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Uma das práticas agroecológicas que possibilita desenvolver o processo de sucessão ecológica e potencializar o aporte de matéria orgânica no solo em agroecossistemas, são as agroflorestas ou sistemas agroflorestais (SAFs).

O conceito de SAFs é abordado de várias formas diferentes, influenciadas por várias ideologias e interesses, sendo que Ospina (2000 apud ANTE, 2006) identificou mais de 50 definições diferentes e dispersas.

De acordo com Ante (2006), parte da dificuldade de consenso universal está no fato de que há diferenças na concepção, simbolismo e prática da “Agricultura” entre os povos que manejam diferentes ecossistemas temperados, tropicais e subtropicais, onde “árvore” pode apresentar o

significado de madeira para povos de ecossistemas temperados, enquanto pode representar frutos, alimento, sombra ou lenha para povos que vivem em ecossistemas tropicais ou subtropicais. Ainda Nair (1993 apud ANTE, 2006) ressalta que esta dificuldade provém também da diversidade de arranjos e associações entre os componentes dos SAFs no espaço e tempo.

À parte da dificuldade de consenso, definições gerais são apresentadas por alguns autores. Altieri (2002) discute que SAF é um termo genérico que descreve sistemas tradicionais de uso da terra, podendo abranger varias classificações, mas que, em geral, é consenso que representa uma forma de uso integrado da terra adequada a áreas marginais de baixo uso de insumos.

Gama-Rodrigues et al. (2006) ressaltam que os sistemas agroflorestais são sistemas de uso sustentável da terra que combinam simultaneamente, ou sequencialmente, a produção de cultivos agrícolas com árvores frutíferas ou não frutíferas e/ou criações animais, na mesma unidade de terra, com o objetivo de enfatizar as funções ecológicas do sistema solo-planta para a manutenção e melhoria da capacidade produtiva do solo e de desempenhar serviços ambientais. Devem ainda incorporar técnicas de manejo que sejam compatíveis com o sistema cultural da população local.

De acordo com Santos (2007) e Gliessman (2009), os SAFs intencionalmente combinam diversidade de árvores, culturas agrícolas e/ou animais, no mesmo tempo e espaço, de acordo com as necessidades ecofisiológicas e funções de cada planta, de forma que haja complementaridade dos cultivos, visando explorar a capacidade das árvores de produção e proteção e potencializar processos ecológicos que garantem produtividade e estabilidade ao sistema de produção.

May e Trovatto (2008) elencam as classificações de SAFs mais difundidas, que se baseiam em aspectos funcionais e estruturais, sendo os sistemas silviagrícolas: o cultivo consorciado de árvores, arbustos ou palmeiras com espécies agrícolas; os sistemas silvipastoris: o cultivo consorciado de árvores, arbustos ou palmeiras com espécies forrageiras herbáceas e criação

animal; e os sistemas agrossilvipastoris: o cultivo e manejo dos dois tipos acima combinados.

Analisando as definições expressas acima, podemos ver que elas têm aspectos gerais que se assemelham e cada uma introduz aspectos distintos, onde todos combinados têm grande importância na aplicação da prática agroflorestal. Sendo assim, neste estudo, o conceito que mais se aplica a realidade estudada é o de sistema agroflorestal sucessional, que de acordo com Peneireiro et al. (2002), é o sistema que não somente é considerado e manejado como um consórcio de plantas, mas que é conduzido e manejado de acordo com a estrutura e funcionamento dos ecossistemas florestais naturais, ou seja, que é conduzido de acordo com a sucessão ecológica.

Além disso, outros aspectos são essenciais na aplicação dos SAFs e vão de encontro à realidade das experiências analisadas neste estudo, como a diversificação da produção, a adequação a sistemas de baixo uso de insumos e a necessidade de compatibilidade do desenho, estrutura, diversidade e manejo do SAF à cultura, realidade, objetivos e recursos disponíveis para o agricultor.

De acordo com (2009), os SAFs constituem um dos melhores exemplos de sistemas de uso e manejo do solo, onde a sucessão pode ser manejada para otimizar os efeitos benéficos da inter-relação entre as plantas cultivadas e outros componentes do sistema. Esta otimização advém de um bom funcionamento dos processos ecológicos, proporcionado pela agregação constante de níveis mais altos de biodiversidade e um constante aporte e manutenção de biomassa no agroecossistema (LUIZÃO et al., 2006).

Os SAFs têm o potencial de recuperar e manter a boa qualidade do solo porque, além de englobar em sua estrutura de desenho e manejo, práticas agroecológicas como cultivo múltiplo, cobertura morta, cultivo de cobertura, adubação verde, rotação de culturas, poda, capina seletiva e cultivo mínimo do solo, ainda incorporam o componente arbóreo no sistema, o qual confere diversos benefícios (FRANCO, 2007; MAY & TROVATTO, 2008). Tais práticas, todas em conjunto, têm sua contribuição nas inter-relações interdependentes

que promovem sinergias entre os componentes do agroecossistema e possibilitam o aumento da biodiversidade, a recuperação e conservação da qualidade do ambiente e do solo.

O componente arbóreo tem um papel fundamental de potencializar a absorção e retenção de nutrientes e proporciona outros serviços ambientais que promovem importantes melhorias na produção agrícola. A utilização de árvores e arbustos promove uma maior estratificação do sistema acima do solo, através das partes vegetativas que atingem diferentes alturas e exploram os recursos ar, água e luz solar em diferentes áreas. A copa das árvores garante, ainda, a proteção do solo contra a ação erosiva da chuva, do vento e do sol, evita carreamento superficial de sedimentos, ameniza a temperatura sobre e sob o solo, favorece maior retenção de umidade, além de propiciar um microclima mais favorável para certas plantas de sub-bosque (ALTIERI, 2002; FRANCO et al., 2007).

Maior estratificação é promovida também abaixo da superfície do solo, onde a exploração de nutrientes, água e compostos químicos associados é também potencializada e diversificada em diversas profundidades que os sistemas radiculares das plantas podem atingir no perfil do solo (ALTIERI, 2002). Além disso, a adsorção e absorção de nutrientes podem ser ainda potencializadas pela utilização de espécies de plantas que apresentam raízes com associações com micorrizas (fungos) e bactérias fixadoras de nitrogênio (FRANCO et al., 2007; GLIESSMAN, 2009).

Sendo assim, o uso do cultivo múltiplo de associação entre diversidade de espécies agrícolas e florestais herbáceas, arbustivas e arbóreas, traz a multiplicação da eficiência de aproveitamento dos recursos disponíveis e esta potencialização reflete na maior estocagem de nutrientes na biomassa das plantas cultivadas, parte da qual pode ser utilizada para a recuperação e manutenção da qualidade do solo (LUIZÃO et al., 2006).

A biomassa não utilizada como produtos agrícolas geradores de renda e alimento para a família, ou seja, a biomassa vegetal na forma de resíduos de folhas, ramos, troncos, frutos, sementes e flores resultantes das podas

periódicas e capinas seletivas pode ser utilizada como cobertura morta do solo. A cobertura morta constante do solo, além de proteger este das ações erosivas, eleva os teores de matéria orgânica no solo e traz, portanto, todos os benefícios da incoporação deste importante componente (ARMANDO et al., 2002; PENEIREIRO et al., 2002; LUIZÃO et al., 2006; MAY & TROVATTO, 2008).

Além disso, esta deposição de resíduos vegetais promove também o aumento da atividade biológica de organismos da macro, meso e micro fauna do solo como fungos, bactérias, protozoários, artrópodes e minhocas. Além destes organismos potencializarem a ciclagem de nutrientes pela decomposição da matéria orgânica, auxiliam na promoção da boa estruturação do solo através construção de canais, mistura e maceração de restos animais e vegetais com partículas de solo e produção de substâncias húmicas que “cimentam” as partículas de solo e formam agregados mais estáveis (PRIMAVESI, 2002; BROWN et al., 2006).