Além de poesias de temáticas saudosistas e crítico-sociais, fazem parte também do repertório poético de Juca poemas em que predominam narrativas de feitos heroicos, aos moldes dos tradicionais textos épicos. O poeta narra um desses episódios heróicos em seu poema O curso de nadá, por exemplo. O texto faz parte do livro Meu canto é
saudade, mas tive a oportunidade de vê-lo, pessoalmente, declamando-o no II Encontro de Letras (Escrita e Oralidade), realizado no Centro Universitário de Patos de Minas, de 22 a 26 de outubro de 2001. O convite a Juca partiu de Luís André Nepomuceno, um dos professores integrantes do corpo docente dessa instituição. A ideia era que o poeta, inserido na temática da poesia oral, se apresentasse para os alunos do curso de Letras, do qual eu fazia parte na época. Eu estava no meu primeiro ano de faculdade e, graças à realização desse encontro, pude conhecer, de perto, no auditório do UNIPAM, a performance de Juca que, com seu jeito espontâneo de ser, atraiu a atenção do público presente, declamando alguns de seus poemas favoritos, dentre os quais, O curso de nadá, a seguir:
Sinhores, mim dão licença, Contá minha história eu vô: Eu tinha vinte e dois ano, Esse fato se passô; O gonverno brasilero
Lá um dia mim chamô –
Era pra mim fazer parte Num curso de nadadô.
- ‘José, ocê vai tentá?!’,
A mamãe mim perguntô. - ‘Vô até de guia sorta, Quero mostrá quem eu sô!’ E chegado qui foi o dia, Todo mundo apresentô No porto de São Lorenço, Onde o gonverno chamô. Vei gente de todo o istado, Nem dium lugá num fartô; E nesse curso brasilero Um minero é qui ganhô!
Num fui peixe, num fui pato, Mais fui dos mió nadador; No porto de São Lorenço Eu mostrei o meu valor: Numa turma duns quinhentos,
Eu fui o superior –
Eu nadei contra a corrente Cumo se fosse a favor! Mais eu nadei de todo jeito: Nadava impé e sentado, De coqui e inculhidim; Nadava bem ispichado, De costa, cas mão prucéu, De bruço, cos pé parado... Cortava a água de ombro, Batia a pé compassado! Dei fuguete e piruleta, Foi um sucesso danado! Mais pra nadá de istirão, Puis o povo admirado! Istirão de cinco metro Eu ia dano imendado... Mergulhei cumo ninguém Nunca tinha mergulhado! ‘Atrais de morro tem morro’, Mim disse um velho sinhor: E esse ditado é certo, Nois somo conhecedor. Eu já pensava cumigo Ser o melhor nadador, E quasi pirdi pruma baiana Qui vinha de Salvador... Essa, antes de entrar n’água
Disse: - ‘Eu ganho for cumo for –
Sô a rãinha das água, Ninguém pisa meu valor!’ Eu pensei: ‘Ah! Baianinha! Faço ocê mudá de cor; Minero num vai perdê, Eu sô acreditador!’ Rumei as mão prucéu, Pidi o meu protetor Qui num quiria impatá, Quiria sê o vencedor! E o qui eu fazia, ela feiz,
Nois junto causamo horror –
Só num nadô contra a corrente Cumo se fosse a favor!
O sol virava pra tarde... O tempo já isgotado,
Chamaro pra saí d’água, Qui nois ficava impatado! Eu fui lá na secretaria:
- ‘Quero um prazim prorrogado,
Eu vô nadá contra a corrente
Esse derradero nado!’
E parti pra correnteza, De istirão imendado... A baianinha foi junto, Num disispero danado! E eu entrei contra a corrente, Nadano cumo um dorado. Fui lá numa certa artura, Travessei, olhei de lado... Coitada da baianinha, Aí já tinha sobrado! Tava quasi no lugar Onde tinha começado! Virei correnteza abaxo, Já vi qui tinha ganhado. Cheguei lá onde ela istava:
- ‘Vem cá, meu anjo adorado!’
Passei nela o braço isquerdo, E nois nadô impariado Pela correnteza acima Uns cem metro carculado; Fugimo da correnteza, Vortamo de braço dado. Ela sentô sobre as água, Juntinho dela eu sentei.
E dibruçô em meus ombro –
Ela chorava, eu chorei... Chorava pela derrota, Eu chorano purquê ganhei! E quando nois saía d’água,
A multidão aí vei –
Ninguém sabe carculá Os parabém qui ganhei! E o Prisidente falô:
- ‘Eu pensava num impate, Mais o minero ganhô! Pra nadá contra a corrente, A baianinha faiô!
E o minero sobe ganhá: Vortô lá e ajudô
A nadá contra a corrente O tanto qui pricisô! Agora eu acreditei Qui minero num faiz fei: A baianinha é Rãinha,
E o minero é Rei dos Rei!’
Qui Minas Gerais eu dei... Abracei a baianinha, E pras otra a mão banei! Peguei a minha muchila
E pra minha casa vortei –
Num lembro sem ter saudade Das glória qui já passei! Hoje eu ando perrengado, Mais da vida tanto gozei... Todos queram acreditar, Qui pra nadar, já fui rei!
O poeta inicia a declamação de seu texto com a tradicional expressão “Sinhores, mim dão licença”, que compõe o primeiro verso do poema. Acreditamos que Juca o introduz dessa forma, a fim de chamar a atenção dos presentes e também em sinal de educação e humildade, como faz em outros poemas já comentados. O texto narra, epicamente, a experiência do eu lírico, ao participar de uma competição de nado, aos vinte e dois anos de idade, no Porto de São Lourenço. Segundo o poema, o personagem que narra a história foi convidado pelo Governo brasileiro a representar o estado de Minas Gerais no concurso. Aceitando o convite, o narrador descreve a sua participação no evento, exaltando o seu desempenho na arte de “nadar contra a corrente como se fosse a favor”, além de enfatizar a sua hombridade ao ajudar a sua maior concorrente de nado, uma “Baianinha” de Salvador, a terminar o percurso estabelecido, conforme consta a seguir:
E o minero sobe ganhá: Vortô lá e ajudô
A nadá contra a corrente O tanto qui pricisô! Agora eu acreditei Qui minero num faiz fei: A baianinha é Rãinha, E o minero é Rei dos Rei!
Há, nesse sentido, uma narrativa em primeira pessoa que obedece à estrutura básica do texto épico, uma vez que o poema narra em versos um feito memorável e extraordinário do eu lírico – herói épico do texto em questão. Além disso, a composição do poema O curso de nadá em muito se assemelha à epopeia, visto que o personagem principal da história, além de conseguir superar todos os obstáculos para atingir seus objetivos (no caso, vencer o concurso de nado), é um ser de grande força física, intelige nte
e nobre, afinal, o herói épico demonstra nobreza, ao ajudar a sua principal concorrente a concluir o desafio, preocupando-se não só consigo mesmo, mas também com o próximo.
Ademais, o protagonista – como é comum nas tradicionais epopeias, como Ilíada
e Odisseia, de Homero, e Os Lusíadas, de Camões – representa uma coletividade, já que participa de um feito heroico (isto é, da competição) representando o estado mine iro, conforme a passagem, a seguir: “No porto de São Lorenço,/Onde o gonverno chamô./Vei gente de todo o istado,/Nem dium lugá num fartô;/E nesse curso brasileiro/Um minero é qui ganhô!” (ANGÉLICA, 2011, p. 108).
O poema apresenta, ainda, os elementos essenciais das narrativas épicas: narrador (eu poético), enredo (sucessão dos acontecimentos), personagens: principais (o narrador-personagem José) e secundárias (a Baianinha, a mãe de José e o presidente do concurso), tempo: época em que decorrem os fatos (provavelmente, na década de quarenta, a julgar pela idade do narrador-personagem: “Eu tinha vinte e dois ano,/Esse fato se passô”), espaço: Porto de São Lourenço.
Além disso, o texto Curso de nadá também obedece a três das cinco partes constituintes da tradicional epopeia, que é composta por Proposição ou exórdio, Invocação, Dedicatória, Narração e Epílogo. Das cinco partes mencionadas, apenas a invocação e a dedicatória não fazem parte do texto em questão, havendo, no entanto, as outras três: proposição: localizada na primeira estrofe, que é quando o eu lírico introduz o poema com a apresentação do herói e do tema: “Sinhores, mim dão licença,/Contá minha história eu vô:/Eu tinha vinte e dois ano,/Esse fato se passô;/O gonverno brasileiro/Lá um dia mim chamô –/Era pra mim fazer parte/Num curso de nadadô” (ANGÉLICA, 2011, p. 108); narração: apresentação dos feitos heroicos propriamente ditos, compreendendo o corpo do poema, no qual as ações do herói são enfatizadas, como nadar contra a corrente e ajudar a Baianinha a concluir o percurso; e epílogo: parte que indica o encerramento da obra (última estrofe), destacando a vitória do herói épico: “Agora eu acreditei/Qui minero num faiz fei:/A baianinha é Rãinha,/E o minero é Rei dos Rei!”/E aí foi mais um título/Qui Minas Gerais eu dei” (ANGÉLICA, 2011, p.111).
Não é nosso interesse averiguar a veracidade dos fatos narrados, mesmo porque uma epopeia não se vale apenas de temas históricos, mas também de temas mitológicos e lendários. Mas o fato é que o próprio poeta afirma, em outro vídeo (intervalo entre 56:43 a 57:30) realizado por Marialda Coury, registrando mais uma visita da artista plástica à
fazenda do poeta, que elaborou o poema com base na sua imaginação. Ao ser questionado pela artista plástica sobre o local onde ocorreu o concurso, por exemplo, Juca afirmou não saber ao certo onde ficava este lugar, se era no Brasil ou no estrangeiro. Indagado também sobre o que o levou a escolher a idade do nadador, o poeta afirmou tê-la escolhido por considerar 22 anos uma idade bonita.
O poema Curso de nadá revela, nesse sentido, que Juca, de fato, retirava de sua vivência a maioria dos motes temáticos para a composição de seus versos, mas que há exceções que deixam em evidência o lado “fingidor” ou “mentiroso” do autor, que era como Juca chamava os poetas que criavam sob o domínio da imaginação poética e não na experiência de vida propriamente dita.
Na verdade, o próprio Juca da Angélica, em fala própria, afirma que todo poeta é um pouco mentiroso. Em entrevista ao autor, registrada em vídeo (intervalo entre 14:9 a 15:18) pela TV Integração, por exemplo, ao ser questionado pela repórter Renata se todo poeta é mesmo mentiroso, Juca responde:
Não, é mentiroso mesmo, pruquê só com a verdade, Renata, ele num dá conta de fazê os verso, ele tem qui interá cum mentira... Pra mim, a cor mais bunita qui eu acho é marelo e verde, agora, nos meus verso, eu já disfiz do marelo... (Transcrição nossa).
No caso do texto Curso de nada, mesmo se não tivéssemos tido acesso ao material audiovisual em questão, no qual Juca afirma ter construído o texto com base em elementos ficcionais, é sobressalente que o poema imprime certo exagero a algumas ações do herói épico, como na passagem a seguir:
Mais eu nadei de todo jeito: Nadava impé e sentado, De coqui e inculhidim; Nadava bem ispichado, De costa, cas mão prucéu, De bruço, cos pé parado... Cortava a água de ombro, Batia a pé compassado! Dei fuguete e piruleta, Foi um sucesso danado! Mais pra nadá de istirão, Puis o povo admirado! Istirão de cinco metro Eu ia dano imendado... Mergulhei cumo ninguém Nunca tinha mergulhado!
Tal exagero na forma de apresentar as ações épicas, aliado à maneira simpática e espontânea de Juca ao declamar seus versos, arrancou muitos risos dos alunos de Letras do UNIPAM. E a recepção espirituosa não partiu somente da plateia que ouvia atenta a narrativa de Juca, mas também do próprio narrador, que se divertia e achava graça dos próprios fatos narrados por ele, o que nos leva a considerar o poema declamado por Juca da Angélica, um “texto de prazer”, conforme conceito de Roland Barthes (2002, pp. 21- 21), para o qual o texto de prazer “é aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura”.
Em se tratando da apresentação de Juca no evento em questão, o prazer do texto estaria, obviamente, não na “leitura” propriamente dita do texto, uma vez que Juca recita seus poemas de memória, mas no envolvimento entre cantador e seu público, de maneira que a recepção positiva da plateia potencializa a sensação de entusiasmo poético de quem declama, como podemos observar, por meio da imagem, a seguir (ver figura 36), em que Juca aparece com uma expressão que demonstra satisfação e alegria em contar as proezas realizadas pelo seu “eu-nadador” em sua poesia épica:
Figura 36 – Apresentação de Juca para alunos do curso de Letras - UNIPAM
Fonte: Printe extraído do vídeo: Apresentação de Juca para o curso de Letras do UNIPAM, em 2001.
É interessante observar, ainda, a facilidade que Juca possuía de passar de um texto de “liras compadecidas” (como ele gostava de chamar seus versos de temática mais melancólica e saudosista) para os que versavam sobre assuntos mais descontraídos. Juca ia, portanto, facilmente, das lágrimas ao riso, numa espécie de pot-pourri da emoção.