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Chapter 5 Compaction Study of the Johan Sverdrup Field

5.1.7 Transition Zone Estimation

terminar só o 2º grau, tá bom pra mim!” Eu quero só que os meus meninos estudem, né? Fazer faculdade, ter uma profissão deles. É isso que eu sonho pros meus filhos.

É interessante notar as mudanças de posicionamento de Kupradi ao longo de sua narrativa. Primeiramente, ela se utiliza do tempo verbal no passado (“meu sonho era

estudar”) para se referir àquilo que ela sonhava quando criança e reitera valores

coletivistas: “para ajudar meu povo, trabalhar lá na aldeia”. Sua fala permite inferir que sua ascensão nos estudos tinha por objetivo maior o bem do povo, reforçando sua

identidade como índia xerente, ao galgar novos espaços de atuação por meio do conhecimento proveniente da educação. Este último ponto, entretanto, aponta para a interlocução com valores provenientes da cultura branca. Sua identidade de índia, nesse sentido, é composta por elementos que remetem a sua origem e elementos que se remetem ao contato com aspectos da cultura branca, que contribuem para criar uma identidade caleidoscópica, como a apontada por Lopes de Oliveira (2006).

A interrupção dos estudos, o casamento e a maternidade figuram como experiências subjetivas que operam em Kupradi para transformar suas perspectivas. O desejo de fazer medicina e ajudar o povo passa a ser pano de fundo para o posicionamento de mãe, que parece se tornar “figura” em seu self. Sua realização pessoal por meio do curso superior cede lugar à dos filhos. Agora, a prioridade não é mais ela, mas eles. Não obstante, essa nova perspectiva não a leva de volta ao lugar tradicional da mulher xerente, mas a uma posição intermediária, uma solução de compromisso. Ela diz: “vou terminar só

o 2º grau, tá bom pra mim!”. Concluir o Ensino Médio é já chegar longe o bastante, se

comparado à trajetória da maioria das mulheres akwë. O antigo sonho de ser médica ou enfermeira é projetado em seus filhos: “eu quero só que os meus meninos estudem, né?

Fazer faculdade, ter uma profissão deles. É isso que eu sonho pros meus filhos”.

Popradi, por sua vez, traz uma reflexão sobre o estudo e as relações de gênero na cultura akwë. Começa, reiterando a posição de superioridade masculina:

Não! Ãbâ [homem] é mais importante do que picon [mulher]. É mais interessado do que picon. Porque picon... Ninguém tem confiança em picon! Eu mesmo não tenho confiança nos meus filhos não [referindo-se às filhas mulheres]. Porque do jeito que... Já vi muito picon que só faz até a 3ª ou 4ª série, já quer casar. Aí casa. Quando já tem filho, já não quer mais estudar, não tá nem aí pra estudar, porque já tem menino, como que vai ser? É desse jeito. Eu já vi muito! Tem muita gente que, antes de casar, tem gente que já pega só a barriga e não quer estudar! É desse jeito. Agora o ãbâ... Vários ãbâ tá interessado pra estudar. Isso aí eu posso falar. Agora com picon eu não tenho muita confiança não, algum picon que... Olha essa [aponta para Wakrarê] que é casada com o meu irmão: pegou, casou, teve filho, mas não parou de estudar. Sempre ela estudava. Também meu irmão não empatava de estudar... Já tem não sei quanto tempo os filhos. Aí continuou a estudar. Aí foi arrumando emprego, aí tá sendo professora, aí começou a trabalhar... Como até hoje

tá acontecendo, ela tá estudando, tá formada já. É desse jeito. Tem picon que interessa, tem picon que não vai interessar. É akwë que eu tô dizendo. (Popradi)

Popradi adota uma postura reflexiva e critica o posicionamento das mulheres akwë a partir da comparação com os homens. Inicialmente, reforça a crença da cultura de origem de que a mulher é inferior ao homem e que ela não é nada, ao dizer que “ninguém

tem confiança em picon [mulher]! Eu mesmo não tenho confiança nos meus filhos [referindo-se às filhas mulheres]”. É taxativa em seu posicionamento, ao dizer que “é desse jeito!”. Todavia, no decorrer de sua fala, flexibiliza seu discurso ao apontar para

Wakrarê, percebendo que esta viveu uma realidade diferente. Conta-me a história de Wakrarê como sendo uma exceção à regra, que só aconteceu porque “também meu irmão

não [a] empatava de estudar”.

É interessante notar que, mesmo quando Popradi pondera a mudança do posicionamento feminino, na história de Wakrarê, ela o faz mediante as possibilidades que sua cultura circunscreve (Cole, 1996; Branco & Valsiner, 2004; Valsiner, 2001, 2005). Isto é, na lógica cultural xerente há um consenso estabelecido em relação aos papéis femininos e masculinos, com um grau de poder reconhecido e justificadamente maior para os homens. Sendo assim, é fundamental que haja mudanças no mundo masculino (como é o caso dos efeitos da exclusão do mundo do trabalho já discutidos) ou boa vontade pessoal de agir, pensar e sentir diferentemente da lógica masculina dominante (como é o caso do marido de Wakrarê, que a permite estudar) para que possam emergir novos posicionamentos e possibilidades de self entre as mulheres.

Ao longo da narrativa de Popradi, aparece uma modificação em seu posicionamento. Começa com uma fala afirmativa “ninguém tem confiança em picon” e termina com uma relativização: “tem picon que interessa, tem picon que não vai

interessar. É akwë que eu tô dizendo”. Quando Popradi reitera sua fala com “é akwë que eu to dizendo”, ela reforça, na interação dialógica comigo, a nossa diferença, colocando-

me como kiptuanõ (branca). Considerando a nossa relação a partir da perspectiva dialógica que vê na interação pesquisadora-pesquisada uma relação bidirecional, talvez o fato de eu ser mulher e pesquisadora tenha gerado nela a necessidade de fazer essa ressalva (Hermans, 2001; Valsiner, 1994), demonstrando perceber diferenças claras entre as

culturas, mais especificamente, no que se refere às interfaces entre escolarização e as relações homem e mulher.

Voltando para a questão da escolarização, mesmo entre as índias mais velhas, como é o caso de Cidi, a mais velha das entrevistadas e a que menos estudou, a educação é apresentada como o maior valor:

P.(Pesquisadora): E que valor a senhora achou mais importante passar pros seus filhos? C.(Cidi): O estudo. E conhecer a palavra, pra que ele não (?)... Conhecer a palavra de Deus, pra não se perder muito pelo caminho errado...

Estabelece uma relação entre educação e cristianismo (conhecer a palavra...

conhecer a palavra de Deus) remetendo à ligação estabelecida desde o início da

escolarização do povo akwë, quando os missionários começaram a atuar nas aldeias (de Mattos, 1999). Ainda hoje, quando as parcerias com a FUNAI e a Secretaria Estadual de Educação visam garantir a educação indígena pública, as escolas de maior relevância na comunidade xerente são católicas ou evangélicas. Quando fala “pra não se perder muito

pelo caminho errado”, sugere um paralelo entre o estudo do cristianismo e a vida certa,

voltada para o trabalho, emprego e cuidado da família; a formação religiosa como sendo a alternativa que o índio tem de melhorar seu futuro, em contraposição com o caminho errado de marginalização, desemprego e desconhecimento da verdade.

5. Vozes Políticas: Preconceito e Subjetividade da Mulher Akwë-Xerente

Como marcado em alguns outros momentos, a construção subjetiva entre os xerentes se deu em meio a um constante processo de fricções interétnicas e plasticidade cultural que se iniciou há mais de 200 anos. Esse processo coloca como pano de fundo para qualquer elaboração a relação de preconceito e menos-valia que os índios vivenciam em relação à cultura branca e as estratégias que, ao longo do tempo, eles foram construindo na tentativa de melhor lidar com isso ou, ainda, de edificar alternativas relacionais. Nesta seção, dialogo especificamente com Smîkidi, por ser ela a representante indígena que mais vive na fronteira entre a cultura branca e a sua de origem; por ter sido a primeira, e até este estudo, única mulher xerente a fazer faculdade e a atingir um lugar de destaque político dentro da comunidade. Nos trechos de suas narrativas, vemos a

construção de sua subjetividade política que se dá em meio às égides do preconceito em várias esferas de sua vida: casamento com branco, retorno aos rituais indígenas e vida pública e política, entre índios e brancos.

Quando Smîkidi nos conta do seu segundo casamento, este com um kiptuanõ (homem branco), reporta-se às tentativas do marido de negar sua origem indígena:

P.(Pesquisadora): Ele deixa você participar [refiro-me ao seu marido]?

S.(Smîkidi): Deixa participar! Mas é tão difícil, né, quando fala em conviver com pessoas diferentes, culturas diferentes... Você vê as contradições só...