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Turkey 1974-1980: Emigration in a Context of Economic, Political and Social Crisis

No que diz respeito à caracterização demográfica do local em estudo, segundo a Caracterização Social

da […] 2014, com base nos Censos 2011, a antiga Junta de Freguesia composta pelo bairro de génese

ilegal e pelo bairro social tem um total de 17805 habitantes, 4880 do sexo masculino e 5559 do sexo

feminino53.

Se do ponto de vista urbanístico e paisagístico se verifica uma segmentação do bairro, esta segmentação aumenta com a caracterização socioeconómica a Freguesia. Segundo a representante da Comissão Social de Freguesia, (considerando o bairro B como o local em análise):

“ Quando eu vim para [o bairro B] detetei uma realidade completamente diferente apesar de estarmos muito próximos [do bairro A]. Portanto a população aqui é uma população envelhecida com muitas famílias em situação de carência económica, baixos salários, com um elevado nível de desemprego, ou emprego precário. Uma população com baixa escolaridade que ronda a média do 6º. ano. Famílias que procuram os serviços sociais na base do existencialismo, e famílias que aqui, ao contrário [do bairro A], alugam casas, [...] sendo que a habitação na sua maioria é uma habitação já com muitos problemas de humidade, e fora a questão da ilegalidade desses anexos, que é uma situação que já vem dos anos 60”.

Esta caracterização feita pela representante CSF vai ainda ao encontro da caracterização feita pelos demais entrevistados, sendo referida as dificuldades económicas da população (nomeadamente da população idosa), as condições de habitação, a existência de famílias destruturadas e a falta de acompanhamento familiar de crianças e jovens.

A partir dos dados dos Censos 2011, dos 17805 residentes da antiga Freguesia que agregava o bairro B (local do estudo de caso) e o bairro C, 14963 são de nacionalidade portuguesa e 2240 são estrangeiros, dos quais a esmagadora maioria é de proveniência africana (1590), com destaque para os cabo-verdianos (741). De proveniência do continente americano registou-se a existência de 398 residentes, maioritariamente brasileiros (382), e de proveniência asiática verificou-se a existência de 154 residentes, sendo o maior número do de indianos (75), seguidos dos paquistaneses (51), e

chineses (22)54.

53 Anon (s.a), Caracterização social da … 2014. P.11

54 In http://censos.ine.pt/xportal/xmain?xpid=CENSOS&xpgid=censos_quadros_populacao [acedido pela última

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Dos residentes estrangeiros da antiga freguesia, composta pelos bairros B e C, apenas 98 eram

europeus (dos quais 28 eram oriundos de um dos 27 países da União Europeia)55.

No que toca a este aspetos, apesar de, para o executivo da Junta de Freguesia, a multiculturalidade ser algo de positivo, a questão é vista de maneira diferente pela população em geral.

No âmbito da observação participante feita junto da comunidade local, verificou-se um sentimento de desconforto da população caucasiana face à população imigrante ou de origem imigrante.

Segundo um morador: "[Os] pretos fazem muito barulho".

Uma outra moradora indica que “os preto” se juntam no topo da rua junto à sua casa e que fazem imenso barulho, diz que num domingo tinha ficado acordada porque não tinha sono e que por isso tinha ficado a ver a novela, começando às 2h da manhã a ouvir muito barulho e que a polícia ainda lá foi. Mas diz que o barulho é recorrente e que à noite aumenta, que os grupos estão lá sempre mas que à noite aumentam. Indica que inclusivamente já fez queixa ao presidente da Junta, mas ninguém faz nada. Ouvem-se ainda queixas de rixas da parte de uma outra moradora, indicando que terão sido levadas a cabo por grupo de indivíduos negros porque "as raças brancas não misturam muito com eles".

A reação de desconfiança estende-se ainda à recém-chegada população asiática, notória devido ao aparecimento de lojas de conveniência.

Segundo uma moradora: “Agora abriu mais uma loja de monhés, mais uma?! Esses são outros!” Nos inquéritos passados aos alunos das turmas selecionadas é referida, também, como aspeto negativo por alguns alunos a existência de “raças/ etnias perigosas”.

Verifica-se a partir destes dados, a forte multiculturalidade do local, sendo que a existência de uma população imigrante tão forte no bairro pode ser explicada pela atratividade dos baixos custos habitacionais decorrentes dos ainda tão numerosos edifícios de habitação ilegais.

No que diz respeito à caracterização da população adulta (com mais de 18 anos) da antiga Freguesia (correspondendo aos bairro B e C), dos 17805 residentes, 1134 não apresentavam em 2011 qualquer nível de escolaridade, sendo que quanto maior for a idade dos residentes maior o número de casos em que se regista essa ausência de escolaridade.

Com o 1º. ciclo do ensino básico, registaram-se 5075 casos. Com o 2º. ciclo do ensino básico, registaram-se, em 2011, 1346 casos, com o 3º. ciclo do ensino básico 2512 casos, e com o nível de ensino secundário, registaram-se 2375 adultos.Com o ensino superior verifica-se a ocorrência 68.

55 In http://censos.ine.pt/xportal/xmain?xpid=CENSOS&xpgid=censos_quadros_populacao [acedido pela última

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De acordo com os dados definitivos dos Censos 201156, no ano 2011, dos 8460 residentes pertencentes

à população ativa, 10 trabalhavam no setor primário da economia, 1327 trabalhavam no setor secundário e 5530 no setor terciário, dos quais 1812 estariam empregados no setor social e 3718 no setor económico.

É, contudo, identificado como problema local o desemprego, não só pelas associações, organização e instituições locais, como pela população e pelo Gabinete de Inserção Profissional.

A representante do GIP, no âmbito da entrevista realizada, refere que, no bairro B, existem cerca de 600 desempregados, dos quais aproximadamente 110 têm mais de 40 anos. A situação de desemprego é agudizada pelo baixo nível de escolaridade, não só na população adulta como também na população jovem que abandonou precocemente os estudos. Refere ainda a reduzida oferta local em termos de emprego, muito circunscrita ao centro comercial e ao comércio local que enfrenta grandes dificuldades, estando a população empregada no comércio local em situação de volatilidade.

De forma a explicar a baixa escolaridade enquanto fator de desemprego da situação dá nota de um exemplo em que uma empresa de manutenção automóvel, que vai abrir junto ao centro comercial localizado na Freguesia, terá solicitado ao GIP a indicação de possíveis perfis para o trabalho na área, contudo, tendo o GIP inscritos que toda a vida trabalharam em oficinas, estes não foram aceites porque muitos têm apenas a 4ª. classe, sem qualquer certificado de habilitações para o exercício da atividade profissional. "Tenho pessoas que estou a atender desde setembro", refere.

No âmbito do desemprego, refere a representante do GIP a fraca sensibilidade da população para a formação, por outro lado reflete na adequabilidade dos cursos à população, em termos de conteúdos e em termos de áreas para as quais as formações se encontram direcionadas.

Segundo o presidente da Junta de Freguesia, esta situação de desemprego e a procura de respostas pouco adequadas é causa e reflexo de graves problemas sociais já que:

“[o bairro] sofreu das políticas de inserção que não existem. É assim, quando nós partimos de uma família e intervencionamos e ao fim do Rendimento Social de Inserção e dos apoios que estão inerentes, o que é que nós fizemos? Nós, o país. Nós fizemos o Rendimentos Social de Inserção. Pagamos às pessoas por conta bancária, depois criamos os Bancos Alimentar, com a maior proximidade possível, depois alternativas em termos de formação, ocupação também com a maior proximidade possível, não criamos nenhum mecanismo que permitisse a mobilidade para esta gente, e eu já lhe digo o que é que quero dizer com isto. O que é que aconteceu? Aconteceu que nós guetizámos estas pessoas. Perderam hábitos de mobilidade, perderam responsabilidades, perderam hábitos de deslocação, ou seja, têm tudo à porta de casa. E uma vez que têm tudo à porta de casa, ao fim de 2 ou 3 ou 4 anos de estarem nesta situação,

56 Divisão da Informação Geográfica – Município da Amadora, (…), Amadora Censos 2011 Síntese dos Resultados

Definitivos. In http://www.cm-

amadora.pt/images/artigos/informacao_geografica/pdfs/sintese_resultados_definitivos_censos_2011.pdf [acedido pela última vez a 9 Novembro 2014].

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quando lhes é proposto uma alternativa de emprego, esta gente tem uma dificuldade terrível de aceitar, porque já não tem hábitos de responsabilidade, de mobilidade, ao contrário daquilo que podia ter sido feito.”

Também a representante do GIP reflete em respostas para o emprego inadequadas face à população local dando como exemplo que "Só para ir daqui e voltar ao Centro de Emprego da Amadora [de transportes] são 5€."

Reflete contudo na necessidade de um trabalho junto da população de forma a ser feita uma procura ativa de emprego por parte da mesma, acrescentando que o faz ao levar as pessoas a ver o painel de oferta (criando-se com o passar do tempo essa rotina da parte do utente).

É ainda indicado pela representante do GIP a necessidade de uma formação adequada e a procura de respostas integradas nas quais devem participar os vários atores locais tendo em vista o combate ao desemprego.

A existência da manutenção do desemprego nas famílias leva, segundo a diretora de uma associação de jardim-de-infância e ATL, a situações sobrevivência, indicando: “não sei como é que as pessoas sobrevivem. Umas horas aqui, outras acolá, nada declarado, tudo assim, sem ser com contrato de trabalho, há muita gente a trabalhar nessa parte."

Dá conta nesse sentido da existência de uma economia paralela como resposta a uma situação de desemprego.

Outros problemas locais foram ainda identificados pela população, entre eles encontram-se a falta de respeito, a falta de higiene nas ruas, perturbação da via pública por causa dos estacionamento sobre os passeios e passadeiras, a falta de espaços verdes, a degradação do espaço público, a fragilidade do comércio local, o tráfico de estupefacientes.

Esses problemas são sobretudo indicados através da observação participante em que são recolhidos relatos de moradores que indicam:

"Acho que está tudo muito mal, já não há respeito nenhum por ninguém, as pessoas levam os cães à rua e deixam a porcaria toda no chão, o chão está cheio de porcaria, noutros lugares chega-se a pagar de multa por causa disso aos 200 e 500 €, mas aqui não, aqui ninguém faz nada. É os carros no passeio, é o lixo na rua, é os caixotes na parede, é uma pouca-vergonha. Ainda um dia destes hei de ir falar com o presidente da Junta”

Também estes aspetos negativos são indicados pelos alunos que preencheram os inquéritos, considerando como aspetos negativos mais relevantes o tráfico e consumo de estupefacientes, a falta de respeito, os assaltos, a limpeza das ruas, a criminalidade e a confusão e barulho.

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Um dos aspetos positivos destacados está associado aos serviços e comércio local. Segundo uma técnica de um ator local e professora na escola: "Consigo ir tratar de não sei quantos assuntos: desde ir às compras, ao banco, ao sapateiro, à padaria sem precisar o carro."

São ainda indicados os “acesso para Lisboa”, os transportes, espaços verdes e equipamento, referidos estes últimos também os inquéritos passados aos alunos.

É ainda referido como aspeto positivo o espírito de vizinhança/ bairrismo que se vive no local.

Segundo a diretora de uma associação local de jardim-de-infância e ATL: “[…] Acho que essa gente é gente muito boa, não tenho absolutamente nada a apontar”.

Segundo o presidente da Junta de Freguesia:

“Nós uma vez aqui não queremos sair de cá. Eu não sei como é a vossa geração, sinto que é um pouco assim também. Há um sentimento […] Se nós precisarmos de meia dúzia de pessoas para fazer uma atividade, com a maior das facilidades arranjamos essas pessoas.”

Para a presidente da associação de reformados e pensionistas, existe um elevado nível de vizinhança, “[…] tanto que há casos que nos chegam quando a vizinha que ajudava foi para a casa dos filhos ou um lar".

Acrescenta o presidente da Junta indicando que essa solidariedade e espírito bairrista deriva do período em que existiam maiores dificuldades:

“Claro as solidariedades [do bairro B] da lama, sem água em sem luz, e que as pessoas andavam o dia a acartar água nos chafariz ou para subir para o 4º. andar […] com baldes de água. Criaram-se aqui redes de solidariedade que depois vão passando de geração em geração, claro vão-se perdendo, vão sendo menos enraizadas, mas continuam a existir.”

O Pároco do local apresenta ainda como exemplo a construção do centro social e paroquial, indicando ter tido, ao fim de semana, 40 homens que voluntariamente construíam o edifício, uma vez que a paróquia não tinha forma de pagar a construção.

Nos inquéritos passados aos alunos é referido ainda como aspetos positivos do local as escolas, os espaços verdes, os locais de entretenimento e convívio, bem como a atuação do centro social e paroquial no local. Este último aspeto é ainda referido pela população que no âmbito da observação participante indicou:

“a Igreja e a ajuda que dá às pessoas para mim é algo muito importante, ajuda muita gente.” Ou ainda:

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Esta última moradora dá a entender que o envolvimento da população em torno da paróquia, da construção do centro social e paroquial e da igreja, e das suas campanhas para angariação de fundos foi um importante fator de congregação da comunidade local.

Verifica-se, neste local, por um lado, uma tensão subtil entre grupos, fundamentalmente os raciais. Mas, por outro lado, é evidente, na linha da tese de Augusto Franco (2004: 46), a existência da já referida “comunidade de projeto”, isto é, “pessoas e organizações que partilham, um objeto comum – seja qual for, desde que de carácter público”. Os laços criados, em circunstâncias iniciais e adversas, foram-se transmitindo e ainda perduram nas gerações mais novas, que se traduz em confiança e solidariedade. (Granovetter, M., 1973: 1360-1380, In Ostrom, E., Ahn, T.K., 2010:86).

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