11 Results and discussion
11.2 Case 2: Production facility at Ringdal with daily truck transport
O ouro e os diamantes duram um escasso século. Furaram-se as montanhas, eventraram-se os aluviões e, passada a febre, permaneceram plantadas as cidade coloniais, as roças e as fazendas de gado. Com o passar do tempo sem tempo dos sertões centrais, formulava-se o Homo cerratensis moderno. Paulo Bertran
com o ouro, o certo é que a mineração em Goiás estimulou a ocupação dessa região pelo gado vindo das ribeiras do Rio São Francisco. Assim, para entender melhor como se deu o início da ocupação do Vão do Paranã é preciso contar um pouco da história do ouro em Goiás.
A chegada dos primeiros colonizadores em Goiás, no início do século XVIII (1722- 1725), 24 ocorreu dentro de uma conjuntura de busca das minas de ouro no interior do Brasil.
As primeiras minas de ouro foram descobertas no fim do século XVII, no território que viria a se tornar a Capitania de Minas Gerais. Em 1719, novas minas foram descobertas em Cuiabá e, em 1721, bandeiras paulistas saíram em busca de riquezas minerais no amplo território dos índios goyazes, situado entre os dois territórios auríferos, Mato Grosso e Minas Gerais.
A partir da “descoberta” das minas de Goiás (1725) até a decadência da mineração goiana (1778), repetiu-se a mesma dinâmica característica da corrida do ouro em Minas Gerais e Mato Grosso, ainda que em proporções mais modestas:
I. A descoberta de diversas jazidas sedimentares, ricas e de fácil exploração, atraiu imensos contingentes populacionais das minas vizinhas (boa parte das Minas Gerais), de São Paulo, Pernambuco, Bahia e do próprio reino (Portugal). A grande maioria era de aventureiros que enfrentaram distâncias, perigos e sofrimentos, na ânsia da aventura e do enriquecimento rápido. É fato que, com a chegada em massa de pessoas de todas as partes, a população de Goiás cresceu rapidamente a taxas consideráveis nas primeiras fases da mineração, com uma relativa diminuição após a decadência da atividade, no início do século XIX. Brancos, índios, negros e mestiços constituíram a sociedade goiana.25
II. Na primeira fase da mineração em Goiás, da descoberta do ouro em 1725 até por volta de 1751, surgiram diversos núcleos de povoamento - “rancharias” ou “arraiais do ouro”, como eram chamados - ligados à mineração. A segunda fase da mineração, de 1751 a 1778, que marca o apogeu do ouro em Goiás, caracterizou-se pela consolidação desses núcleos de povoamento nas regiões mais promissoras para a mineração e o comércio, e pelo desenvolvimento de uma vida urbana, constituindo vilas ou cidades. A partir de 1778, iniciou-se a decadência da mineração com a conseqüente deterioração da estrutura econômica e social nos arraiais e vilas do ouro. Como será visto adiante, a decadência da mineração acarretou uma ruralização progressiva da economia e dos costumes, que veio a
24 Embora a área de Goiás já tivesse sido percorrida pelas bandeiras paulistas no final do século XVII,
par com a consolidação de uma cultura “sertaneja”.
III. O caráter de exploração desenfreada e predatória do ambiente. A extração de veios d'água superficiais, utilizando técnicas rudimentares, fez com que os depósitos de ouro fossem rapidamente esgotados. Predominou o imediatismo e a improvisação: “os habitantes deslocavam-se constantemente à procura de novas jazidas de ouro, fazendo com que arraiais inteiros se despovoassem e a vida se constituísse em constante improvisação”. (PALACÍN; GARCIA; AMADO, 1995, p. 61). Bertran (1996) chega a deduzir um desastre ambiental cumulativo no fim do século XVIII, face à intensa degradação ambiental no primeiro meio século de colonização em Goiás (p. 106).
IV. O surgimento de rotas de comércio e de comunicação: “A abertura das Minas nas Gerais, Goiás e Mato Grosso [...] possibilitou a formação de um mercado nacional, onde se integravam o sul do país, o território das minas e as Capitanias da costa” (PALACÍN; GARCIA; AMADO, 1995, p. 127). Conforme Barreira (2002, p. 93), no caso do Vão do Paranã, as rotas e os caminhos do ouro estavam ligados principalmente com o norte de Minas, o oeste da Bahia e Pernambuco. Como resultado dessa dinâmica de articulação comercial, consolidou-se uma sociedade com características culturais, sociais e econômicas bastante homogêneas, ditadas pelo movimento dos homens e do gado
Assim como em muitas regiões do interior do Brasil, a história do ouro constitui aspecto fundamental para a compreensão das raízes socioculturais goianas. Foi com o ouro que o território de Goiás ingressou na esfera da colonização portuguesa, abandonando o perfil de sociedade exclusivamente indígena. Foi com o ouro que se consolidou o povoamento branco e mestiço no território de Goiás. As riquezas geradas pela mineração, ainda que tenham sido breves, originaram a economia, a sociedade e a administração colonial de Goiás e tornaram-se elemento recorrente do imaginário (PALACÍN; GARCIA; AMADO, 1995, p. 85). Enfim, como aspecto significativo para a região de estudo, a mineração estimulou a expansão do pastoreio nordestino pelos campos sanfranciscanos e do Centro-Oeste, assegurando-lhe um novo mercado consumidor, no momento em que decaía o nordestino (RIBEIRO, Darcy, 2006, p. 340).
Nos locais onde já havia se implantado, a criação de gado extensiva voltada para o suprimento das áreas de mineração persistiu e se intensificou. Isso se deu especialmente no Vão do Paranã, cuja condição geográfica permitiu, em meados do século XIX, que se desenvolvesse uma articulação comercial com os outros estados (especialmente com a Bahia) e regiões, tornando-se a principal região exportadora de gado goiano. A agricultura de auto-subsistência, presente desde o início da colonização em toda província, continuou sendo produzida estritamente para o autoconsumo das famílias.
Com base na economia das grandes fazendas de gado, consolidou-se uma forma de povoamento com núcleos dispersos por grandes áreas baseados em modos de vida rústicos, que se tornariam característicos em Goiás. Como aponta Bertran (1996), Goiás foi tornando-se cada vez mais parecido com seu perfil atual: grandes propriedades de terra destinadas ao pastoreio, e pequenos núcleos, onde eram criadas algumas cabeças de gado, porcos, galinhas e plantados gêneros básicos (cultivos de cana, milho, mandioca, etc.). Constitui-se, a partir daí, “a origem de dois segmentos sociais muito distintos entre si, que se configurariam plenamente ao longo do século XIX: grandes proprietários rurais e camponeses” (PALACIN; GARCIA; AMADO, 1995, p. 86).
Esse modelo de ocupação do território, constituído em fins do século XVIII, fundado numa economia capitalista auto-subsistente e auto-suficiente, atravessou século e meio até a segunda metade do século XX, quando Brasília começou a ser construída e quando os vastos espaços dos sertões gerais do Brasil Central começaram a ser ocupados pela fronteira agrícola.