O que intentamos até o momento foi uma caracterização precisa dos subsídios teóricos necessários ao tipo de explicação que Skinner oferece da variabilidade comportamental, e mais, procuramos também uma sistematização da explicação comportamental na importante relação que verificamos entre os procedimentos de análise e interpretação comportamentais. Isso não significa que a formulação obtida tenha a pretensão de aglutinar um conjunto de hipóteses inferidas do texto skinneriano a serem testadas em investigações empíricas, ou corresponder a tecnologias comportamentais específicas. Na linha argumentativa do autor cuja obra está sendo investigada, o presente capítulo é a busca de um esclarecimento dos aspectos e processos comportamentais relevantes para uma reformulação produtiva do problema que é explicar os comportamentos considerados originais.
Parte do que foi apresentado é realmente o preâmbulo de uma explicação positiva da variabilidade comportamental tomada em todos os seus aspectos essenciais, que envolva inclusive os comportamentos qualificados como “criativos”. As noções de propriedade e contínuo, devidamente explicitadas, forçam-nos a diferenciar pelo menos dois tipos de variabilidades, presentes no nível microscópico, atômico, de interpretação do comportamento. Ainda, a sua concatenação com a possibilidade de combinação de propriedades fortalecedoras, acarretada pelas noções de complexidade e fortalecimento, será crucial na discussão futura das emissões que representam recombinações de respostas operantes.
Ainda que falemos de estímulos discriminativos e respostas, ao invés de propriedades de estímulos e de respostas, é preciso ter sempre presente que, sem a noção de propriedade,
não há justificativas que validem as proposições que tratem das relações entre estímulos e respostas, pois é por meio da noção de propriedade que se explica a existência da relação entre eventos que, integralmente, nunca se repetem, mas que compartilham da mesma relação funcional com os outros membros das classes às quais pertencem. Ainda, é a sua articulação com a noção de contínuo que complementa a possibilidade de descrição dos eventos comportamentais enquanto eventos físicos.
Sendo assim, pela própria natureza desse processo há, pelo menos de direito, além da sobreposição de classes em termos de propriedades comuns, uma sobra de material - uma porção importante de propriedades que não adquirem força suficiente para constituir classes, mas que apesar disso existem com alguma força e colocam-se disponíveis para interação com o repertório do indivíduo como um todo. A taxonomia dos operantes em termos de classes caracteriza-se, dessa forma, como casos típicos, o que não impede, mas recomenda, uma interpretação da função comportamental desempenhada por propriedades tomadas isoladamente. É apenas por meio desse procedimento que acreditamos ser possível o tratamento da interação entre operantes.
Como dissemos, a noção de complexidade é fundamental ao se distinguir as contingências de reforçamento dos processos comportamentais que determinam. Como afirma Skinner, a contingência, a relação temporal entre eventos comportamentais, é uma característica ambiental. Quando Skinner diz que as contingências de reforçamento determinam o comportamento individual, estamos enfatizando o papel do ambiente na determinação comportamental. Mas é preciso entender, também, que as contingências de reforçamento determinam o comportamento por meio de processos comportamentais e que tais processos são característicos do organismo enquanto um sistema que se comporta (Skinner, 1953b/1965, pp. 196-197). Distingue-se, portanto, contingências de reforçamento e os processos de reforçamento envolvidos. Ademais, a noção de complexidade denota que a
relação do ambiente com o organismo é sempre complexa, implicando em uma complexidade de relações entre propriedades de estímulos e de respostas e correspondentes processos comportamentais.
É interessante notar que há um motivo para considerarmos que a complexidade de um determinado repertório seja sempre crescente no decorrer do tempo, ainda que as ocorrências comportamentais correspondentes sofram por uma razão qualquer um declínio aparente na sua variabilidade de emissão. Isso se dá porque o processo de reforçamento, por conta da inevitabilidade de variações de correlações entre propriedades de estímulos e respostas, acaba sempre inserindo novas propriedades no repertório, ainda que não tenham força suficiente para ocorrências subseqüentes. Além disso, essa infinidade de propriedades de respostas com pouca força, por não ocorrerem, não se sujeitam aos efeitos do processo de extinção, e persistem, dessa maneira, indefinidamente no repertório como disponíveis para interações futuras com outras propriedades. Somos obrigados, nesse ponto, a reconhecer que os efeitos do condicionamento operante são, pelo menos em alguma medida, irreversíveis. Consequentemente, há sempre um resquício de força de todas as propriedades comportamentais que foram pelo menos uma vez correlacionadas com reforçamento.
Pode-se objetar que as ocorrências comportamentais não podem ser descritas por propriedades que não existem fora da ocorrência ou, em outras palavras, que não são especificáveis em classes operantes. Trata-se, no entanto, de mostrar que a relação entre força e propriedade é fundamental, e não acidental, e que uma propriedade, mesmo quando não possui força suficiente para constituir classes e fazer parte da definição genérica de estímulos ou respostas, pode ainda assim participar do fortalecimento de ocorrências que gerem condições propícias à sua emissão. É preciso, nesse sentido, levar em conta o fato de que a não identificação de uma determinada propriedade em classes não exclui o fato de que tenha sido correlacionada com reforçamento em algum momento na história de reforçamento do
indivíduo. Sendo assim, explicar a sutil relação entre força e propriedade deve equivaler, no bojo da presente argumentação, a uma precisão ainda maior na definição do comportamento em termos de propriedade. Desse modo preparamos o terreno para uma interpretação precisa e detalhada da variabilidade comportamental.
Uma forma de se conceber o conjunto de noções apresentadas é como uma espécie de alicerce do que entendemos ser a edificação de uma explicação, contextualizada no sistema explicativo delineado por Skinner, de casos específicos de interpretação do autor. Tratar da interpretação do comportamento segundo o ponto de vista de B. F. Skinner sem uma explicitação dessas noções seria, no nosso entendimento, superficial, não permitindo uma análise rigorosa como a intentada aqui. Ao contrário, ao lidarmos com a elaboração das noções, procuramos mostrar como se fundamenta a relação da análise com a interpretação do comportamento, evitando a constituição de uma explicação vaga e imprecisa que minasse todo o restante da investigação.
A necessidade de se identificar uma unidade não nos obriga a tomá-la como isolada. Ao contrário, tal unidade traz a marca de uma relação intrínseca com outras unidades e, ainda, com todo o sistema. No contexto da presente argumentação, a relação entre análise e interpretação é oposta àquela que no passado ficou conhecida como a relação entre análise e síntese. Por isso, consideramos que a interpretação não é a composição especulativa de unidades até se obter o fenômeno complexo (síntese), mas sim a explicação do fenômeno complexo com os subsídios obtidos pela análise (interpretação). Evita-se dessa forma a arbitrariedade do procedimento que caracterizou a psicologia da síntese e ainda de algumas suposições dos primeiros behavioristas a respeito das possibilidades explicativas do respondente. Para realçar ainda mais a distinção entre interpretação e síntese, temos ainda que levar em conta a concepção do comportamento como fluxo e o seu tratamento em termos de força e de unidades flexíveis que interagem.
Não podemos deixar de considerar também a relação que a presente investigação pode vir a ter com o modelo de seleção pelas consequências, enquanto analogia que trata da evolução em seus três níveis de variabilidade e seleção (Skinner, 1981), mas focada na evolução do segundo nível que é o do operante. Outrossim, a evolução ontogenética é a via pela qual o comportamento vai do simples ao complexo. Repertórios relativamente simples vão se complexificando a cada ocorrência de acordo com o que discutimos a respeito da irreversibilidade parcial dos efeitos do reforçamento, e esse fato denota a inevitabilidade da evolução comportamental. Mesmo em um repertório que pareça fadado à repetição deve-se perceber que o que é aparentemente uma permanente repetição é, realmente, o detalhamento, muitas vezes bastante sofisticado e sutil, de um ritual que evolui.
A teoria da evolução conta, para dar conta da variação, com explicações de outros campos, como o bioquímico e o genético. No entanto, acreditamos que a análise do comportamento deve, em um primeiro momento, dar conta da variabilidade comportamental tal como se apresenta, em seu próprio campo, sem recorrer a explicações fisiológicas. Não se trata de negar o importante papel desempenhado pelas explicações fisiológicas envolvidas na variabilidade comportamental ou mesmo em qualquer outro aspecto relacionado ao comportamento, mas sim de defender a busca por explicações comportamentais mais precisas que possam colaborar, inclusive, com as pesquisas fisiológicas da variabilidade comportamental. Essa é uma hipótese de trabalho, mas justifica-se pela possibilidade de que seja bastante produtiva. Trata-se de tomar a variabilidade comportamental como pertencendo ao escopo de estudo do comportamento “em seu próprio direito”. Em uma palavra, sugere-se que é de uma análise e interpretações comportamentais que pode surgir uma genética comportamental.
Rejeitamos, de saída, a suposição de que a variabilidade comportamental deva ser atribuída a uma randomização do comportamento, ou o que para alguns pode ser equivalente à
expressão “arranjo fortuito de contingências”. Tal expressão é uma descrição vaga das contingências de reforçamento, ao invés de uma explicação dos processos comportamentais envolvidos. Contra a hipótese da variabilidade comportamental como randomização, acrescentamos o fato de que ela supõe a escolha de alternativas preexistentes que se dispõem a serem o caso. Seria como se as possibilidades comportamentais fossem os lados de um dado cujos lances determinariam as ocorrências. Não haveria, nesse sentido, nenhuma originalidade real, pois as alternativas já estariam dadas, assim como os lados do dado. Mas isso ainda não seria um problema. O ponto importante é que tal hipótese não explica o essencial, que é a constituição das alternativas.
Por outro lado, uma explicação comportamentalista radical, segundo o ponto de vista skinneriano, preocupa-se em descrever as alternativas como respostas com alguma força no repertório, e considera a escolha como o fortalecimento e consequente determinação de uma ocorrência de resposta sob o controle de variáveis correntes. Considera-se que é preciso, principalmente, explicar como se constituem as alternativas por meio das contingências de reforçamento e da sua relação com os processos comportamentais. É inútil supor uma randomização comportamental, na medida em que ela realmente não explica nada, mas apenas supõe o que deveria ter sido explicado, apesar da sua aparente objetividade. Vê-se, assim, que a randomização, ou arranjo fortuito de contingências, é externa ao comportamento e pode levar, paradoxalmente, a uma internalização da variabilidade comportamental se for aceita como explicação última em interpretações que desconsiderem as explicações em termos dos processos comportamentais envolvidos.
Finalmente, entendemos que uma avaliação da utilidade das presentes noções deve se pautar, dentre outras coisas, na possibilidade que apresentam de explicar a variabilidade comportamental em um nível “microscópico” de análise, que podemos sistematizar em
formas produtivas de se reformular questões que digam respeito aos seguintes pontos, fundamentais para o que nos propomos de início:
1) ocorrências de estímulos que sejam novas em termos de contínuo; 2) ocorrências de respostas que sejam novas em termos de contínuo; 3) ocorrências de estímulos que sejam novas em termos de propriedade; 4) ocorrências de respostas que sejam novas em termos de propriedade; 5) constituição de novas classes comportamentais;
6) ocorrência de mutações como subsídios à seleção pelas consequências; 7) variabilidade comportamental como randomização de respostas do repertório. Os pontos (1) e (3) são explicados quando consideramos a articulação entre as noções de contínuo e de propriedade referindo-se aos estímulos. Sendo assim, ocorrências que apresentam propriedades de estímulos cujo valor pertença ao contínuo de uma propriedade já estabelecida podem fortalecer ocorrências de respostas, embora isso se dê naturalmente com menor força. Isso explica como pode surgir um novo valor de uma determinada propriedade e, ainda, como um determinado valor no contínuo pode corresponder, de modo mais radical, a uma nova propriedade comportamental, que é do que trata o ponto (3). Especificamente com relação ao ponto (3) temos, de acordo com a noção de propriedade, que as propriedades de estímulos são relativamente autônomas e podem, por essa razão, aparecerem em novas configurações de estímulos que, em uma determinada emissão, apresentam-se como ocorrências novas de estímulo se tomadas em sua totalidade de propriedades comportamentais.
Os pontos (2) e (4) estão relacionados com o fato de que valores diferentes no contínuo de uma propriedade de resposta correlacionada com reforçamento também adquirem força, podendo ocorrer em ocasiões que, por outras razões, enfraqueçam o valor correlacionado diretamente com o reforçamento. Um exemplo comum desse aspecto
comportamental é o caso de comportamentos que são punidos mas que continuam a ser emitidos, mas com menor magnitude da resposta e, dependendo da extensão dessa diminuição de magnitude, com uma nova propriedade de resposta correspondente. É essencialmente esse o mecanismo que faz com que um comportamento verbal punido passe a ser emitido encobertamente (Skinner, 1957). Ademais, por conta da relativa autonomia das propriedades de respostas, condições propícias de fortalecimento podem levar à emissão de respostas que apresentem uma recombinação de propriedades.
O ponto (5) explica-se a partir dos pontos (1), (2), (3) e (4). A ocorrência de estímulos ou respostas em novas configurações, valores no contínuo, ou ainda com novas propriedades, sendo correlacionada com reforçamento, colabora com a constituição e modificação das classes comportamentais no repertório individual. É importante considerar, também, que isso não é inevitável, e que propriedades e contínuos correlacionados com reforçamento podem não adquirir força suficiente para a constituição de classes, mas é fato que mesmo assim acabam constituindo o arsenal de tendências comportamentais existentes em um determinado repertório. Tal arsenal de propriedades pode, como já dissemos ao tratarmos da noção de propriedade, fazer parte ainda da definição de novas classes comportamentais, dependendo da forma como o repertório como um todo se modifique em ocorrências posteriores.
A expressão “mutações” (6), enquanto se referindo ao operante, corresponde às ocorrências de novos estímulos ou respostas em novas interrelações e se traduzem, portanto, aos casos (1), (2), (3) e (4) que , por sua vez, são subsídios também ao processo de seleção pelas consequências que leva à constituição de classes conforme o ponto (5). As mutações, nesse contexto, são explicáveis segundo os processos comportamentais conhecidos e não representam, portanto, nenhuma forma de indeterminação. É evidente que os aspectos comportamentais envolvidos em todos os pontos elencados são decorrentes de contingências específicas de reforçamento que podem ainda ser melhor descritas. Mas é verdade, também,
que, até o momento, o que nos interessa é identificar a variabilidade no nível microscópico do comportamento no que toca aos processos comportamentais estudados por B. F. Skinner.
Finalmente, a questão envolvida em (7) retoma a nossa discussão sobre a suposição de que o organismo apresenta sempre um certo grau de variabilidade irredutível, o que parece se justificar pelo emprego da noção de probabilidade na explicação comportamental formulada por Skinner. Mas, como mostramos ao tratarmos da noção de força de resposta, a probabilidade não serve como um apelo à ignorância das variáveis que determinariam completamente o comportamento. Ao invés disso, a probabilidade é simplesmente um artifício útil para a identificação das múltiplas fontes de determinação comportamentais. Nesse ponto, a noção de força mostra-se como um instrumento a ser empregado em uma identificação precisa da determinação comportamental. Sendo assim, variabilidade enquanto “randomização” pode ser, no máximo, uma descrição das contingências arranjadas, mas nunca uma qualificação dos processos comportamentais envolvidos.