• No results found

Transport at high temperature gradients

7.3 Kondo effect 114

7.3.3 Transport at high temperature gradients

O primeiro deles foi Tambor de água, em 2004, criado a partir da pesquisa intitulada Partitura Gestual e Corporal do Pará, de autoria do Alberto. Durante nove meses, ele e Walter Freitas, também responsável pela direção musical, percorreram feiras livres e portos de Belém para coletar ações físicas e vocais que seriam recriadas sem a palavra. A dramaturgia da cena nascia tão somente do corpo e dos sons gerados pelos dois atores, que também trabalharam com lendas indígenas, articulando-as à partitura que ia sendo construída.

Do Usina, além do Alberto, Wlad fez uma assistência de criação e eu, a preparação corporal durante alguns meses. Nani participaria pela primeira vez, registrando o processo. Foi um trabalho intenso: além da pesquisa de campo, os atores tinham uma rotina em sala de ensaio que ia dos princípios da teoria musical

135 Elenco: Alberto Silva Neto e Walter Freitas. Pesquisa de corporalidade e sonoridade: Alberto Silva

Neto e Walter Freitas. Cenografia: Walter Freitas e Alberto Silva Neto. Figurino e assistência de

criação: Wlad Lima. Confecção de figurinos: Telma Lima. Iluminação: Patrícia Gondim. Cenotécnica:

Oriana Bitar e Manoel Pacheco. Preparação corporal: Valéria Andrade. Registro do processo: Nani Tavares. Projeto Gráfico: Sérgio Bastos. Fotos: Octavio Cardoso. Música e direção musical: Walter Freitas. Dramaturgia: Alberto Silva Neto, Walter Freitas e Wlad Lima. Produção: Marta Georgea.

até o minucioso treinamento físico sistematizado pelo grupo Lume - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da UNICAMP, de Campinas/SP.

O resultado da pesquisa foi um espetáculo de uma hora, em que os “atores- músicos” criavam inúmeras imagens usando apenas um “tapete” de esteiras, algumas varas de miriti, alguidares de barro, apitos de madeira e caroços de tucumã transformados em instrumentos musicais artesanais.

Figura 68 e 69: Apresentação de exercício do Tambor de Água, no Instituto de Artes do Pará (IAP). Walter Freitas e Alberto Silva Neto. (Octavio Cardoso, 2004). Acervo pessoal: Alberto Silva Neto.

Depois de cumprir temporada em Belém, na sala de ensaio do IAP – Instituto de Artes do Pará, o espetáculo circulou durante quase três meses por doze municípios paraenses, onde os atores realizaram debates e oficinas através da Caravana Funarte.

3.5.2 80 já era!136

Em 2005, Nando dirigiu o segundo trabalho do grupo resultante do edital de bolsas do IAP. Era um olhar sobre a década de 1980, mais especificamente sobre a efervescência da cena artística de Belém. Quatro personagens (Manára Lance, Dan, Lao Tse e Baby Blue) rememoravam lugares, músicas, espetáculos, acontecimentos que marcaram essa geração.

O cenário, uma caixa preta com tecido de malha preta, até o teto. Luzes e projeções transformavam o espaço em ambientes tais como o estúdio de uma rádio, o consultório da fonoaudióloga Manára ou a boate onde Lao Tse encontrava clientes dos programas. O contraste ficava por conta das cores frias, “com focos que valorizavam detalhes mínimos, sem nunca revelar o todo, como a luz de leds e neons.” 137

Figuras 70, 71 e 72: Cenas de 80 já era!, no Instituto de Artes do Pará (IAP). (André Mardock, 2005). Acervo pessoal: Nando Lima.

136 Elenco: Andréia Rezende, Milton Aires, Nando Lima e Patrícia Gondim. Design de som e

assistência de direção: Leo Bitar. Músicas-melodias: Paulo Moura. Letras: Nando Lima. Arranjos:

Renato Torres. Dramaturgia: Oriana Bitar e Nando Lima. Cenotécnica, portaria e operação de vídeo: Marcelo Sousa. Iluminação: Patrícia Gondim. Câmera e edição de vídeo: André Mardock. Direção: Nando Lima. Maquiagem: Mikson Matos. Costureira: Telma Queiroz. Cenário, figurino, edição de

vídeo, design gráfico, direção geral: Nando Lima. Produção: Intimídia – U.C.T – Leo Bitar.

Nando convidou Andréia Rezende, com quem havia trabalhado apenas fora do Usina, Milton Aires, que havia participado de oficinas ministradas pelo Alberto, e depois Leo e Patrícia. Juntos, criaram o roteiro que servia de fundo à rememoração de episódios e fatos reais. Os atores improvisavam, trazendo as lembranças pessoais, batendo papo sem combinar previamente. O acaso se fazia presente, como na cena em que o Nando, assumindo o papel dele mesmo, conversava com Andréia, durante um tempo indeterminado - poderia durar cinco ou vinte minutos -, dependia da resposta do público e da percepção do Nando.

A temporada de estreia aconteceu na sala do IAP, onde o público de quarenta a cinquenta pessoas era dividido em dois lados por uma tela na qual eram projetadas as imagens. Por ocasião de uma programação do Circuito Banco do Brasil, o espetáculo também foi apresentado para quatrocentas pessoas em palco italiano, no Teatro Maria Sylvia Nunes, ganhando um formato semelhante ao de um show, trabalho com o qual Nando tem bastante familiaridade, pois é frequentemente convidado para dirigir shows. Depois disso, voltou a fazer temporada no U. Porão138, para vinte pessoas.

Ao encenador, interessa que o espectador tenha uma percepção quase sensorial, a partir do fluxo de imagens e sons propostos em cena. Ele explica que a comunicação um tanto caótica não se estabelece, necessariamente, pela via da compreensão, e sim por um jogo que envolve uma mistura de elementos, fazendo a baixa tecnologia parecer high-tech. Truques de teatro simples e antigos ajudam a construir a visão do encenador sobre um determinado assunto, que por sua vez será lido pelo público a partir de referências pessoais.

Para Nando, o ato cênico é sempre motivo de celebração; ele diz que seus espetáculos comportam uma festa da qual a plateia nem se dá conta. Neste caso, o bar fictício New Pussanga recriava o ambiente underground de um famoso point daquela época, convidando o espectador a fazer do espetáculo um ritual de começo de noite. Os atores também bebiam vodka, algo, aliás, recorrente nos seus trabalhos.

O texto de um fly digital produzido para a temporada de 2007 sintetiza a ideia do espetáculo da seguinte forma:

138 Espaço do porão da residência de Leo Bitar, na Rua Campos Sales, bairro da Campina,

80 já era! Nós insistimos na experimentação, atualizamos mentes e corações com downloads de emoções subliminares, traçamos paralelos, atualizamos tecnicamente, demos algumas risadas olhando nos olhos da nossa geração... aprontamos muito, “...mesmo que parecesse ser modesto”. Aqui e agora postamos o resultado da nossa era, de frente pra vc como quem escreve um email; constantes e em processamento, em brilhos de luz, fachos de olhos espreitando leds insones, deboches, carreiras rápidas, mortes súbitas. Não resistimos, entregamos o corpo para o seu prazer, dançamos, cantamos, e tesos ainda cremos que seja possível...139