Ainda que não tivesse a intenção de realizar o processo de observação, o mesmo acabaria emergindo, mesmo que não sistematizado, em função de minha inserção no lócus de conhecimento. Por ser morador da cidade de Angra dos Reis desde 200637, é inegável que não
tenha valido-me do processo de observação participante, como forma de obtenção de dados, sobretudo pela facilidade de acesso ao campo. A observação é uma técnica oriunda da etnografia que, curiosamente, carrega consigo um histórico de forte colonialidade. Segundo Chizzotti (2006), o termo etnografia vem de graphein (descrever) e ethnos (estrangeiro ou bárbaro), sendo fortemente empregada por ‘culturas evoluídas’, no processo de compreensão de ‘grupos primitivos’ e ‘atrasados’. Destaco que o sentido que busquei ao empregar essa técnica, distancia antagonicamente do mencionado, já que coloco-me como parcialmente pertencente ao grupo investigado, podendo ser classificado como um observador completo (Adler & Adler, 1987).
A participação quase que integral nesse lócus de conhecimento traz consigo algumas desvantagens. Naturalmente tive de tomar algumas medidas para aprimorar o processo de observação, já que minha naturalização ao ambiente favoreceu a formação de um viés cognitivo, que ofuscou parcialmente, em um primeiro momento, o processo de ‘estranhamento do olhar’ (Abib, Hoppen & Hayashi Júnior, 2013). Tive então de treiná-lo para não deixar que questões que de fato interessavam-me, não passassem despercebidas.
Segundo Flick (2007, p.147), compreende-se por observação, a “[...] habilidade diária metodologicamente sistematizada e aplicada na pesquisa qualitativa.” Para Spradley (1980), a técnica extrapola a ideia de apenas descrever componentes de uma situação, já que permite ao pesquisador identificar os sentidos, a orientação e a dinâmica dos momentos investigados. Avançando na tipologia de observações, Flick (2007), com base em Denzin, descreve a vertente que mais se aproxima da empregada no trabalho, denominada observação participante, que envolve a combinação simultânea de documentos, entrevista de respondentes e informantes, participação e observação diretas. A observação participante caracteriza-se pela intensa interação social entre o pesquisador e sujeitos, de modo que permita a coleta sistematizada de dados (Bogdan & Taylor, 1975), seja por meio de gravações, filmagens e/ou notas de campo. Nesse sentido, quanto menos estruturado e mais público for o campo, menos influência o pesquisador exercerá sobre o fenômeno investigado. No caso dessa pesquisa, por diversas vezes pude desfrutar desse ‘anonimato’, sobretudo nas inúmeras visitas realizadas aos principais bairros do entorno da Eletronuclear, nas conversas incidentais que tive em pontos de ônibus, ruas, lanchonetes e diversos outros estabelecimentos. O anonimato também foi bastante interessante nos eventos que pude participar, relacionados no quadro 5. Em outros casos, como nas entrevistas ou nas conversas identificadas, minha presença causava uma natural influência, conforme já relatado no tópico anterior.
Quadro 5: Relação de Participações em Eventos como Observador
Eventos Entidade
Promotora Data Acesso
III Seminário sobre Matriz e Segurança Energética
Brasileira FGV / IBRE 04 e 05/07/2013 Aberto ao público mediante prévia inscrição Participação como ouvinte da primeira reunião do ano
do Centro de Coordenação e Controle em Emergências Nucleares (CCCEN)
Defesa Civil
Estadual 12/03/2014 Interno
Ato Cultural: Fukushima, até quando? SAPÊ 14, 15 e
16/03/2014 Aberto ao público Exibição do Documentário: Padora's Promise - "At the
bottom of the box she found hope."
Eletronuclear
e ABEN 27/03/2014 Interno
Audiência Pública - Sessão Especial - Medidas de Proteção e Segurança adotadas pela Eletronuclear em debate
CMAR 28/04/2014 Aberto ao público
IV Seminário sobre Matriz e Segurança Energética
Brasileira FGV / IBRE 02/06/2014
Aberto ao público mediante prévia
inscrição Nota. Fonte: dados da pesquisa
Apoiado na ideia de pluriversalidade e transpondo-a para o campo metodológico, compartilho da crença de que os caminhos metodológicos podem ser complementares na busca pela multiplicidade de conhecimentos. No entanto, autores como Silverman (2010) mostram- se mais radicais na defesa de uma vertente metodológica, sobretudo nesse trecho em que ataca as entrevistas e grupos focais, em defesa da observação:
“Em vez de ver, ouvir e ler, a maioria dos pesquisadores qualitativos
contemporâneos prefere selecionar um pequeno grupo de indivíduos para serem entrevistados ou colocados em grupos de foco. Nesse sentido, ao reunir uma amostra específica de pesquisa, ligada somente pelo fato de terem sido seus componentes escolhidos para responder a uma questão predeterminada de pesquisa, tais
pesquisadores preferem “fabricar” seus dados a “descobri-los” em “campo”.
Apesar de suas mais sinceras proclamações de que com isso estão fazendo algo muito
diferente de pesquisa quantitativa (mais “humanística”, mais “experimental”, mais “aprofundada”), semelhante fabricação de dados para responder a um problema
específico de pesquisa é exatamente o método que os pesquisadores quantitativos
adotam” (Silverman, 2010, pp.59-60).
Embora não concorde integralmente com a proposição, reconheço que ela carregue consigo uma parcela de veracidade, um dos motivos pelo qual optei por uma estratégia multi- coleta, com a finalidade de minimizar esses efeitos.
Na condução da observação participante, Flick (2007) sugere o desenvolvimento de três etapas que visam, cronologicamente (i) à descrição e aprendizado inicial do campo; (ii) à
observação focal ao cerne da questão problema, proposta pela pesquisa; e (iii) à observação seletiva, que consiste em um refinamento da segunda etapa. Evidentemente que tal sistematização seja útil no processo de ordenação dos dados, mas a complementaridade com outras fontes de dados como a entrevista, sugerem que esse processo seja mais complexo.
Os registros dos elementos observados em campo foram feitos, especialmente por intermédio de notas de campo, em sua maior parte desenvolvidas em um caderno de campo, conforme orientam Emerson, Fretz e Shaw (1995). No entanto, por força de oportunidades não programadas, nem sempre dispunha do caderno de registro, fato que motivou-me, por diversas vezes, a recorrer a rascunhos, e até mesmo ao celular, como forma de registrar os achados. Usei desde o gravador de voz, ferramentas textuais, e até mesmo câmera fotográfica e de vídeo. Apesar de alcançar o fim a que me propunha, reconheço que tais situações inesperadas contribuíram para fragilizar a coleta por observação, especialmente pela dificuldade imposta na sistematização.