Juca fez muitos de seus poemas enfatizando a saudade dos tenros tempos, é verdade. Mas seu repertório poético não é composto somente de textos imbuídos de saudosismo e de melancolia – muito pelo contrário. Embora desfrutasse de uma vida simples no campo, o poeta de Mata-burros não era alheio aos problemas sociais de seu tempo, e registrava, poeticamente, também o seu lado crítico acerca das problemáticas político-econômicas que afetavam, de alguma forma, a população brasileira. Foi por volta de 1944, durante o período da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, que o autor compôs o poema Eu com “g” iscrevo guerra, revelando o seu olhar atento para os possíveis
efeitos negativos da Segunda Grande Guerra para os habitantes do Brasil. A seguir, o texto:
Eu com ‘G’ iscrevo guerra, Lá fora tá guerriano, Alemães tá só morreno, Nois aqui tá só dançano Devemo pegá cum Deus E o mártir São Sebastião, Qui é qui pode nos livrar Dos pirigo qui nois tão. E as moça deve rezá Trinta dia im cada mêis... Si os moço fô pra guerra, Quem é qui namora ocêis?! (ANGÉLICA, 2011, p. 118).
É interessante observar que uma leitura apressada do texto faz parecer que o poeta não aborda com seriedade tal fenômeno histórico – e, de fato, não aborda, se tomarmos ao pé da letra o termo “seriedade” como oposto de “cômico”. Todavia, por trás do tom jocoso que Juca atribui ao texto, localizamos marcas representativas do clima temeroso que assolava a população brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial19.
19 Acreditamos que informações envolvendo a nação brasileira e até mesmo acerca do que acontecia no
mundo (como é o caso das duas Grandes Guerras Mundiais) chegavam até Juca pelo rádio, devido ao seu sinal ser de alto alcance geográfico, além de ser um dos meios de comunicação mais populares, por ser economicamente acessível e utilizar-se, geralmente, de uma linguagem mais simples e direta. Maurice Halbwachs (1990) explica esse fenômeno, afirmando que há algumas narrativas de cunho historiográfico, construídas por meio de retalhos de construções formais (as ensinadas na escola, por exemplo) sobre os acontecimentos históricos (como é o caso da Segunda Guerra Mundial) que são incorporadas às memórias – individual ou coletiva das pessoas. Tais apontamentos se aplicam parcialmente à representação poética que Juca faz da Segunda Guerra Mundial, dado que o poeta frequentou pouco os ambientes formais do
Em relação à participação do Brasil na guerra, sabemos que o país passou a integrar o conflito somente a partir de 1942, e que o primeiro grupo de militares brasileiros (os Pracinhas) chegou à Itália em julho de 1944, ano provável em que o poema
Eu com “g” iscrevo guerra foi escrito20. Nele, Juca representa um dos medos que
preocupava a si e à população brasileira, que é o de o país ser diretamente atingido pelas implicações da guerra. A passagem em que o eu lírico pede a São Sebastião para que livre os brasileiros dos perigos em que se encontram, por exemplo, mais que expressar a devoção ao seu santo protetor, também revela a preocupação do poeta, no que tange aos efeitos da participação do Brasil em tal conflito guerrilheiro.
Um desses efeitos é, sem dúvida, a morte de soldados brasileiros, e Juca, sem deixar de lado o seu tradicional jeito alegre e simpático de cantar as suas poesias, representa esse possível efeito negativo da guerra, lembrando-se das moças que ficaria m sem namorados, caso estes viessem a morrer em combate. E, diante do perigo imine nte, o poeta orienta tais moças a rezar “Trinta dia im cada mêis”, para que seus namorados ou pretendentes não fossem convocados para a guerra, afinal, “Si os moço fô pra guerra,/Quem é qui namora ocêis?!”.
Tal preocupação nos leva a pensar no ancião O velho do Restelo, que, no canto IV, da obra Os Lusíadas, interpreta de forma pessimista a epopeia das grandes navegações portuguesas, sob o argumento de que os viajantes, em busca de glória e riquezas, estavam, na verdade, procurando desastres para si mesmos e para o povo português. É válido lembrar aqui que crianças, mulheres e os mais idosos não participavam dessas viagens, cabendo a essas pessoas a espera do retorno de seus pais, irmãos, esposos, filhos e netos viajantes. No texto de Juca, de certa forma, há também essa preocupação, isto é, de que os viajantes (ou seja, os Pracinhas) não retornassem vivos da guerra, mas, no poema de
saber. Além disso, a apreensão dos fatos históricos ultrapassa o discurso oficial, e, em se tratando da Segunda Guerra mundial, especificamente, por ser um marco histórico de tamanho impacto histórico -social e econômico, certamente ultrapassou os liames das fronteiras do aprendizado formal, chegando até a população por intermédio de outros recursos, como o rádio. Como esclarece Albuquerque Júnior (2013, p. 152), “no século XX, a chamada grande história invadiu a vida de todos os seres humanos, ninguém passou incólume diante dos grandes genocídios e das grandes tragédias humanas que marcaram o século: a guerra, a revolução, a guerra civil, o processo de independência e de descolonização, a implantação de regimes políticos de cunho totalitário, a crise econômica e os grandes feitos da ciência e da tecnologia chegaram à vida de todos, mesmo que apenas como notícias”.
20 O Brasil ajudou os norte-americanos na libertação da Itália, que, na época, ainda estava parcialmente nas
mãos do exército alemão. Nosso país enviou cerca de 25 mil homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB), 42 pilotos e 400 homens de apoio da Força Aérea Brasileira (FAB).
Juca, o tom impresso ao texto transforma o pessimismo (verificado nas palavras de O
velho do Restelo) em versos que suscitam o riso.
Dessa forma, Juca, no poema Eu com ‘g’ iscrevo guerra, equilibra crítica e
humor, como era comum nas cantigas trovadorescas de escárnio, em que se destacavam a ironia e o sarcasmo. O poeta analisa, portanto, a situação da participação dos brasileiros na guerra sob o olhar de quem se preocupava com a nação brasileira, de modo geral, mas também sem deixar de lado o seu olhar de “poeta-roceiro-namorador”, que foi logo se colocando no lugar das moças da época, que se distanciariam de seus pretendentes ou namorados, caso estes fossem convocados para a guerra.
Porém, é no poema ABC do homem da roça, que o lado crítico do poeta se mostra mais nítido, quanto aos efeitos sócio-econômicos da Segunda Guerra Mundial. A seguir, fragmento do texto:
Bãos tempos se acabô,
Qui tudo era barato.
Mais a coisa ingrossô a calda No ano de quarenta e quatro. Hoje os roceros pricisa É infiá o pé no mato! [...]
Lavradô se exclama
Dos preço das ferramenta: Marca boa num tem mais, Ruim num há braço qui güenta! E os preço lavai assim,
Cada dia se aumenta.
Muito mais caro inda tá,
Cum o insejo de guerra, Ferramenta e mais artigos Fabricado na Inglaterra, Nas mão do niguciante Qui inxerga ditrais da serra! (ANGÉLICA, 2011, pp. 302-304)
No texto ABC do homem da roça, Juca também aborda a temática da Segunda Guerra Mundial, mas, desta vez, utilizando-se de um tom mais sério, a fim de representar, liricamente, o reflexo do que o poeta chama de “insejo de guerra” no aumento do preço de artigos e ferramentas importados pelo Brasil da Inglaterra. Além disso, há também uma crítica aos comerciantes brasileiros que, distantes da realidade dura dos trabalhadores rurais, parecem se aproveitar do momento delicado em que o mundo se
encontra para vender suas mercadorias mais caras ao lavrador, que necessita de ferramentas de qualidade, mas a um preço justo, a fim de realizar o seu trabalho no campo.