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7 Case 2: Production facility at Ringdal with daily truck transport

7.4 Truck costs

No agreste, depois nas caatingas e, por fim, nos cerrados, desenvolveu-se uma economia pastoril associada originalmente à produção açucareira como fornecedora de carne, de couros e de bois de serviço. Foi sempre uma economia pobre e dependente. Contando, porém, com a segurança de um crescente mercado interno para sua produção, além da exportação de couro, pôde expandir-se continuamente através de séculos. Acabou incorporando ao pastoreio uma parcela considerável da população nacional, cobrindo e ocupando áreas territoriais mais extensas que qualquer outra atividade produtiva. Darcy Ribeiro A despeito das influências exercidas por Brasília e de outros processos que estruturaram o espaço goiano ao redor, a área tradicionalmente conhecida como “Nordeste de Goiás” é a que provavelmente guarda uma especificidade e identidade local mais preservada até o presente. Nas palavras de Barreira (2002, p. 92), “é uma autêntica região histórica, no sentido da homogeneidade e permanência dos elementos responsáveis pela realidade regional”.

Como aponta a autora, essa especificidade regional, no caso do Vão do Paranã, está ligada com a tradição da atividade agropecuária, praticada há séculos na região. O fator cultural está associado ao meio natural: “a criação de gado no Paranã é um fato social, econômico, político e cultural, reconhecidamente manifesto na paisagem” (BARREIRA, 2002, p. 21).

estudo clássico sobre os caipiras de São Paulo, como cultura rústica ou camponesa, aquela “ligada ao universo das culturas tradicionais do homem do campo” (CANDIDO, 2001, p. 26). O autor usa ainda o termo cultura caipira no sentido de expressar “um modo de ser, um tipo de vida, nunca um tipo racial”, e a considera equivalente à denominação de “civilization traditionelle” de Varagnac.

A sociedade caipira tradicional elaborou técnicas que permitiram estabilizar as relações do grupo com o meio (embora em nível que reputaríamos hoje como precários), mediante o conhecimento satisfatório dos recursos naturais, a sua exploração sistemática e o estabelecimento de uma dieta compatível com o mínimo vital – tudo relacionado a uma vida social de tipo fechado, com base na economia de subsistência (CANDIDO, 2001, p. 46).

Além disso, o modo de vida caipira, de acordo com o autor, é marcado pela estreita ligação das representações simbólicas e religiosas com a vida agrícola, a caça, a pesca e a coleta.

Magia, medicina simpática, invocação divina, exploração da fauna e da flora, conhecimentos agrícolas fundem-se num sistema que abrange, na mesma continuidade, o campo e a mata, a semente, o ar, o bicho, a água e o próprio céu. Dobrado sobre si mesmo pela economia de subsistência, encerrado no quadro dos agrupamentos vicinais, o homem aparece ele próprio como segmento de um vasto meio, ao mesmo tempo natural, social e sobrenatural (CANDIDO, 2001, p. 220).

Deve-se considerar, no entanto, que a cultura camponesa, constituída no processo de povoamento do interior do país, adquire particularidades locais, em virtude da diversidade de aspectos fisiográficos, tanto de clima como de vegetação, tanto de recursos naturais como de solo, criando-se assim uma diversidade de gêneros de vida (DIEGUES Jr., 1960). A formação de gêneros de vida, de acordo com o autor, “caracteriza-se pela diversidade das relações entre as culturas com o meio ambiente, ou melhor, com a biodiversidade”. Essas relações são manifestas “no conjunto de técnicas, das crenças e sentimentos, das maneiras de agir e de pensar, das atividades, do estilo de vida, em suma, criados ou desenvolvidos pelo grupo, dentro de certa ou relativa unidade” (DIEGUES Jr., 1960, p. 18).

No caso do grupo em estudo, existem certas particularidades históricas, geográficas e ecológicas a se considerar: a proximidade com a região da Caatinga do Nordeste brasileiro e a disponibilidade de terras em condições naturais favoráveis ao pastoreio fizeram desta uma área de influência de expansão e interiorização da economia pastoril nordestina,

adaptações locais e funcionais dessa expansão sertaneja” (RIBEIRO, Darcy, 2006, p. 317). Darcy Ribeiro (2006) caracteriza o tipo cultural sertanejo como:

um tipo particular de população com uma subcultura própria, a sertaneja, marcada por sua especialização ao pastoreio, por sua dispersão espacial e por traços característicos identificáveis no modo de vida, na organização da família, na estruturação do poder, na vestimenta típica, nos folguedos estacionais, na dieta, na culinária, na visão de mundo e numa religiosidade tendente ao messianismo (RIBEIRO, Darcy, 2006, p. 307).

O sistema de vida rural no Vão do Paranã insere-se num contexto geográfico maior, que a despeito das diferenças que podem ser detectadas ao longo do tempo e do espaço, são áreas que mantêm traços sociais, culturais e econômicos similares, que caracterizam uma identidade regional, uma “região cultural”, nas palavras de Diegues Jr. (1960), manifestada como:

um conjunto ecológico de pessoas, aproximadas pela unidade das relações espaciais de população, da estrutura econômica e das características sociais, dando-lhe, em conjunto, um tipo de cultura que, criando um modo de vida próprio, a difere de outras regiões. São, portanto, as regiões, espaços territoriais definidos por certas características que dão unidade de idéias, de sentimentos, de estilos de vida, a um grupo populacional. (DIEGUES Jr., 1960, p. 7).

Mas a que região cultural estamos nos referindo neste trabalho? Sob uma perspectiva sociocultural, a região de Terra Ronca está inserida nas regiões do chamado Sertão das Gerais ou Sertão Central. De acordo com Schettino (1995), o Sertão das Gerais corresponde ao sertão geralista de Guimarães Rosa, que abarca o alto e médio vale do rio São Francisco e os planaltos centrais localizados em parte dos estados de Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí. Essas regiões são unificadas pela presença das chapadas, do Cerrado, de um mesmo clima e uma mesma base geológica (SCHETTINO, 1995, p. 27-28).

próprias e diferenciadas com a natureza, tanto no plano simbólico quanto no campo das técnicas e modos de fazer e produzir – distintas das formas vigentes nas sociedades urbano-industriais (DIEGUES, 2000b; ESTERCI, 2008).

Numa perspectiva marxista, Diegues & Arruda (2001), associam as culturas tradicionais

a modos de produção pré-capitalistas, próprios de sociedades em que o trabalho não se tornou mercadoria; em que a dependência do mercado já existe, mas não é total. Essas sociedades desenvolveram formas particulares de manejo dos recursos naturais, que não visam diretamente ao lucro, mas à reprodução cultural e social, além de percepções e representações em relação ao mundo natural, marcadas pela idéia de associação com a natureza e a dependência de seus ciclos. Culturas tradicionais, nessa perspectiva, são aquelas associadas à pequena produção mercantil (DIEGUES & ARRUDA, 2001, p. 24).

Com exceção dos grupos indígenas que têm características socioculturais muito peculiares, os povos e grupos referidos como “tradicionais” são pequenos produtores familiares que cultivam a terra e/ou praticam atividades extrativistas como a pesca, coleta, caça, utilizando-se de técnicas de exploração que causam poucos danos à natureza. São assim definidos pela sua ligação de relativa simbiose com a natureza, pelo conhecimento aprofundado desta e de seus ciclos e pela noção de território ou espaço onde se reproduzem econômica e socialmente(ESTERCI, 2008).

Little (2006b) propõe um conjunto de critérios socioculturais que podem ser contextualizados e utilizados como indicadores qualitativos na delimitação e definição das comunidades tradicionais (Quadro 2).

CRITÉRIOS

PROPOSTOS INDICADORES PROPOSTOS

Uso sustentável da

terra

I. Importância dos ciclos naturais nas práticas produtivas; II. Uso de recursos naturais renováveis;

III. Práticas de uso comunitário dos recursos naturais; IV. Conhecimento profundo do seu ecossistema; V. Uso de tecnologias de baixo impacto ambiental.

Destino da produção

I. Parte da produção é destinada às práticas sociais (festas, ritos, procissões, folias de reis, etc.); II. Parte da produção é destinada à auto-subsistência dos membros da comunidade;

III. Vender para o mercado não é o único fim da produção.

Vínculo territorial

I. Noção de pertencimento a um território como fundamento da identidade;

II. Condutas de territorialidade (demarcação, defesa, critérios de inclusão e exclusão, etc.); III. Ancestralidade da ocupação territorial;

IV. Existência de uma memória coletiva vinculada ao território específico;

V. Identificação com um ecossistema específico (Mata Atlântica; Caatinga; Pantanal, etc.).

Situação fundiária

I. Propriedade com titulação coletiva; II. Direito real de concessão de uso; III. Posse permanente;

IV. Usufruto comum dos recursos naturais sem posse e sem propriedade;

V. Reconhecimento jurídico do grupo (constitucional; nas leis federais e leis estaduais); VI. Situações de expropriação, redução ou expulsão da terra.

Organização social

I. Comunidades de pequena escala;

II. Importância da família extensa ou ampliada na organização da comunidade; III. Relações produtivas baseadas na unidade doméstica ou familiar;

IV. Existência de regras ou costumes para o uso comunitário dos recursos naturais; V. Associações de representatividade política frente ao Estado.

Expressões culturais

I. Expressões culturais tradicionais (festas, rezas, comidas, habitações, roupas, etc.); II. Mitos e ritos associados às atividades de pesca, caça e extrativismo;

III. Transmissão oral de geração em geração dos conhecimentos culturais e ambientais. Quadro 2. Critérios socioculturais para o reconhecimento das comunidades tradicionais no Brasil

própria. Com a chegada de Brasília, nos fins da década de 1950, dando início à chamada modernização recente, toda essa estrutura social e econômica desmoronou-se diante da abertura da fronteira agrícola nas áreas de Cerrado do Brasil Central, dando lugar “a um amálgama economicamente próspero, mas culturalmente indefinido, onde valores e práticas do passado esvaziaram-se, sem que aqueles, novos, tenham se consolidado em paradigma cultural definido e homogêneo” (ARAGÃO, 1993, p. 187).