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Figura 5. Exemplar de buriti (M. flexuosa L.f.) em ambiente natural – Terra Ronca, GO Foto: Mario Rique Fernandes, 2008.

O buriti destaca-se pela versatilidade com que é utilizado pelo ser humano. Sua distribuição por grandes áreas efetivas dos neotrópicos faz dele uma das palmeiras mais utilizadas pelas comunidades em todos os locais onde ocorre, tanto na região Amazônica – incluindo outros países –, como no Cerrado. Os indígenas souberam aproveitar todas as suas partes e, ainda hoje, a planta tem papel de destaque na cultura e na vida de muitos povos.

Tanto os caboclos das várzeas amazônicas como os sertanejos do Cerrado também souberam aproveitá-lo inteiramente, mantendo velhas tradições indígenas e criando outras

ambientais. Daí ser quase impossível mencionar tudo o que é feito do buriti. Só se sabe de uma coisa: tudo nesta planta é útil e utilizado (PIO-CORRÊA, 1931, p. 339).

2.8.1 Usos populares do buriti

2.8.1.1 Raiz

As raízes têm a função de fixar as palmeiras no solo e absorver água e nutrientes. O sistema radicular do buriti é típico das palmeiras em geral. São cilíndricas, distribuídas subterraneamente, em cabelame ou cabeleira – na qual não se distingue uma raiz principal – formando verdadeira rede que vai a grande profundidade à procura de água (Figura 6a). Quanto à utilidade da raiz, não houve menção na literatura. No entanto, em Terra Ronca, alguns informantes destacaram a sua qualidade medicinal para tratamento de reumatismo.

2.8.1.2 Tronco

O tronco ou caule das palmeiras é chamado de estipe. O buriti possui um único tronco, simples, indiviso, solitário, ereto, cilíndrico e ostenta no ápice um tufo de folhas luzidias (Figuras 5 e 6c). O tamanho pode chegar a 15 metros ou mais nas áreas de Cerrado e a 35 metros na região amazônica, com trinta a sessenta centímetros de diâmetro. A medula central do tronco é esponjosa e cercada por um anel protetor, forte, de fibras, que forma numerosos feixes verticais de tecido condutor de seiva. É, porém, destituído de tecido cambial, uma camada de células responsável pelo aumento de seu diâmetro.

Nas áreas rurais, o tronco é considerado resistente e aproveitado como madeira para construções de pontes, palafitas, casas, móveis, bicas d'água ou calhas (quando oco), ripas para telhados (da parte externa), etc. (CYMERIS; FERNANDES; RIGAMONTE-AZEVEDO, 2005; GUMILLA, 1791 apud LÉVI-STRAUSS, 1987; MATA-MACHADO, 1991 apud SCHETTINO, 1995; ALMEIDA & SILVA, 1994; ALMEIDA et al., 1998). Por sua propriedade flutuante, é utilizado para transportar madeira nos rios amazônicos e canoas podem ser feitas aproveitando-se a concavidade do caule (PIO-CORRÊA, 1931).

também serve como excelente adubo (SAMPAIO; SCHMIDT; FIGUEIREDO, 2008).

Da árvore cortada ou por incisão no caule pode-se obter uma seiva adocicada contendo cerca de 93% de sacarose e da qual se fabrica o vinho (ALMEIDA et al., 1998). Os sertanejos de Terra Ronca antigamente transformavam a seiva do buriti em mel e esse em rapadura. O palmito ou broto terminal, região principal de crescimento da planta, também é aproveitado como alimento – que dizem ser muito saboroso. Porém, esses usos que resultam na morte da árvore têm sido coibidos, pois hoje o corte de árvores em áreas de preservação permanente é uma atividade ilegal7.

O estipe de buritis apodrecidos na água serve de abrigo para grandes larvas – conhecidas como turus – fonte de alto valor protéico e muito apreciado na culinária das regiões amazônicas (CYMERIS; FERNANDES; RIGAMONTE-AZEVEDO, 2005).

2.8.1.3 Fruto

O fruto do buriti é uma drupa, grande, oblongo-globulosa de cinco a sete centímetros de comprimento e quatro a cinco centímetros de diâmetro, carnudo, coberto por uma carapaça de escamas imbricadas, morenas e brilhantes (VILLALOBOS, 1994; LORENZI, 1998; LORENZI et al., 2004). Um fruto de buriti contém aproximadamente 12 gramas de escamas, nove gramas de polpa fresca, dez gramas de endocarpo e 21 gramas de amêndoa (ALMEIDA & SILVA, 1994).

De cor alaranjada, rica em vitaminas e com alto valor protéico, a polpa macia dos frutos é ingerida in natura – seca ou como farinha – ou com açúcar, após a secagem. Com ela também se fabricam doces, bolos, geléias, geladinhos, sorvetes, picolés e “vinho” (que pode ser bebido imediatamente ou fermentado). O óleo extraído da polpa, transparente e de cor vermelho-sanguínea, é usado na medicina popular (ALMEIDA et al., 1998) como cicatrizante, contra queimaduras, picadas de insetos e de cobras além de servir como envernizante e amaciante de peles e couros. Esse óleo comestível, com características organolépticas de sabor e aroma agradáveis, qualificado por um alto teor de beta-caroteno e pró-vitamina A, vem sendo utilizado em um variado número de aplicações para a indústria biotecnológica de produtos alimentícios, farmacêuticos, cosméticos, entre outros. O fruto possui uma semente ovóide de consistência dura, podendo ser aproveitada na indústria caseira, como botões, adornos, pentes de teares, etc. A polpa e os caroços são também utilizados na alimentação de bovinos e suínos (ALMEIDA et al. 1998; PIO-CORRÊA, 1931). No estado do Amazonas, as sementes em infusão são utilizadas para dores intestinais (MILLIKEN et al, 1992).

2.8.1.4 Folhas

O buriti tem belas folhas do tipo flabeliformes ou costapalmadas que podem chegar a 3,4 metros de comprimento. Das folhas novas, ainda fechadas, conhecidas como “olhos”, obtém-se a “seda”, uma fibra resistente utilizada principalmente para a confecção de redes e cordas (SAMPAIO; SCHMIDT; FIGUEIREDO, 2008). A “palha” do olho – fibra da folha menos resistente – é usada para artesanatos diversos: chapéus, sandálias – alpercatas, esteiras, balaios, vassouras, sacolas, tipiti, paneiros, etc. No Jalapão, região leste do estado do Tocantins, a fibra do buriti é utilizada como linha para tecer os artesanatos de capim- dourado (SCHMIDT; FIGUEIREDO; SCARIOT, 2007). No estado do Pará, na região de Bragança, as folhas são utilizadas para fazer as sogas do tabaco e como adubo orgânico. As folhas adultas do buriti servem para a cobertura de casas rústicas, de ranchos, canoas e também podem servir para apagar as queimadas do Cerrado, no período da seca - dizem os usuários que elas possuem formato ideal de “apaga-fogo” (ALMEIDA & SILVA, 1994). As folhas também são fervidas pelos indígenas para obtenção de um pó de cor castanha que é usado como sal (LÉVI-STRAUSS, 1987). Os talos da folha são utilizados, com finalidades lúdicas, para fazer pipas ou papagaios (CYMERIS; FERNANDES; RIGAMONTE-AZEVEDO, 2005).

2.8.1.5 Pecíolo

O pecíolo ou pedúnculo das folhas – popularmente conhecido como “braços” - é a estrutura que faz a conexão entre a lâmina foliar (ou palma) e o tronco. Os braços do buriti variam entre três a cinco metros de comprimento, chegando a dez centímetros de diâmetro (Figura 6d). Fornece material leve e macio – tipo de esponja vegetal – que serve para usos diversos no artesanato. A parte interna esponjosa pode ser usada para a confecção de brinquedos, quadros, rolhas de garrafa, caixas, caixetas para doces, cadeiras, mesas, camas, instrumentos musicais, móveis, acabamento de forração de telhado, capoeira para aves, cercas, gaiolas, e tudo mais o que a necessidade, a imaginação e/ou a arte puderem inventar. Por ser flutuante, também pode ser aproveitado na construção de jangadas e

Figura 6. Partes do buriti (M. flexuosa L.f.) (A) Raiz; (B) Caule; (C) Semente e fruto; (D) Folhas palmadas ou flabeliformes e pecíolo

Autor: Mario Rique Fernandes, 2007/2008.