5. Analyse av vignetten fra Skam
5.3 Tv-bildenes meningspotensial
5.3.3 Tv-bildenes tekstuelle metafunksjon
Amanda (02/06/01), Lucas (09/11/06), Verônica (20/10/03) e Igor (03/02/10) foram acolhidos em 25/01/11, encaminhados pelo CREAS após averiguação de denúncia relativa ao abandono de uma criança em uma escola, era Verônica. O endereço da criança foi localizado e havia mais três crianças na casa. A casa não tinha portas, não havia nenhum adulto e à época a criança mais velha contava oito anos, além de haver um bebê de seis meses. O motivo citado foi situação de risco.
A mãe das crianças tem, além desses quatro citados, mais três filhos que moram com ela e mais duas que moram em um interior, que já são maiores de idade. Trabalha como doméstica na casa de uma senhora havia dois anos e que a casa onde trabalha é próxima da sua. Não confiava em ninguém para tomar conta dos filhos, deixando-os sozinhos. Antes do
final do ano de 2011, a genitora das crianças já havia investido na recuperação da estrutura da casa. Em novembro já havia reformado a casa, trocando o telhado e colocando porta na casa. Afirmou cuidar de um idoso, apenas no turno da manhã, no qual as crianças estariam na escola, e, pela tarde, ficariam com ela e, caso se precisasse se ausentar, ficariam em companhia do irmão mais velho de 17 anos.
Em 13/02/12, após visita, a equipe do abrigo compreendeu que havia condições de as crianças retornarem ao convívio familiar. Depois de inúmeras visitas às criança, deslocando- se de bairro distante, insistindo que havia reunido condições exigidas para que as crianças ficassem com ela, a genitora das crianças afastou-se por quase 1 ano das visitas, pois ficou grávida e teve uma filha, e isso deixou sua saúde debilitada, a ponto de não poder visitar os filhos. A situação permanecia como antes: trabalhando em casa de família e com um companheiro servente de pedreiro.
Em 24/09/13, outra visita domiciliar foi realizada pela unidade. No relatório da visita consta que havia um equipamento de fazer churrasco e garrafas de bebida. A mãe das crianças então afirmou que era parte de seu “ganha pão”. A referida senhora ainda empreendeu a troca da casa, orientada pelo juizado para tanto, pois a casa antiga era apenas sala/cozinha e quarto, e banheiro. A venda do churrasco pareceu um problema, pois punha em risco a vida das crianças novamente, caso retornassem, pois haveria venda de bebida alcoólica na frente de casa, onde transitaria os filhos ainda crianças e adolescentes.
No dia 13/10/13, a mãe foi assassinada pelo companheiro, por conta de uma briga que ocorreu durante a venda de churrascos. Os populares da vizinhança espancaram o companheiro até a morte.
Este caso torna-se emblemático em nossa pesquisa, pelo teor trágico que se apresenta, pela morosidade da justiça, incapaz de decidir rapidamente sobre o destino das crianças acolhidas. Indagamos que, embora inicialmente o acolhimento tenha sido feito de forma padrão e até correta, apontamos a fragilidade do apoio recebido pela família, o que acabou por prejudicá-la. Certamente as orientações recebidas pela mãe a alertaram de aspectos também importantes para o cuidado com os filhos. Entretanto, a partir do momento em que a mãe cumpriu todas as exigências feitas pela equipe do abrigo e do judiciário, o retorno das crianças deveria ter sido imediato. Nascimento (2013) nos aponta que em sua pesquisa também ouviu relatos dos pais da dificuldade em ter os filhos de volta: uma vez no abrigo, voltar para casa exige muitas mudanças e esforços. Tais mudanças e esforços por vezes estão
centradas totalmente em uma moralidade burguesa, que se faz incapaz de entender as particularidades da vida que difere da sua própria.
Apontamos o elemento central, dentre outros durante o processo, que representou a venda de churrasco e bebida na porta da casa, corroborado pelo fato de a morte da mãe ter ocorrido no momento da venda. Indagamo-nos, para efeitos psíquicos, que importância teria venda de churrasco para as crianças, pois isto não afeta, a princípio, a disponibilidade psíquica desta mãe em cuidar dos filhos, nem a situação anterior que levou ao acolhimento alcança a discussão sobre os efeitos do psiquismo da mãe para a constituição subjetiva das crianças, ou seja, a casa ter portas, telhados e condições de habitabilidade apenas tange ao o que é da ordem do direito, do sujeito de direitos que é a criança. Entretanto, o que é da ordem da constituição psíquica, sujeito do desejo nunca poderá ser medido, mensurado, avaliado pelas condições de habitabilidade de uma casa.
Tanto afeto tinham pela mãe que todas demonstraram desejo de despedir-se dela, ficando inegável o pesar que se instalou nas crianças, um processo de luto pela perda da mãe. Precisamos ponderar que tanto há crianças na unidade que gostariam de voltar aos pais que os maltratam quanto há os que não querem contato nenhum com os pais. Entre esses dois extremos, temos uma grande maioria que deseja votar ao convívio familiar, pois a família representa mais do que estar acompanhado no contra turno da escola, ou ter uma boa casa.
Aqui fica claro como as condições materiais são determinantes para o acolhimento, transformado em lugar de acolhimento de crianças pobres em sua maioria. Escutamos, como se fossem exceções, veiculados na mídia, situações de negligência e descaso, maus tratos e agressões para com crianças da classe burguesa. Porém, a violação de direitos não se atém à classe pobre, que habita as periferias. Porém, como expomos, as políticas publicas voltadas aos diversos segmentos permitiu historicamente, e ainda permite, uma ingerência do estado no interior da família de forma paternalista, como forma de controle social. Vemos então que o argumento da negligência ou da situação de risco mascara outros objetivos.