• No results found

Methodological considerations

Retomando a ideia de que pesquisas qualitativas seguem uma trajetória não linear, creio que seja relevante relatar o processo de definição das técnicas de análise empregadas. Inicialmente ao propor o estudo, não tive dúvidas de que a melhor técnica de análise para os dados que buscaria seria a Análise do Discurso (AD) e, mais precisamente, a Análise Crítica do Discurso (ACD), especialmente por seu caráter político e engajado com problemas sociais. De acordo com Gill (2012), a análise do discurso

[...] é um nome dado a uma variedade de diferentes enfoques no estudo de textos, desenvolvida a partir de diferentes tradições teóricas e diversos tratamentos

em diferentes disciplinas. Estritamente falando, não existe uma única “análise de discurso”, mas muitos estilos diferentes de análise, e todos reivindicam o nome. O

que estas perspectivas partilham é uma rejeição da noção realista de que a linguagem é simplesmente um meio neutro de refletir, ou descrever o mundo, e uma convicção da importância central do discurso na construção da vida social (Gill, 2012, p.244).

Godoi (2005, p.93) reforça a argumentação ao propor que análise do discurso distancia- se da análise de conteúdo à medida em que na análise de conteúdo “[...] não há sujeito na leitura do texto; não há interpretação, senão descrição e objetivação dos componentes”. Em outras palavras, há uma busca de conclusões baseada exclusivamente no que o texto oferece, ao passo que na análise do discurso, interpretações contextuais são essenciais. Talvez esse claro caráter interpretativo de ler e inferir sobre discursos colabore decisivamente para a existência de uma grande diversidade de métodos e técnicas classificados como AD (Gill, 2012). Segundo o autor, existem cerca de 57 tipos de AD. Godoi (2005) informa que já se catalogou 34 modelos principais, inseridos em dez tendências diferentes. Cabral (2005) concebe a abordagem do tema sob o âmbito de duas correntes principais, a anglo-saxã e a europeia, ao passo que Rodrigues e Dellagnelo (2013) defendem que as duas linhas principais sejam a francesa, baseada nos trabalhos de Michel Pêcheux, e a inglesa, suportada pelos trabalhos de Norman Fairclough. É possível com esse breve apanhado, notar o quanto esse campo é difuso, com diversas possibilidades e nuances.

Conforme mencionado, dentre essas muitas possibilidades descritas, inicialmente havia escolhido empregar a Análise Crítica do Discurso de Norman Fairclough. Segundo o próprio Fairclough (2003, p.185), a concepção de Análise Crítica de Discurso pode ser definida como:

“[...] uma forma de ciência crítica, concebida como ciência social orientada

a identificar os problemas que indivíduos enfrentam em decorrência de formas particulares da vida social e destinada, igualmente, a desenvolver recursos de que as pessoas possam se valer, a fim de abordar e superar esses problemas”.

Para Fairclough (2001), o discurso, muito mais que um amontoado de meras palavras, concebe-se como prática política e ideológica. Sob a vertente de prática política, o discurso estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas em que se concebem tais relações. Na forma de prática ideológica, o discurso constitui, naturaliza, mantém e também transforma os significados de mundo nas mais diversas posições das relações de poder.

Ao relacionar discurso às práticas sociais, políticas e ideológicas, Fairclough (2001) desenvolve uma proposta de análise tridimensional, apoiada numa vertente textual (i), suportada pela análise de elementos como estrutura textual, coesão, gramática, vocabulário, além de outros; na análise da prática discursiva (ii), apoiada na análise da produção, distribuição e consumo do texto, além das próprias condições das práticas discursivas. A última vertente da análise tridimensional é a análise social (iii), que se propõe a investigar a matriz social discursiva, bem como as ordens do discurso e seus respectivos efeitos políticos e ideológicos, tópico que particularmente mais interessa-me. A figura 3 permite que seja mais bem identificada e compreendida, proposta de tridimensionalidade da análise crítica do discurso de Fairclough.

Figura 3. Concepção Tridimensional do Discurso

Fonte: Fairclough, N. (2001). Discurso e mudança social. Brasília: Universidade de Brasília.

A profunda compreensão dessa figura revela, pela própria origem acadêmica em linguística do autor, seu interesse não apenas pelas questões referentes à prática social, – que empreguei predominantemente – mas também em questões detalhadas sobre a estrutura textual e a sobre a prática discursiva, que interessam-me em menor escala. Não se trata meramente de descartar aquilo que não interessa nos procedimentos da análise, mas de não permitir que a relevância dos achados nesse processo seja ofuscada pelo rigor metodológico (Faria, 2007).

PRÁTICA SOCIAL

PRÁTICA DISCURSIVA (Produção, distribuição, consumo)

Acredito que a descrição e análise individual de cada entrevista, tal qual sugere a técnica, tornaria o trabalho cansativo e de difícil concatenação das informações, além de dificultar o estabelecimento das relações de interdependência, propostas pela codeterminação. Por esses motivos, optei por construir o relato dos resultados sob a forma de encadeamento de temas e agentes mobilizadores de Estratégias Sociais, inter-relacionados no tempo e espaço, que favoreçam a compreensão da temática estudada, mediada pela co-construção das narrativas, à medida que as mesmas sofriam minha interferência direta, por meio de questionamentos e comentários.

Portanto, valendo-me da ‘desobediência epistêmica’ (Mignolo, 2010) e de perspectiva transmoderna (Dussel, 2005), optei por não seguir sistematicamente os passos previstos na condução da ACD segundo Fairclough (2001), mas inspirar-me em parte desse processo, especialmente no tocante ao terceiro nível de análise, ou seja, à prática social. Lima (2011) fortalece meu argumento, ao resgatar que o próprio Fairclough sugere que a prática da ACD não deva seguir uma lógica predeterminada, uma vez que não há uma metodologia prefixada para o desenvolvimento das análises. Brent (2009) sugere que as escolhas metodológicas dependerão da multiplicidade de problemáticas de investigação e os consequentes objetivos de pesquisa. Rodrigues e Dellagnelo (2013) também trazem um forte argumento que contribui com a decisão, ao resgatarem o que Dussel tratou por ‘atitude sucursaleira’, ao referir-se à produção indiscriminada de conhecimento local, com base em saberes acriticamente importados. Destaco no entanto que, ao promover tal ‘desobediência epistêmica’, cerco-me de cuidados para não cair no que Godoi (2005) chamou de arbitrariedade interpretativa, numa alusão ao processo de análises feitas sem sistematização.

Por fim, cabe esclarecer que os vídeos empregados na coleta documental foram analisados de forma similar ao corpus de dados oriundo das entrevistas, no entanto, separadamente, como forma de organização analítica. Inicialmente busquei referenciais que propusessem metodologias específicas para análise de vídeos (ou análise de imagens em movimento), no entanto, deparei-me com procedimentos que fugiriam tremendamente do propósito desse trabalho (e.g. Rose, 2012), sugerindo codificações, contagens de palavras e estatísticas, que suprimiriam a relevância do que tinha por abordar, em favor do rigor metodológico.