Conforme já adiantamos, faremos, inicialmente, a análise performática de Juca, ao interpretar a primeira estrofe do poema Tempo de Criança. A declamação dessa estrofe pelo poeta está disponível no documentário Juca da Angélica: meu canto é saudade (intervalo entre 1:46 a 1:57). A seguir, o texto:
Foi bela e bela a minha querida infância, Não tinha a dor para sortá meus ais! E hoje, e hoje, eu mim recordo im ânsia, Foram meus dias qui não vortam mais!
Tal como o título do texto já adianta, o poema expressa o lamento do eu lírico, diante da passagem do tempo que o distanciou de sua mocidade. E esse lamento pode ser verificado, por exemplo, pela tonalidade suave e amena que Juca imprime à voz, pela qual, discursando na primeira pessoa, o poeta coloca em xeque o passado e o presente como elementos excludentes simbolicamente, uma vez que a infância é vista como um
bem ausente, isto é, como um espaço de felicidade que passou a ser ocupado pela melancolia e tristeza do presente, com a chegada da velhice.
É com essa voz calma e serena, mas carregada de emoção, que, em tom de recordação, o poeta introduz seus versos, marcados por algumas pausas e prolongações silábicas, como no primeiro verso, em que a sílaba “be” da primeira ocorrência da palavra bela é enfatizada na voz do poeta, ficando mais ou menos assim: “Foi beeela (pausa) e bela a minha querida infância”. Por ser a voz “o lugar simbólico por excelência” (cf. ZUMTHOR, 2007, p. 83), acreditamos que o prolongamento silábico, acrescido, posteriormente, do recurso pausal, aliado à postura ereta do poeta, dos gestos, do olhar, do vestuário e do local em que se dá a sua atuação (em meio à natureza), favorecem a ampliação da carga emocional do poeta quanto à saudade que sente de seu tempo de criança (ver figura 27).
Figura 27 – Imagem 1 de Juca declamando o poema Tempo de criança
Fonte: Print extraído do documentário: Meu canto é saudade: a poesia de Juca da Angélica (2001)
Sobre esse aspecto, o historiador Albuquerque Júnior (2013, p. 156) acresce que, como todo sentimento, “a saudade implica a elaboração de uma linguagem que a expresse, implica a escolha, a eleição de gestos, de enunciados, de mímicas, de performances, de imagens, de ações e reações que lhe deem materialidade, realidade e espessura social e histórica”. Desse modo, a repetição da palavra “bela” e o prolongamento silábico que dela faz parte intensifica a imagem positiva que Juca constrói de sua infância. E aliada ao fator semântico da repetição léxica e silábica está a eleição de alguns gestos para enfatizar seu sentimento saudosista, como a ação do poeta de apoiar a mão esquerda inerte ao corpo, enquanto a direita movimenta-se para cima e para baixo, com o dedo indicador apontando para frente, como se estivesse reproduzindo um sinal de aviso ou conselho.
Levando-se em consideração a idade em que se encontrava Juca, quando declamou18 tal poesia no documentário, isto é, com 83 anos, estando, portanto, já idoso,
o gesto do poeta, como um possível ato mímico indicativo de um conselho, parece fazer todo o sentido, uma vez que ainda que ignorada pela sociedade capitalista, “a função social do velho é lembrar e aconselhar – memini, moneo – unir o começo e o fim, ligando o que foi e o porvir” (BOSI, 1994, p. 18).
E é sob uma árvore localizada em sua fazenda, que o poeta chama a atenção para o seu papel de aconselhar e lembrar e, nesse sentido, o lugar de onde enuncia, somado às suas reações performáticas, imprimem-lhe certa autenticidade que pode ser observada, ainda, por meio do vestuário sóbrio (com poucas cores) e pela paisagem natural que revestem o seu discurso de autoridade – afinal, é um roceiro quem lamenta uma fase da vida que só se vive uma vez, e, por isso mesmo, incita o ouvinte a aproveitar cada instante da dádiva da juventude.
É interessante notar também que, durante seu gesto que alude ao de um aconselhamento, o olhar de Juca não se volta para a câmera que o filma, mas para outro lugar – talvez para um dos entrevistadores. Uma possível justificativa para isso pode estar no fato de que a performance de um artista prevê a audiência de um receptor, de um ouvinte concreto (cf. ZUMTHOR, 2007), constituído, provavelmente, por um dos organizadores do documentário, por exemplo, para quem o poeta direciona seus ensinamentos (conselhos).
Quando inicia a fala do segundo e terceiro versos, o poeta utiliza-se dos dois braços livres para acompanhar o ritmo poético impulsionado pela voz: “Não tinha a dor para sortá meus ais! / E hoje, e hoje, eu mim recordo im ânsia” (ver figura 28):
18 Aqui, levamos em consideração a idade em que Juca se encontrava ao declamar tal poesia no
documentário, em questão; não a data em que o poeta a produziu, isto é, por volta de 1953, período em que o autor encontrava-se com, aproximadamente, 35 anos.
Figura 28 – Imagem 2 de Juca declamando o poema Tempo de criança
Fonte: Print extraído do documentário: Meu canto é saudade: a poesia de Juca da Angélica (2001)
Chamamos atenção aqui para a repetição da palavra “hoje”, localizada no terceiro verso que, somada ao plano gestual do poeta, o qual impõe firmemente as duas mãos para frente, possibilita a intensificação de seu sofrimento, diante do presente, marcado pela ausência das circunstâncias felizes que caracterizam a infância do autor. O hoje é, então, sinônimo de tristeza, de perda de algo que só pela poesia e pela memória poderá ser resgatado, como se verifica no último verso da estrofe: “Foram meus dias qui não vortam mais!” A imagem, a seguir, registra o momento em que Juca recita esse verso, e, novamente, deixa o braço esquerdo flexionado e inerte ao corpo, enquanto ergue o direito para frente na diagonal, como se estivesse representando, mimicamente, a mocidade indo embora para nunca mais voltar:
Figura 29 – Imagem 3 de Juca declamando o poema Tempo de criança
Fonte: Print extraído do documentário: Meu canto é saudade: a poesia de Juca da Angélica (2001)
Após declamar a primeira estrofe, o poeta permanece, momentaneamente, em silêncio e vira o rosto para a sua esquerda, como que recorrendo à memória para se lembrar do restante dos versos do poema (ver figura 30):
Figura 30 – Imagem 4 de Juca declamando o poema Tempo de criança
Fonte: Print extraído do documentário: Meu canto é saudade: a poesia de Juca da Angélica (2001)
Como “os silêncios também significam” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2013, p. 21), consideramos a pausa verbal realizada pelo poeta, no instante de sua atuação performática, um fator indicativo de sua emoção. Nesse momento, ele também respira fundo, emitindo um som semelhante a um suspiro que também pode ser associado à temática saudosista do texto em questão. Aliás, o semblante do poeta parece transmitir justamente esse sentimento de saudade, por meio da expressão facial e também do olhar distante que suscitam a imagem de um indivíduo capaz de refletir sobre a fase em que se encontra (a velhice), ao mesmo tempo que eterniza uma fase longínqua (a infância), que a memória ama e, por isso mesmo, a enaltece.
Todos esses movimentos corpóreos e simbólicos do poeta vêm confirmar, nesse sentido, as considerações de Albuquerque Júnior (2013, p. 156), segundo o qual o “o sentir saudade implica adotar uma dada gramática de gestos, de práticas, de reações, de comportamentos, mas também dado conjunto de enunciados e imagens que estão social e culturalmente a ela ligados em um dado contexto”. Dessa forma, os suspiros, os gestos, a expressão facial, o silêncio, os prolongamentos silábicos, a repetição das palavras e o tom de voz, aliados ao contexto em que Juca se insere, tudo isso constitui, a nosso ver, um conjunto de enunciados e imagens que traduzem o sentimento saudosista do poeta.
Poemas que remetem à saudade não faltam no repertório poético de Juca da Angélica, conforme veremos no capítulo subsequente. No mesmo documentário (intervalo entre 8:35 a 9:10), realizado por Cássio e Juliana (2001), por exemplo, o poeta revela, novamente, a sua faceta saudosista, ao recitar um poema que fez em homenage m à sua falecida esposa Nieta. A seguir, o texto:
Coisa qui eu nunca pensei: Ficar sem minha querida! Um dia de aligria
Num penso em ter mais na vida! Sinto a alma intristecida,
Transpassada de saudade: Num penso em ter mais na vida Discanso e tranqüilidade. Alegre cumo eu já fui, A vida era um céu aberto! Hoje aligria im meus olho Num pode chegá de perto. Hoje o mundo para mim É triste cumo um diserto!
Abaixo, imagem de Juca dizendo sua poesia, com o braço direito descansando sobre o encosto do local em que está sentado, rente à janela de sua fazenda (onde costumava ficar). Nesse momento, o poeta contrasta os tempos em que sua companheira era viva com aqueles vivenciados após o passamento da esposa:
Figura 31 – Imagem 1 de Juca recitando parte do poema que fez em homenagem à esposa
Fonte: Print extraído do documentário: Meu canto é saudade: a poesia de Juca da Angélica (2001)
Ao assistirmos a Juca declamando tal poesia, novamente, percebemos um tom saudosista, que se intensifica nos versos finais da primeira estrofe, quando o poeta declara ter perdido a alegria sem a companhia de Nieta em sua vida. É interessante ressaltar o modo como é falado o verso: “Num penso em ter mais na vida!”, de forma melancólica, de modo a pronunciar as palavras em tom de infelicidade, justificada pela ausência dos
momentos alegres que se findaram quando o poeta tornou-se viúvo. Esse tom lamentoso se acentua ainda mais, quando Juca fecha os olhos, como quem evita se entregar às lágrimas da saudade, mas não ao chamado poétio da memória, imprimindo, com isso, mais expressividade à mensagem do poema.
Ao iniciar a declamação da segunda estrofe, o poeta respira fundo, aponta o dedo indicador para frente e diz: “Sinto a alma entristecida/Transpassada de saudade”, como quem deseja enfatizar a presença constante desse sentimento em seu coração (ver figura 32):
Figura 32 – Imagem 2 de Juca recitando parte do poema que fez em homenagem à esposa
Fonte: Print extraído do documentário: Meu canto é saudade: a poesia de Juca da Angélica (2001)
Além disso, quando o poeta afirma, ao final da segunda estrofe, não ter mais na vida descanso e tranquilidade, movimenta a cabeça para o lado esquerdo e direito em sinal de negação para a existência de uma vida sossegada e em paz, já que, ao pronunciar essas palavras, encontra-se sem a companhia daquela com quem um dia se casou.
Ao recitar os versos da última estrofe do poema, é possível perceber também a expressividade poética que Juca imprime aos versos pelo brilho no olhar (ver figura 33), que reflete a ausência de alegria em seu ser, confirmando o enleio saudosista contido no texto que declama: “Alegre cumo eu já fui,/A vida era um céu aberto!/Hoje aligria im meus olho/Num pode chegá de perto./Hoje o mundo para mim/É triste cumo um diserto!”.
Figura 33 – Imagem 3 de Juca recitando parte do poema que fez em homenagem à esposa
Fonte: Print extraído do documentário: Meu canto é saudade: a poesia de Juca da Angélica (2001)
Além do olhar, que atua como uma linguagem comunicativa dos sentimentos do poeta, não podemos ignorar, ainda, os efeitos de sentido provocados por alguns elementos externos, como o chapéu, que compõe o vestuário de Juca. Isso porque o chapéu, surgido inicialmente para cobrir a cabeça, com o tempo, passou a representar os pensamentos de quem o usa e é, conforme pontua Gabriela Lenz (2015, p. 4), “símbolo de identidade”. Sendo assim, mais que um simples acessório, o chapeú que Juca usa não apenas serve para proteger-lhe a cabeça do sol, por exemplo, ou complementar o seu vestuário, mas sobretudo para acentuar as suas raízes culturais, operando, nesse sentido, também como um instrumento representativo da identidade caipira do poeta.
Pela voz em performance, Juca da Angélica canta, portanto, as suas memórias, e seu dizer é perpassado por seu jeito simples de ser e calmo de falar, em meio a um cenário que também atua como símbolo de identidade, ou seja, a própria casa na roça, conforme imagem a seguir:
Figura 34 – Casa onde residia Juca da Angélica
Além disso, de acordo com Gaston Bachelar (1993, p. 26), em seu livro A
poética do espaço, é justamente na casa que normalmente o passado é avivado, por ela representar “uma das maiores (forças) de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem”.
Desse modo, levando-se em consideração o lugar de onde Juca enuncia, isto é, de sua casa na roça, é possível afirmar que o espaço corrobora para a criação de uma atmosfera nostálgica que abrange o poeta, uma vez que que é nesse espaço que vivia em companhia de sua esposa com quem compartilhou sua vida e sonhos. A casa, nesse sentido, é peça fundamental nesse jogo mnemônico e saudosista que envolve o autor, já que tal ambiente ultrapassa o seu sentido inicial de residência, alcançando um significado de um território que oferece, além de moradia, proteção e aconchego. É, pois, nesse espaço que Juca recorre às suas lembranças e lamenta a ausência de Nieta, conforme relato, a seguir, do próprio autor, extraído do documentário (intervalo entre 8:17 a 8:34) Juca da Angélica: meu canto é saudade, organizado por Cássio e Juliana (2001):
Ela andava passeano aí...rumano as coisa aqui dento, prantano fulor, que ela coisa que ela mais achava bão é fulor [...] depois aquela muié forte daquele jeito, quem é que pensava que morria de uma hora pra outra, né? (Transcrição nossa).
A passagem transcrita, acima, registra o momento em que o poeta comenta sobre os últimos anos de vida da esposa, que, embora aparentasse possuir muita saúde e realizasse as atividades com as quais era acostumada (como cuidar dos afazeres domésticos e de suas flores), veio a falecer sem que ninguém esperasse. Sendo assim, a presença de Nieta na casa faz toda a diferença para que tal espaço seja compreendido como lar, e ainda por cima, como um lar feliz, já que a vida do poeta, sem a sua companheira, “é triste cumo um diserto”, conforme último verso do poema declamado
in memoriam à esposa, de quem, em sinal de afeto, usava a aliança, junto à dele, em um de seus dedos da mão direita, conforme mostra a imagem, a seguir (ver figura 35):
Figura 35: Juca, em visita à casa de Marialda Coury
Fonte: Print extraído do vídeo: Visita do poeta Juca à casa de Marialda Coury, em 16/12/2000
Nesse sentido, quem fala em ambos os poemas é um homem que sente as sequelas da perda, seja da mocidade ou de um ente querido. Logo, os cabelos brancos do poeta-roceiro que declama no documentário também auxiliam na construção da imagem desse ser dotado de sensibilidade e talento para a arte poética, pois esses fios aludem à passagem do tempo e, consequentemente, traz à tona um de seus efeitos mais severos: a consciência da efemeridade da vida. Em seu poema Homem bem conformado, o poeta reflete justamente sobre uma dessas sequelas do tempo: o envelhecimento, cujo reflexo se nota, entre outras coisas, pelo aparecimento das rugas faciais e branqueamento dos fios capilares:
Já fui um moço tranqüilo, Já pesei sessenta quilo, Hoje já istou abatido, Já tenho o rosto rugado,
Tenho os cabelo manchado –
Mais tudo Deus é sirvido! (ANGÉLICA, 2011, p. 36)
Nessa direção, os fios brancos (ou manchados, como prefere o autor), as rugas e a voz já enfraquecida dão indícios de que os tempos de mocidade do poeta se passaram e que o tempo cronológico jamais poderá ser rebobinado; entretanto, o tempo arquivado na esfera do que há de mais sensível da memória humana, este pode e deve ser revisitado, como veremos no capítulo seguinte.