O retorno do PTB ao poder no governo Goulart permitiu ao partido investidas mais ousadas no meio social. A partir de 1 962 o Ministério do Trabalho' voltou ao centro dos acontecimentos por força do novo status de Jango e da escolha de lideranças reformistas para essa pasta. Através dela Goulart foi sendo superado na prática que ele mesmo introduzira, de diálogo fácil com as massas e de acordos
com as lideranças sindicais, quer em questões trabalhistas, quer em negociações políticas. O redimensionamento do papel político do ministério foi uma das prin cipais fontes de conflito no governo, e isso porque não havia limites prefixados para as alianças entre o partido, os sindicalistas e as esquerdas. Até 1 962, durante as gestões de Francisco de Castro Neves (PTB/PI - janeiro a agosto de 1 96 1 ), Franco Montoro ( PDC/SP - setembro de 1 96 1 a julho de 1 962) e Hermes Lima ( PSB/DF - julho a setembro de 1 962), a pasta do Trabalho não ocupou O centro das atenções. O movimento sindical crescia em termos reivindicativos e políticos (Rodrigues, 1 98 1 ), mas não se estabeleceu com esses ministros uma nítida relação entre a organização do movimento e a pasta do Trabalho. A política sindical con tinuava sendo ainda obra intelectual de Goulart, assessorado por Gilberto Crockatt de Sá.
Com João Pinheiro Neto à frente da pasta, a partir de setembro de 1 962 a situação começou a mudar. O tom nacionalista que imprimiu a suas declarações, associado à própria instabilidade ministerial do governo, fez com que ficasse apenas três meses no cargo, tempo suficiente para veicular a premência da sindicalização rural. A par disso, João Pinheiro Neto fez ampla divulgação das intenções do go verno de promover e implementar a legislação rural. No repertório, a questão social era apontada como a última grande batalha a ser vencida pelos trabalhadores bra sileiros, em sua maioria completamente desassistidos nos meios rurais e sem direitos mínimos de cidadania. 1 98
Em fins de 1 962, essa proposta ministerial dava o tom reformista-social a um governo que procurava recuperar o presidencialismo. Por essas razões, a gestão de Pinheiro Neto, futuro superintendente da Superintendência de Polítiêa Agrária (Supra), foi um marco na recuperação do Ministério do Trabalho como [oeus pri vilegiado de elaboração de políticas e propostas para o movimento sindical em conexão com a questão nacional.
Com a instauração do presidencialismo em janeiro de 1 963, o Ministério do Trabalho passou a ser ocupado por Almjno Afonso, ex-líder do partido na Câmara e um dos principais expoentes do "Grupo Compacto" do PTB. Almj no procurou desarticular antigas lealdades pelegas e montar uma rede nacional de lideranças mais expressivas na estrutura sindical. Essa estratégia atingia de perto a estrutura
1 98 Pinheiro Neto, 1 993. Ver também seu Depoimento ( 1 977). É fato que Franco Montoro tivera uma
política aberta nessa pasta, mas há que ressalvar sua preocupação em fortalecer os sindicatos católicos.
de relações que João Goulart montara e tinha como meta fortalecer o movi mento sindical com lideranças mais agressivas, que forçassem o presidente a assumir com promissos mais positivos em relação às reformas. Almino conseguiu a adesão do CGT a sua política, tentou desmantelar a máquina clientelista de Ivete Vargas em São Paulo e, segundo Erickson, "apoiou os radicais contra Jango", 1 99 impondo se como competidor do próprio Jango e de Brizola dentro do PTB e no movimento sindical. Segundo esse autor, Almino "procurou usar o poder político para beneficiar os trabalhadores e desfavorecidos [ . . . ] e os Lideres sindicais aos quais apelou ma nifestaram uma concepção de interesse e de consciência de classe muito mais clara que seus antecessores" (Erickson, 1 979: 1 25).
Em que pese ao mérito da análise de Erickson, a tipologi a que estabelece para definir a atuação dos ministros do Trabalho não parece clara. Segundo ela, as gestões Almino e Jango são classificadas como "popul istas-radicais", e m con traposição aos estilos populistas c lássicos que teriam predom inado durante o go verno JK, e ainda ao modelo paternalístico-administrativo, típico dos governos au toritários no Brasil (Erickson, 1 979: 1 25). Traçando um paralelo entre Jango e Almino, Erickson, no entanto, detém-se em mostrar e comprovar o quanto as duas gestões foram diferentes. Isto porque, segundo ele, Jango mobilizava os setores sindicais, mas, como ministro e presidente, "procurou conceder benefícios aos tra balhadores no estilo paternalista". Enaltecendo o papel de Almino, Erickson lembra, contudo, que esse ministro fez pleno uso do empreguismo, típico da versão "pa ternalística-administrativa", porém conclui que "não usou o empreguismo para fins tradicionais, mas para propósitos de mudar o sistema político". Ou mais preci samente, que ele i nfundiu no clientelismo um "conteúdo ideológico", já que, ao "aumentar seu próprio poder", as lideranças trabalhistas e sindicais conquistavam benefícios para seus eleitores (Erickson, 1 979: 1 1 8). Essa argumentação parece pre cária e a tipologia do autor fica prejudicada para se entender qual teria sido, de fato, a dinâmica do Ministério do Trabalho naqueles idos de 1 960. A gestão Almjno foi uma demonstração de que, ao fim do governo Goulart, muitos recursos eram válidos quando o objetivo era ganhar a vanguarda do PTB e do movimento sindical e reformista. Isso é tão mais importante quando se sabe que não estavam prefixados os limites para essa corrida.
199 Ericksol1, 1 979: 1 23. Este estudo continua sendo a análise mais detalhada sobre a gestão de Almino
Afonso à frente da pasta do Trabalho. Ver também Coelho, 1 965 e 1 987.
A exemplo de várias outras lideranças petebistas, Almi no Afonso combateu as políticas do governo, principalmente o Plano Trienal, em conjunto com a FMP, e transferiu recursos do PTB para os sindicalistas radicais. B uscou formar suas bases dando prioridade aos remanejamentos dentro dos institutos de aposentadorias e pensões, particularmente em São Paulo e na Guanabara ( Delgado, 1 985). Nessa trilha, contrariou seriamente a política sindical de Goulart, na medida em que ten tava alterar comandos fiéis ao presidente da República.200 Assim como todos os ministros que passaram pela pasta do Trabalho, Almino não questionou a estrutura sindical corporativa. Tentou, sim, ocupar os cargos-chaves nessa estrutura com pes soas de sua confiança. Sendo o objetivo ampliar bases e firmar lideranças dentro da cúpula partidária, era recomendável manter o corporativismo sindical, estrutura afeita a um diálogo mais rápido e a um entrosamento mais eficiente entre os de tentores dos poderes públ icos e as lideranças sindicais.
A gestão Almino apontava, segundo Erickson, para uma alternativa autoritária de esquerda. Esse parecia ser, aliás, o pensamento dominante na época entre os petebistas mais radicais, enquanto, em nome das reformas estruturais e dos in teresses nacionais e sociais, outros líderes, particularmente Brizola, pediam o fe chamento do Congresso e a instauração pelo alto de uma solução nacionalista.