Em 1993, o grupo produziu três espetáculos: Primeiro milagre do menino Jesus estreou em janeiro, concretizando a antiga ideia do grupo de montar esse texto de Dario Fo, escrito em 1980 e na época já encenado pelo próprio. Inspirando- se no evangelho Proto Mateus, que traz a história dos primeiros doze anos da vida de Cristo, o italiano satiriza os valores cristãos da civilização ocidental, numa comédia em que os divinos assumem forma essencialmente humana:
O autor chega aos extremos a expressar a humanidade dos personagens. Os três reis magos, por exemplo, reclamam da dor no traseiro ao ter que perfazer longo caminho atrás da estrela-guia no lombo do camelo. E o rei negro Gaspar sofre com o racismo dos outros reis e mesmo de Santana, a sogra de José. Esses dois, por sinal, vivem às turras como qualquer relação de genro e sogra.109
Ao contrário da primeira tentativa de montagem do texto, em 1989, quando os seis atores passaram meses tentando descobrir possibilidades de contar a história, agora preservou-se a natureza original da obra, escrita para um ator – Dario Fo tem um repertório de monólogos que escreveu para ele mesmo representar. Alberto Silva Neto desdobrava-se em vinte e cinco personagens – inclusive os animais e Deus – marcando a entrada de cada um com o envolver do pano que lhe servia de figurino. Além desse elemento, que recriava as pluminhas usadas nos ensaios de
107 Beto Paiva, em matéria para o Jornal O Liberal/ Caderno Dois (24/julho/1992).
108 Elenco: Alberto Silva Neto. Sonoplastia: Cláudio Melo/ Dionelpho Júnior. Direção: Beto Paiva. 109 Jornal O Liberal/ Caderno Dois (08/janeiro/1993).
anos atrás, o ator utilizava em cena, um boneco de espuma sintética a “representar” o recém-nascido que dorme no colo de Maria, e o cavalinho de brinquedo do menino Jesus.
Figuras 45 e 46: Primeiro milagre do menino Jesus. Alberto em cenas com o boneco de Jesus recém- nascido e menino com o cavalinho de pau.(Lila Bemerguy,1993). Acervo pessoal: Alberto Silva Neto.
Um pouco da história, sintetizada pelo diretor Beto Paiva:
Quando da fuga para o Egito, José e Maria vão viver na periferia, como quase sempre acontece aos imigrantes, e são apelidados pejorativamente pelos egípcios de Palestina – algo como chamar um nordestino de Paraíba. Tendo de vender sua força de trabalho como mão de obra barata na nova cidade, são obrigados a deixar o filho ao léu, nas ruas. O menino então passa a confrontar-se com os meninos egípcios, entre eles um em especial, que é o Filho do patrão da Cidade Inteira, como o menino é chamado. O tal menino é odiado pelos outros porque sempre quebra-lhes o brinquedo preferido, uns passarinhos de barro, que são alvo do primeiro pequeno milagre do Menino Jesus. É que tentando ganhar o respeito das outras crianças o menino Jesus faz os passarinhos voarem sob o espanto de todos. E para mostrar do que realmente é capaz ele faz seu pequeno grande milagre: transforma o Filho do Patrão...em barro, exatamente o contrário do que fez seu pai ao primeiro homem (Idem).
Alberto lembra que a ideia de desengavetar o projeto surgiu em uma das muitas conversas entre ele e Beto, que trabalhavam juntos como jornalistas na Secretaria de Cultura, então sediada no Centur. Depois de Anjos sobre Berlim, do qual ambos participaram, Alberto fez um espetáculo com o grupo Experiência e Beto dedicou-se às experimentações com bonecos. Foi então que, quatro anos depois da primeira tentativa, eles convidaram também Cláudio Melo, que vinha do Anjos sobre Berlim e do À deriva, do qual havia participado como assistente de direção.
A encenação do Beto primava pela simplicidade e pelo jogo teatral, num palco nu, com pouquíssimos elementos, apenas o ator a contar a história, acompanhado
da sonoplastia percussiva de Cláudio, que utilizava cacarecos como desentupidor de pia e chaves para reproduzir as onomatopeias propostas pelo autor, e ainda atuava fazendo uma voz de fundo quando o ator estava na pele de um outro personagem. Segundo o diretor, os atores vestidos de pescadores traziam a metáfora de Jesus como pescador de homens.
Figura 47: Primeiro milagre do menino Jesus. Alberto Silva Neto e Cláudio Melo na remontagem em 1998. (Lila Bemerguy,1998). Acervo pessoal da pesquisadora.
Como já dito anteriormente, esta montagem herdou alguns elementos da primeira experiência do grupo, reavivando a memória dos muitos exercícios de criação durante o processo inacabado, e ao mesmo tempo, “exorcizando os fantasmas que rondavam o texto” (Idem).
Centrado na força narrativa do ator, o espetáculo divertia e emocionava. Tive a oportunidade de assistir a algumas apresentações e testemunhar o diálogo entre ator e público, que ria de situações hilárias e se comovia com a profunda humanidade trazida pelo texto.
Para Alberto, mesmo não sendo feito para espaços abertos, esse espetáculo retomava a dimensão política contida nas primeiras montagens do grupo. Ele, que considera esse trabalho um dos mais importantes de sua carreira, ressalta a brilhante direção do Beto:
Eu lembro muito da postura do Beto como diretor, que depois eu percebi que foi muito inteligente e me ensinou muita coisa. Ele se sentava e me dizia pra contar; nunca me disse como achava que eu deveria fazer, ele nunca direcionou, a não ser o estímulo pra busca
do contar. Naquela época, nós éramos muito jovens e não tínhamos conhecimento teórico profundo, mas o Beto já estudava muito, já gostava muito de ler. E inconscientemente ou não, ele direcionou muito bem pro sentido do épico, que é não representar, e sim contar (Alberto Silva Neto. Depoimento citado).
Dario Fo esclarece sua compreensão do teatro épico e do plano ideológico nele inserido a partir da postura do ator diante do público:
(...) para entender realmente o teatro épico, basta olhar o público, que representa sempre uma ideologia oposta à ideologia burguesa. Porque o povo já tem em si a dimensão do coletivo (...) E então, o teatro épico deixa de ser uma coisa fixa, bloqueada, árida (...) A gente se obriga a interpretar sobre o público, a escutar os tempos, o ritmo do público, a ouvir o que acontece, e a improvisar (Dario Fo apud VENEZIANO, 2002, p. 216).
O espetáculo cumpriu temporada de estreia numa sala da Casa da Linguagem, e depois ocupou outros espaços da cidade. Depois do falecimento do Beto, Alberto e Cláudio fizeram uma remontagem em 1998, quando fiz minha primeira e única produção; em 2001, o músico Dionelpho Júnior substituiu Cláudio na sonoplastia. Entre 1993 e 1996, Alberto viveria um segundo período de afastamento do Usina, participando de montagens dos grupos Experiência e Cuíra.