O primeiro estudo experimental sobre conceitos foi, de acordo com Lomônaco (1997), publicado por Hull em 192011. Esse estudo foi desenvolvido dentro do referencial da teoria psicológica behaviorista e pretendeu demonstrar que um conceito consiste de características comuns a um grupo de estímulos. Diversos cartões com ideogramas chineses eram apresentados a universitários norte- americanos, que deveriam aprender o nome de todos eles. Apesar de diferentes, os ideogramas eram agrupados em 12 tipos; em cada grupo os ideogramas apresentavam um nome e um radical comum, que possibilitavam a sua identificação. Os resultados mostraram que, embora não soubessem identificar o radical comum e nomear corretamente a categoria, os sujeitos eram capazes de agrupar corretamente grande parte dos cartões.
Desenvolveu-se, a partir desse tipo de estudo, uma tradição de teoria e pesquisa que veio, posteriormente, a ser denominada visão clássica12. De acordo
com essa visão, um conceito é representado por um ou mais atributos comuns presentes em todos os membros de um grupo de coisas, pessoas, estados ou eventos. Por exemplo, no decorrer da vida um sujeito entra em contato com uma grande variedade de óculos e, gradualmente, vai percebendo diferenças e similaridades entre eles. O processo de abstração consiste em desconsiderar as características variáveis, tais como a cor, o tamanho, o formato e a função, e isolar os atributos comuns presentes em todos os óculos, tais como um par de lentes sustentadas por uma armação. A partir desses atributos, o sujeito forma uma representação mental, a qual será utilizada como critério para a inclusão ou exclusão de novos membros na categoria, na base do tudo ou nada: qualquer objeto que apresente essas características comuns será necessariamente um exemplo de óculos; se um objeto não apresentar qualquer atributo que faça parte dessa definição, ele não será considerado um exemplo da categoria (LOMÔNACO, 1997; LOMÔNACO et al., 1996; OLIVEIRA, M.B., 1999a; SMITH; MEDIN, 1981).
11 HULL, C.L. Quantitative aspects of the evolution of concepts. Psychological Monographs, v. 28, n. 123, 1920.
12 O termo “visão”, atualmente consagrado pelos estudiosos sobre conceitos, é utilizado como sinônimo de “concepção teórica”. De acordo com Lomônaco (1997), o termo foi primeiramente empregado por Smith e Medin (1981), ao rotularem a mais antiga das concepções teóricas sobre conceitos com o nome de visão clássica.
Para a visão clássica, portanto, as categorias são representadas por uma lista de atributos definidores, os quais são individualmente necessários e conjuntamente suficientes para determinar a inclusão de seus membros. Ou seja, para que um objeto seja considerado membro de uma categoria, ele deve necessariamente conter cada atributo definidor do conceito; por outro lado, a apresentação de todos os atributos definidores por um objeto é condição suficiente para incluí-lo como membro da categoria (LOMÔNACO, 1997; MEDIN, 1989; NELSON, 2002; SMITH; MEDIN, 1981).
Por ser uma representação sumária, o conceito não corresponde a nenhum objeto específico, mas se aplica a todos os objetos que sejam considerados exemplos da categoria; assim, o conceito de óculos não é uma imagem mental de um óculos específico que o sujeito conheceu, pois não inclui a cor, o tamanho ou o formato das lentes, mas apresenta as características essenciais que se aplicam a todos os óculos que existem (LOMÔNACO, 1997; SMITH; MEDIN, 1981).
De acordo com essa visão, os conceitos organizam-se, segundo o seu grau de generalidade, num sistema hierárquico de inter-relações, no qual os conceitos menos gerais apresentam todas as características dos conceitos mais gerais que os englobam, acrescidos de características específicas. Por exemplo, o conceito de fruta é mais geral que o de maçã; assim, o conceito de fruta engloba todos os tipos de maçã, além de laranja, jaca, etc. O conceito de maçã, por sua vez, possui todos os atributos do conceito de fruta, aos quais se somam os seus atributos específicos (TOLENTINO et al., 1986). Ou seja, para a visão clássica, "os atributos definidores de um conceito estão necessariamente incluídos nos subconjuntos deste conceito" (LOMÔNACO, 1997, p. 47).
Smith e Medin (1981) também afirmam que, na visão clássica, pressupõe-se que os conceitos sejam representações mentais relativamente estáveis, tanto no sentido individual (pois, uma vez adquirido o conceito, não há mudança) quanto coletivo (pois, se dois sujeitos possuem um conceito, este é igual para ambos, visto que os atributos definidores de um conceito são sempre os mesmos).
Segundo Lomônaco (1997) e Smith e Medin (1981), algumas implicações decorrem dos pressupostos da visão clássica. Tendo-se por base que todos os exemplos de um conceito possuem os mesmos atributos comuns, não existem exemplos mais ou menos representativos, todos têm a mesma representatividade; assim, qualquer fruta (maçã ou jaca) representa igualmente bem a categoria de
“frutas”. Uma outra implicação é que, como a inclusão de novos exemplos na categoria é feita na base do tudo ou nada, não existem casos limítrofes ou duvidosos e os limites das categorias são muito bem definidos, ou seja, não há dúvidas quanto à inclusão ou não de novos exemplos na categoria, visto que, se o objeto apresenta os atributos essenciais do conceito, ele é nela incluído, se deixa de apresentar ainda que seja apenas um atributo, ele é dela excluído.
Embora a visão clássica defenda que todos os conceitos possuem atributos definidores, que todos os exemplos de uma categoria são igualmente representativos e que os limites das categorias são bem definidos, na realidade há algumas dificuldades em aceitar tais pressupostos. Por exemplo, quando se tenta identificar os atributos definidores de um gato, sente-se uma grande dificuldade, pois, mesmo que um gato deixe de ter quatro patas, perca os pelos e deixe de miar, continuará sendo um gato. Assim, nenhuma característica, isolada ou conjuntamente, parece ser necessária e suficiente para definir este e muitos outros conceitos. Do mesmo modo, percebe-se intuitivamente que um gato é mais representativo da categoria de mamífero do que um ornitorrinco; embora, por definição, todos os membros de uma categoria sejam equivalentes, intuitivamente não se aceita que o sejam. Além disso, percebe-se uma dificuldade, em algumas situações, para decidir se um elemento faz parte ou não de uma categoria, o que mostra que os limites das categorias podem não ser tão precisos. Por exemplo, "patins devem ser incluídos na categoria 'meios de transporte' ou 'brinquedos'?" (GARDNER, 1985/1995; LOMÔNACO, 1997; MEDIN, 1989; OLIVEIRA, M.B., 1994, 1999a; ROSCH, 1973, 1975; ROSCH; MERVIS, 1975; SMITH; MEDIN, 1981).
Para Klausmeier (1992), uma outra limitação da visão clássica é que ela considera somente os atributos intrínsecos na definição de um conceito. Os atributos intrínsecos são as propriedades invariantes de algo observável ou que pode ser tipicamente evidente. Segundo o autor, nem todos os conceitos podem ser definidos em termos de atributos intrínsecos, existindo também os atributos funcionais e relacionais. Um atributo funcional refere-se ao modo como algo funciona e para o que é usado, já um atributo relacional diz respeito às relações entre dois ou mais itens. Smith e Medin (1981) também criticam a ausência de atributos funcionais na visão clássica, a qual considera apenas o que eles denominam características estruturais.
Apesar dessas dificuldades, a visão clássica serviu como fundamento para a grande maioria das pesquisas sobre conceitos formuladas até a década de 60 do século passado (LOMÔNACO, 1997; OLIVEIRA, M.B., 1994). Foi apenas na década de 70, que algumas de suas limitações passaram a ser percebidas e criticadas. Tais críticas colocaram a visão clássica em questão e propiciaram o surgimento de duas novas teorias: a visão prototípica e a visão dos exemplares.