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Chapter 1 Introduction

1.5 Limitations and Further Work

A Empresa 1, multinacional de grande porte, emprega cerca de 150.000 pessoas no mundo, mantendo operações no sul da África, América do Sul e do Norte e Austrália. Desses, mais de 5.000 empregos diretos estavam no Brasil no momento da pesquisa de campo. Os negócios abrangem a exploração de diversos bens minerais, com receita

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anual superior a 20 bilhões de dólares em 2015. Especificamente o empreendimento observado é uma mina de níquel de extração recente (menos de cinco anos) a céu aberto, com previsão total de três décadas de funcionamento. Empregava no momento da coleta de dados diretamente 920 funcionários (821 homens e 99 mulheres). As mulheres representavam 34% nas áreas administrativas e apenas 8% nas técnicas12.

O níquel, bem mineral explorado pela Empresa 1 no caso observado, é utilizado principalmente como um dos componentes do aço inoxidável, material amplamente encontrado no ambiente doméstico em panelas, talheres, maçanetas, torneiras, etc. Tem utilidade também na indústria química, na aviação e na eletrônica, uma vez que pode conformar ligas com outros materiais resistentes à corrosão e a altas temperaturas. Em 2015, houve queda no preço deste minério, o que ocasionou mudanças empresariais, como cortes de recursos, áreas e pessoas.

Apesar das recentes flutuações no valor do níquel e suas consequências, a Empresa 1 era reconhecida como a melhor opção de emprego na região de atuação pesquisada. Tanto pelo salário, quanto pelos benefícios oferecidos, que incluíam vale alimentação, plano de saúde e participação nos lucros (bonificação atrelada à produtividade e qualidade da produção, prática na qual fica evidente a pressão para atingir metas, bastante presente no setor privado). Para as poucas mulheres existentes, oferecia ainda um auxílio-creche em dinheiro, por filho até seis anos de idade (extensivo a homens com a guarda legal da criança) e licença maternidade de seis meses. A licença paternidade era de cinco dias, conforme legislação brasileira:

Essa empresa, nossa, é que nem te falei, pode ser que fora tenha empresas melhores, mas aqui na nossa região é a melhor. A minha esposa quando ganhou bebê ficou seis meses de licença maternidade, ela saiu 15 dias antes de ganhar a criança, tem o auxílio-creche, tem um plano de saúde que não é só para nós, mas para a criança também. Os benefícios da empresa hoje são muito bons (Granito, Auxiliar de Produção).

Sobre a organização do trabalho e do ambiente, as principais atividades em uma mina a céu aberto compreendem: a pesquisa, a lavra propriamente dita e o processo de beneficiamento (etapa realizada em uma usina, na qual o minério é concentrado e preparado para venda à indústria). A presente investigação esteve mais concentrada na

12As informações sobre as três empresas contidas neste e nos próximos capítulos foram fornecidas pelas

áreas administrativas e/ou encontram-se publicamente disponíveis em documentos e na página eletrônica das organizações, que não foram citados nesta tese a fim de preservar os nomes das instituições e pessoas, resguardando o sigilo e anonimato da pesquisa.

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atividade de lavra, que por sua vez abrange o desmonte13, o carregamento14 e o transporte15 dos minérios, mas o ambiente foi analisado em sua totalidade. Em relação a maquinários, correspondem a cada etapa da Mineração a céu aberto (QUIRINO, 2011), principalmente:

 Lavra e transporte:

o Máquinas semi-móveis: perfuratriz (Figura 1) e carregadeira o Máquinas móveis: caminhão fora de estrada.

 Beneficiamento (Usina):

o Equipamentos fixos: britador, peneira, bomba, filtro, entre outros.

Figura 1 – Perfuratriz a céu aberto.

Fonte: Acervo da Empresa 1, 2016.

Todo o maquinário tem sistemas automatizados ou hidráulicos, devendo ser operado por profissional qualificado. Entretanto, não exige uso de força física na operação:

Na mina você tem que entender de operar a máquina. Quem faz o esforço é a máquina (Nióbio, Técnico em Mineração).

13 A rocha é desmontada, geralmente por meio de perfuratrizes, escavadeiras, da explosão com dinamites,

ou ainda da combinação entre estas técnicas (QUIRINO, 2011).

14 Processo no qual os caminhões são carregados com rochas contendo minérios ou estéril por meio de

carregadeiras (QUIRINO, 2011).

15 Processo de retirada dos minérios da mina, por meio de caminhões fora de estrada no método a céu

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A máquina faz tudo sozinha. Você opera um celular como se estivesse operando ela, porque é totalmente eletrônica (Xisto, Operador de Máquinas).

Figura 2 – Máquina operada por controle remoto.

Fonte: Acervo da Empresa 2, 2011.

Assim como observado por Quirino (2011) em mina a céu aberto, os/as principais profissionais finalísticos em atuação na Empresa 1 eram auxiliares de produção, operadores/as de máquinas, técnicos/as em mineração, engenheiros/as (de minas e manutenção) e geólogos/as. As principais funções, em qualquer das etapas, estavam assim hierarquicamente organizadas:

 Nível superior ou técnico:

o Gerentes – autoridades máximas na mina, geralmente geólogos/as ou engenheiros/as, que devem gerir processos e remeter as informações gerais sobre o funcionamento e produtividade do empreendimento a um Gerente Geral.

o Coordenadores/as – são responsáveis pela gestão técnica e das pessoas de setores menores. Suas atividades estão mais relacionadas à produção de relatórios em escritório, que remetem à Gerência.

o Supervisores/as – cargo informal, sem gratificação ou remuneração adicional, ocupado geralmente por geólogos/as e técnicos/as em mineração. Fiscalizam mais diretamente em campo o trabalho diário da mina e levam os problemas nas relações interpessoais e na produtividade ao Coordenador/a.

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o Especialistas – profissionais de nível superior, geralmente geólogos/as ou engenheiros/as, que recebem promoção, mas não seguem pela carreira gerencial. Realizam atividades mais associadas à pesquisa e planejamento.

 Nível Operacional:

o Operadores/as de máquina – atuam diretamente na produção do minério, seja na lavra ou beneficiamento, por meio da operação de equipamentos específicos para cada fim (desmonte, carregamento, transporte, etc.). o Auxiliares de produção – realizam todo tipo de atividade auxiliar: coleta

e carregamento de amostras, limpeza de acessos, entre outras, em todas as etapas produtivas.

Operadores/as, auxiliares e técnicos/as de campo trabalham em regime de turno, já que a produção na mina acontece 24 horas sem interrupção. Já geólogos/as, engenheiros/as e alguns técnicos/as em mineração cumprem jornada no horário comercial (com sobreaviso em casos de emergência), devido à natureza de seu trabalho, que envolve estudos, projetos, elaboração de mapas, etc.

As minas a céu aberto apresentam menores riscos em comparação ao método subterrâneo (QUIRINO, 2011). Ainda assim, destacam-se frio à noite e calor de dia, ambos intensos, além de poeira na época da seca e lama no período das chuvas. O cansaço físico pela necessidade de caminhadas longas também foi citado como um desafio, assim como a necessidade esporádica de transitar em locais ermos e “abrir picadas na mata”. Além dos desconfortos, existem outros perigos inerentes ao ambiente e à atividade: colisão entre veículos, atropelamentos, esmagamento ou tombamento das máquinas e caminhões, desabamento ou deslizamento de terra, animais selvagens (onça, lobo) e peçonhentos (cobra), que estão frequentemente presentes nos turnos noturno e diurno:

É muito caminhão, aí quando levanta aquela poeira você tem que ficar esperta porque corre o risco deles não te verem. Eu mesma, uma vez, estava coletando material e o caminhão estava uns 6 metros e foi dando ré, e eu já fiquei esperta, ele dando ré e eu chamando no rádio. Eu vi que a poeira foi intensa e ele não estava me vendo aí eu pensei: eu vou ficar aqui? Vazei! Mesmo com a roupa, porque de dia nem sempre dá para ver. À noite, mesmo de farol baixo ele te vê, agora de dia, no sol de 14, 15 horas da tarde, aquela poeira intensa, não vê (Esmeralda, Auxiliar de Produção).

A gente não consegue passar todo o período de vida hoje da mina sem correr alguns riscos. Como trabalha em turno, vira a noite inteira trabalhando. Aí

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certas pessoas durante o dia, quando tinha que descansar, se a pessoa está com algum problema, seja familiar ou pessoal, vai fazer outras coisas, vai trabalhar perturbado. [...] De repente essa pessoa pode se desgovernar em um caminhão e vir a colidir. [...] Uma semana atrás dois auxiliares na minha equipe tiveram uma colisão simples, e na semana seguinte trabalhando no noturno, os mesmos auxiliares nos mesmos veículos vieram a colidir numa área da mina, de forma frontal, foi uma colisão de risco. Não aconteceu nada, mas o potencial era grande (Nióbio, Técnico em Mineração).

Sobre a parte da operação, frio e medo passa demais, porque você está no meio da serra e tem vários tipos de bicho, eu já me deparei com cobra, lobo. E calor, o dia inteiro no sol, cansaço físico também, porque tem uma camionete a sua disposição para transitar, mas você anda muito acompanhando o operador, às vezes entra em algum lugar onde não tem nenhuma picada, tem que entrar dentro do buraco das estacas (Opala, Técnica em Mineração).

Nas visitas ao ambiente a céu aberto para realização da pesquisa, pudemos sentir muito pouco as sensações de desconforto e perigo descritas pelos/as trabalhadores/as. Por motivos de segurança, foi permitido percorrer a extensão da mina apenas durante o dia e por dentro da camionete, sob a supervisão da empresa. Assim sendo, a observação das intempéries pode ser visualizada na Figura 3, que captou a poeira e calor presentes. Já a Figura 4 registrou a fragilidade das máquinas diante do espaço e a possibilidade iminente de tombamento16.

16 A qualidade das imagens ficou prejudicada pela proibição de sair do veículo e aproximar-se mais dos

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Figura 3 – Poeira e sol na perfuração a céu aberto.

Fonte: Acervo Pessoal. Empresa 1, Outubro de 2014.

Figura 4 – Escavadeira em ambiente a céu aberto.

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Quanto às suas práticas, a Empresa 1 priorizava a contratação da força de trabalho local para o nível operacional, uma vez que para as funções técnicas e de graduação não existia qualificação no município, mesmo depois de alguns anos de instalação da mina. Tal postura se estendia também para ascensão profissional: eram verificadas primeiramente as opções internas, por isso era muito comum encontrar trabalhadores/as operacionais estudando para se tornarem técnicos/as ou profissionais de nível superior. Mesmo assim, como no município não foram instalados cursos ou universidades para atender as necessidades da empresa, trabalhadores/as mais qualificados ainda vinham dos grandes centros urbanos.

Devido sua rigorosa política de sigilo, é importante ainda destacar que foi encontrada maior resistência da Empresa 1 em colaborar com os dados para a pesquisa. A organização não repassou lista completa de funcionários/as que permitiria fazer cruzamentos estatísticos e análises mais detalhadas. Além disso, a demora no encaminhamento de informações foi justificada pela empresa devido à “reestruturação” interna em curso, na qual ocorreu a extinção/ fusão de áreas e demissão de parte da força de trabalho.

As observações realizadas na Empresa 1 foram bastante correlatas às descrições e análises de Quirino (2011) sobre o funcionamento, o ambiente, os riscos e as relações de trabalho em uma mina a céu aberto. Algumas das dificuldades encontradas são vivenciadas de forma particular pelas mulheres, conforme será abordado no Capítulo 3. Tais problemas são potencializados no espaço subterrâneo, tema do próximo item.