A análise da gramática na sala de aula é um grande nó e tem sido discutida longamente tanto por linguistas quanto por professores que trabalham com o ensino da língua materna. Dentro de nossa pesquisa, essa questão também tem importantes aplicações no ensino e na “Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas”, por essa razão destinamos este espaço para discutirmos os pontos em que se entrelaçam esses dois lugares (ensino e TOPE).
Há diversos especialistas que dedicam suas pesquisas à busca de encontrar uma solução para tal problema, visto que, ainda é a gramática normativa que tem prestígio na sala da aula. Nos últimos anos, a gramática normativa tem apresentado uma série de dificuldades para ser ensinada e, principalmente, ter boa receptividade por parte dos alunos, pois eles a consideram estritamente teórica e, nem sempre, capaz de responder aos questionamentos deles baseados em situações ou exemplos dados por eles, visto que partem de enunciados naturais e não são “exemplos prontos”. Além de analisar as observações feitas por esses estudiosos, também analisaremos as observações de Culioli.
O papel e o objetivo da escola brasileira, quanto ao ensino da língua materna, é ensinar o português padrão, ou talvez, mais exatamente, propiciar condições para que isso aconteça e ele, de fato, seja aprendido. Porém, a maioria dos alunos não veem fundamento, necessidade e sentido nesse tipo de língua. Criou-se uma repulsa em aprender Língua Portuguesa (referindo-se à gramática), pois a sociedade, em destaque os estudantes de Ensino Fundamental II e Médio, criou a ideia que aprender português é muito difícil. Provavelmente, os alunos apresentam dificuldade em aprender ou querer aprender a norma culta da língua ou a mais próxima do padrão, porque já vêm para a escola com essa ideia, ou melhor, com esse pré-conceito pronto em relação à matéria gramática.
Acreditamos que há duas razões pelas quais não se aprende, ou se aprende e não se usa a norma padrão da língua: uma tem a ver com valores sociais
dominantes e a outra pelas estratégias usadas e aplicadas nas escolas. O maior problema em relação ao ensino da forma padrão, acreditamos que realmente seja grave quando se trata de ensiná-lo a quem não o fala usualmente, ou seja, aos alunos de classes populares.
Em decorrência desse fator, muito se fala em preconceito linguístico, mas o preconceito mais grave e profundo está no que se refere às variedades de uma mesma língua. Dificilmente os falantes naturais aceitam de maneira tranquila que os falantes da mesma língua falem-na de maneira diferente, sejam com gírias, sotaques, expressões regionais, pois são diferentes. Está fora da norma padrão da língua por isso é considerado errado, feio, uma ofensa à própria língua.
Como já se sabe, o ensino de gramática na escola vem ocorrendo de forma bastante insatisfatória. A justificativa para isso decorre de motivos simples, mas profundos e importantes para a resolução do problema, seja porque o professor precisa decidir uma série de situações antes de aplicá-la, como por exemplo, qual a proporção de suas aulas que ele destinará ao ensino da língua, que ele deverá dedicar a cada uma das necessidades de assuntos ou das frentes, como: leitura, produção de texto, gramática etc. Além desse fato, também entra a questão sobre o nível de ensino e o tipo de classe, ou ainda, o tipo de escola: pública ou privada.
Uma das mais importantes razões, talvez a principal deste tópico, aborda as orientações didáticas: ensinar qual gramática? Ensinar a gramática a partir de regras (a normativa ou tradicional) ou ensinar a partir do uso da observação, a gramática descritiva ou internalizada. Rezende (2000, p. 22) em observação ao tipo de ensino de gramática que atualmente ainda perdura, faz a seguinte afirmação: “[...] o ensino gramatical tende a ser eternamente prisioneiro de valores prototípicos, isso se deve, em boa parte, à concepção de sentido que o sustenta.” Porém, o que observamos é que, quanto ao ensino de língua materna, há diferentes objetivos atribuídos à escola de Ensino Fundamental e Ensino Médio (preparar o aluno para a vida ou prepará-lo para o vestibular, dois objetivos que coincidem com um número extremamente divergente entre os alunos, principalmente se aluno de rede particular ou pública).
Se voltarmos a cada uma das definições de gramática apresentadas acima em 2.2, 2.3, 2.4, 2.5, notamos que cada uma delas corresponde a uma concepção diferente e compatível de língua que o falante apresenta em diversas situações de comunicação, o meio social e cultural no qual está inserido.
Para a gramática normativa, aplicam-se as regras de uma variedade padrão da língua, aquela que apenas uma parcela da sociedade aplica em seu uso diário. Essa gramática é a que funciona como modelo quando temos a língua escrita, exclui de sua consideração todos os fatos que divergem da norma padrão, ou seja, não aceita ou considera qualquer tipo de variação linguística. Ilustrando essa discrepância, Uchôa (2007 apud WAMSER, 2013, p. 19) utiliza os termos núcleo duro (hard) e núcleo flexível (soft) para estabelecer uma oposição entre as regras da gramática normativa e as regras pertinentes ao texto, que extrapolariam o nível apenas normativo da gramática. Núcleo duro refere-se, justamente ao caráter impositivo das regras da gramática, que é dividida entre fonologia, morfologia e sintaxe. Núcleo flexível, opondo-se às regras fixas, refere-se a toda riqueza de fenômenos proporcionada pelo texto. Mesmo conhecendo a importância do trabalho sobre o núcleo flexível, este fica relegado a apenas algumas aulas isoladas, as chamadas aulas de redação, predominando o estudo sob o núcleo duro.
Contrapondo com nosso trabalho que se apoia na variação radical e constitutiva da língua, o estudo pautado apenas nesse tipo de gramática fica insuficiente e incompleto. Porém, observamos que o professor acaba por se deter nessas regras e faz desse modelo o que realmente ele deve ensinar para seu aluno e acredita que ele aprenda e compreenda que a língua escrita é muito diferente da língua oral. A língua oral é espontânea e natural, por isso, os “desvios” não são relevantes, em um texto escrito isso não é permitido, porque ele deve seguir as regras determinadas pela gramática normativa.
Porém, essa concepção de gramática não vem ao encontro da TOPE. A proposta do linguista Culioli (1990), é de procurar o dado linguístico como resultado de uma articulação entre linguagem e línguas. Ou seja, só é possível encontrar ou estabelecer tal relação quando o estudo das línguas permite a variação e o dinamismo. A plasticidade e/ou flexibilidade é o grande centro da nossa proposta teórica e metodológica. A gramática tradicional não autoriza esse dinamismo, é rígida e inflexível. A esse respeito, Rezende (2000, p.16) aponta:
Na abordagem estática dos fenômenos da língua, a cada organização singular de signos em cadeia, cada um deles, após o encadeamento, permanece inalterado. Todo e parte não se interpenetram. Interessa-nos, então, na abordagem dinâmica, defender a ideia de que qualquer unidade nocional (lexical e gramatical) é um quase-signo, é um dêitico.
Quando pensamos no ensino de língua materna devemos pensar no aprendiz, com suas variedades linguísticas, no sentido sociolinguístico, que podem ser sociais, regionais, espaciais etc, pois todos esses fatores interferem na variação linguística e a enriquecem, não esquecendo que essas variáveis linguísticas são mutáveis até mesmo dentro de uma região.
Essas podem ser variáveis fonológicas, morfológicas ou até mesmo sintáticas, e, no entanto, não comprometem e nem criam conflitos entre os falantes, pois todos conseguem comunicar e expressar aquilo que desejam. A partir de tal diversidade, podemos depreender a gramática descritiva.
Nesse tipo de gramática nenhum dado é desqualificado como não pertencendo à língua. A princípio nenhuma expressão é encarada como “erro”, o que para os tradicionalistas é errado. Ao contrário, a gramática descritiva considera um fato a ser descrito e explicado e prevê a língua falada ou escrita como sendo um dado variável, compreende a língua não como um elemento uniforme e estático, mas como dinâmica e instável. Essa gramática a vê como algo que está em constante processo de mudança por fatores diversos.
Além desses fatores, percebe-se que seu grande esforço é encontrar as regularidades que consideram essas variações. No entanto, o termo variação, dentro da TOPE, ocupa uma posição de destaque, pois é somente através dela que podemos chegar às invariantes linguísticas, porém não apresenta o mesmo sentido explorado pela ótica da sociolinguística.
Hoje, através das diversas pesquisas linguísticas, especialmente pela sociolinguística, sabe-se que variações ocorrem por fatores externos à própria língua como geográficos, de classe social, faixas etária, de sexo, de instrução etc. Possenti (2010) afirma que os sociolinguistas em geral defendem a hipótese de que as regras são de natureza variável, de forma que é muito difícil para qualquer pessoa falar durante certo tempo sem passar inconscientemente de uma variedade à outra7.
O linguista Culioli (1990) explana que a procura do dado linguístico e os processos experimentais, nessa concepção de linguística que busca a variação, passa sempre pela relação linguista e enunciadores e pelos testes de aceitabilidade, não aceitabilidade ou de julgamento linguístico de sequências e de combinações de
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Mais adiante será apresentada uma abordagem a respeito das variações linguísticas associadas ao estudo da TOPE.
unidades, culminando com a elaboração de um "corpus atestado" ou de um "corpus comprovado empiricamente".
Podemos facilmente entender que a procura do dado linguístico citado por Culioli (1990) aproxima-se muito dos dados dos linguistas que defendem a gramática descritiva. Eles afirmam que a gramática internalizada faz parte, que ela é o objeto de estudo das outras gramáticas, e segundo Perini (1996) sobretudo da gramática descritiva. No entanto, se afirmamos que os fatos linguísticos são variáveis, parece correto afirmar que o falante implicitamente domina e que ele utiliza de maneira regular sua variedade de língua e as variedades próximas a ele.
A respeito dessa afirmação, Perini (2006, p. 77)argumenta:
Como o dialeto padrão é apenas uma variedade de uma língua, as gramáticas normativas dão conta apenas de um subconjunto dos fatos de uma língua. Não é surpresa que, em consequência dos privilégios que sempre recebeu por parte de escritores e gramáticos, e por causa de sua veemente e cara defesa, feita às vezes às custas da crítica de outras formas, essa variedade nos pareça “melhor”, mais versátil e menos rude; entretanto, essa impressão não justifica a crença preconceituosa, infelizmente muito difundida na nossa sociedade, de que outras variedades linguisticamente inferiores, erradas e incapazes de expressar o pensamento. Diante das novas discussões e necessidades de mudanças no ensino, ou melhor, na forma como ensinar o aluno nos dias atuais podemos concluir que não há uma forma exata, única, pronta e correta para o ensino da gramática na sala de aula. Não podemos negar que o papel do professor seja imprescindível, uma vez que ele é o grande agenciador do conteúdo a ser ministrado. No entanto, ele deve tomar alguns cuidados antes de iniciar uma aula voltada para a gramática. É necessário repensar suas práticas pedagógicas, não levar em consideração apenas o modelo formal de linguagem, não que ele não deva ensinar isso ao seu aluno, aliás, é papel da escola preparar o aluno para as diversas situações da vida. Dentre essas situações está a de prepará-lo para situações que requeiram um conhecimento aprimorado, ou melhor, formal da língua, seja esse conhecimento aplicado no texto oral ou escrito. A preocupação diante dessa nova necessidade está clara no PCN:
[...] o objetivo é formar cidadãos capazes de utilizar a escrita com eficácia, que tenham condições de assumir a palavra — também por escrito — para produzir textos adequados, é
preciso organizar o trabalho educativo para que experimentem e aprendam isso na escola. (BRASIL, 1998, p. 48).
Não pretendemos defender uma determinada gramática, pois cada uma delas apresenta sua importância e uma deve vir auxiliar e complementar a outra. Daí sugerimos a adoção de uma posição de ensino de língua (principalmente o voltado para a gramática) que desperte no aprendiz a consciência para a atividade da linguagem, que o leve a operar sobre as diversidades da língua de modo a promover o exercício da criatividade enquanto forma de expressão assim como ela aparece nos processos de representação, referenciação e regulação, que é a linguagem (ou o texto).
O professor sabe que não está na sala de aula para defender uma teoria gramatical e, sim, para ensinar o aluno a compreender os mecanismos linguísticos de sua língua materna. Para isso é necessário criar um diálogo constante entre o eu e o outro.
Rezende (informação verbal)8 durante uma aula de pós-graduação expôs que a linguagem é um processo de equilibração e a unidade é o que sustenta a variação. Quanto mais eu (unidade) tenho integração com a diversidade (outro) maior é o ganho, pois quanto mais integrar o outro em mim e eu no outro e resgatar a unidade e aproveitar as informações maior será a interpretação. Esse eu na maioria das situações de interação de comunicação em uma sala de aula é o professor, e, o outro, o aluno. Dando continuidade à reflexão da professora, o eu (unidade) está investido no papel do professor e o outro (diversidade) está investido no papel do aluno (EU X OUTRO OUTRO ↓ EU). Saber ouvir, interpretar, analisar e aproveitar a informação sem que ela sofra alterações, maior será o ganho no processo de ensino e aprendizagem da língua materna.
Através dessas análises, também é correto afirmar que não há material didático pronto, perfeito para esse roteiro de trabalho, o principal material é o que o aluno traz consigo, ou seja, sua produção linguística. Dessa maneira, nós professores, podemos trabalhar com o inventário linguístico do aluno para a construção de uma gramática relevante, dinâmica e significativa para ele.
Outro ponto importante nessa reflexão a respeito de qual gramática ensinar na escola é fazer com que o ensino de português deixe de ser visto como a
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Menção feita pela professora Letícia M. Rezende na aula do dia 16/03/2010 na FCL-UNESP de Araraquara.
transmissão de conteúdos prontos e cheios de regras, e passe a ser uma tarefa de construção de conhecimentos por parte dos alunos. Dessa forma, parte-se do conhecimento do aluno para construir o conhecimento formal e de acordo com Rezende (informação verbal)9 levar o aluno a pensar no pensar. Nosso projeto de pesquisa se pauta em uma gramática enunciativa que tem por objetivo conduzir o aprendiz a entender o processo de construção significativa do enunciado dentro do processo enunciativo.
2.7 Articulação Léxico-Gramatical: Uma Proposta Dinâmica no Ensino da