximindo-se do compromisso com a prática que é assumida, explicitamente, pelo campo da Didática. Para as autoras, o campo da Didática inclui o compromisso político com a educação de qualidade para todos, portanto, as pesquisas deste campo devem assumir um compromisso com a prática, não de cunho prescritivo, mas numa perspectiva propositiva, que foge da pretensão de aplicabilidade linear, porém ressalvado o compromisso político do campo com a realidade educacional. As autoras afirmam ainda que, ao analisar os trabalhos apresentados no GT-Didática da Anped, nos anos de 2004 a 2008, embora as análises e conclusões destaquem um compromisso com a qualidade e a democracia das práticas pedagógicas, faltam, por outro, sistematizações das análises e conclusões, o que pode estar comprometendo sua efetividade como contribuição para o fazer pedagógico cotidiano.
Diante de tais apontamentos de lacunas nas investigações em Didática, será que em nada contribuem as pesquisas para a construção de novos saberes e práticas escolares que
possam apoiar a superação dos dilemas educacionais postos na realidade brasileira? Pesquisas como as destas autoras ressaltam que os estudos são muito evasivos como respostas às questões concretas da prática pedagógica.
A partir da revisão apresentada até este item da tese, foi assumida a premissa que as pesquisas pouco têm contribuído para a garantia de aprendizagem de conteúdos, o desenvolvimento de habilidades e competências, e o enfrentamento de dilemas postos no cotidiano do trabalho e nas práticas escolares, uma vez que as fragilidades, reiteradamente apontadas, persistem. Daí a necessidade do campo, uma vez mais, voltar-se para si, num esforço de analisar o que foi e está sendo feito e o que se precisa fazer no futuro para que as ações científicas possam cumprir mais eficazmente seu papel social.