Chapter 3 Methodology and Theoretical Background
3.3 Compaction Study
3.3.2 Chemical Compaction
A ORIGEM DA MULHER Antigamente, não existiam mulheres e os homens eram homossexuais. Um deles ficou grávido e, como não podia parir, morreu. Um dia, alguns homens viram, refletida na água de um riacho, a imagem de uma mulher escondida no alto de uma árvore. Durante dois dias, eles tentaram pegar o reflexo. Finalmente, um homem levantou os olhos e viu a mulher; fizeram-na descer, mas, como todos os homens a queriam, eles a cortaram em pedaços e os repartiram. Cada um deles embrulhou seu pedaço numa folha e colocou o pacote numa fenda da parede de sua cabana (como se costuma fazer para guardar objetos). Depois, foram caçar. Na volta, foram precedidos por um batedor, que constatou e avisou os outros que todos os pedaços haviam se transformado em mulheres. À suçuarana (Felis concolor), que tinha ficado com um pedaço de peito, coube uma bela mulher; à seriema (Cariama cristata, Microdactylus cristatus), uma mulher magra, pois havia puxado excessivamente o seu pedaço. Mas cada homem ficou com uma mulher. (Nimuendajú,1930, p. 186 em Levi-Strauss, 1964/2004, p. 139).
OUTRA VERSÃO... A princípio só existiam homens; nenhuma mulher. Os homens tiveram intercurso homossexual nesse tempo, mas um deles ficou prenhe e como não pode parir, morreu. Waptokwa (Deus) então criou a mulher para que o homem não ficasse só. Quando certa vez alguns homens vieram a um olho d’água, viram o reflexo de uma mulher que estava sentado muito alto, nos galhos de uma árvore, junto á água. Eles tomaram o reflexo pela própria mulher, e durante dois dias tentaram debalde agarrá-lo. Finalmente, um deles olhou para cima e viu a mulher nos galhos da árvore. Eles foram buscá-la e como cada um quisesse possuí-la, cortaram-na em pedaços. Cada um tomou um pedacinho, embrulhou-o numa folha de bananeira e meteu-o em casa, por baixo da palha onde esta se encontra com a parede. Depois, todos foram caçar. Quando voltaram mandaram um deles na frente. Este achou, quando entrou em casa, que todos os pedacinhos de carne se tinham transformado em mulheres. O Suçuarana (Kuza pre), que tinha tirado seu naco do peito da mulher, obteve deste uma mulher muito bonita. O Seriema (wakrdi), porém, que tinha enrolado o pedaço dele apertando-o demais, teve uma mulher muito magra. Todos tiveram uma mulher a partir do pedaço que tinham pegado e, quando foram outra vez à caça já levaram cada um sua esposa.
(Nimuendajú,1930, p. 186 em Luz, 2005, p.85-6).
Claude Levi-Strauss (1963, 1964/2004, 1975), antropólogo que se dedicou ao estudo dos mitos, escreveu que o mito é uma forma de construir o pensamento – um método a partir do qual a realidade é classificada e organizada. É uma forma universal de comunicação e de significação da cultura. Segundo ele, não é possível conhecer uma cultura ou sociedade sem conhecer seus mitos, as explicações culturais das quais a comunidade se serve para entender como o mundo foi criado ou porque ele é tal como é.
A função e o significado do mito se tornam ainda mais complexos em culturas em transição, nas quais o elemento mítico passa a ser negociado na dinâmica relacional à medida que é contado. Tomemos como exemplo três diferentes narrativas obtidas sobre o
“mito de origem das mulheres xerentes”. A primeira, colocada em epígrafe, revela as vozes etnográficas de Nimuendajú em Levi-Strauss (2004) e em Luz (2005), que sinalizam algumas diferenças de tradução diante da manutenção do eixo comum. Em seguida, apresentamos o relato do mito feito por um dos velhos da tribo, durante nossas interações informais, para, então, trazermos algumas narrativas femininas, visando compreender como essas narrativas mitológicas compõem o senso de feminino no grupamento xerente.
Destacam-se, nessas vozes etnográficas, a existência primária do gênero masculino e a impossibilidade da procriação na ausência da mulher. Há a descrição de um homossexualismo originário e da gravidez masculina, que apontam para uma relação com a sexualidade distinta daquela preconizada nas sociedades cristianizadas. Também significativo é o ato sexual coletivo que serve para que cada pedaço em que a mulher é cortada torne-se “grávido”, ao se transformar nas novas mulheres que a partir dela surgem. O papel do imaginário, da confusão entre a mulher de verdade e seu reflexo, assinala a falta e a necessidade, motivando o desejo de alcançá-la a qualquer custo, na tentativa de balizar o “desequilíbrio do sistema” no que diz respeito à reprodução e procriação (Luz, 2005). Além disso, demonstra alguns juízos estéticos sobre beleza, magreza, que, de alguma forma, diferem dos posicionamentos acerca do belo predominantes na sociedade ocidental.
Na primeira temporada entre os xerentes, tive a possibilidade de obter nova descrição desse mesmo mito, no contato com o velho Sakrbê (62 anos, xerente não- cristão). Como na organização cultural tradicional são os homens mais velhos que tomam a posição de prover a transmissão da cultura oral (Luz, 2005; Nimuendajú, 1942), pergunto-lhe sobre o mito da criação da mulher, que ele narra assim:
Há um tempo, não existia homem e mulher. Existia só homem. Aí, os homens foram pescar. Fizeram uma roça, plantaram mandioca, milho e saíram... Aí, o Waptokwá (Deus) pensou e fez uma mulher só e botou a mulher em cima de uma árvore, em cima de um rio. A mulher estava em um tronco em cima do rio. Aí, os homens viram o reflexo da mulher na água. Aí, os homens entraram na água pra pegar essa mulher e mergulharam e mergulharam... Ficou tudo com frio (risos)... Aí, o Suçuarama (Hukupré) chegou e olhou logo pra cima. A mulher riu e ele viu e olhou e falou logo ‘Tá aqui a Picon (mulher)’. Aí, pegou a Picon, fez um dassuari (ato sexual)... Fizeram tanto dassuari que ela morreu.
Daí, ele cortou os pedacinhos da carne da mulher, e amarrou em uma folha de bananeira e colocaram no umbral do barraquinho e saíram para o mato. Daí, quando eles voltaram do mato, já tinha um monte de mulheres e crianças. Daqueles pedacinhos de carne surgiram as mulheres já grávidas. E, quando os ãbâ (homens) voltaram, elas já estavam lá. Elas estavam cozinhando e tudo mais. Daí, cada um voltou pra seu barraquinho e viu suas mulheres. Um deles amarrou bem apertadinho, pequena e tudo. Daí, saiu uma mulher pequeninha, mirradinha, com os olhinhos tortos. O outro amarrou mais folgado e aí saiu uma mulher bem linda... e assim foi!
A narrativa de Sakrbê enfatiza o ato sexual coletivo e o fato de que cada pedaço se torna grávido, gerando mulheres e crianças. Mais do que isso, o mito se volta para afirmar e estabelecer o modelo original da divisão sexual do trabalho na sociedade xerente: “os
homens caçam, pescam, as mulheres preparam a comida e cuidam dos filhos; as crianças brincam, menino brinca com menino, menina brinca com menina” (Luz, 2005, p. 88).
Considerando esse mito um aspecto importante da construção social das posições de gênero feminino no grupo xerente, incluímos como tópico da entrevista a solicitação de sua descrição, com o objetivo de apreender como as mulheres o significam em suas histórias e como o reinventam, à medida que transitam entre os valores da cultura de
origem e os da cultura branca e cristã.
Smîkidi disse, curiosamente, que talvez já tivesse ouvido, mas que não se lembrava. Alternativamente à tradição do grupo, apresentou uma explicação acadêmica, cujo núcleo é que a mulher foi criada por meio de “descobertas”:
Eu acho que foi através de descoberta mesmo, porque tem vários mitos que contam. Por exemplo, de homem caçador, né, que dali vem uma mulher, aparece uma mulher pra ele, aí... Foi assim!(Smîkidi).
Por ter como base das articulações teórico-epistemológicas a perspectiva dialógica, penso que a explicação dada por Smîkidi aponta para a relação com a pesquisadora
kiptuanõ (branca) e suas experiências prévias com pesquisas e com kiptuanõ (branco)
(Luz, 2005; Valsiner, 1994). Parece que ela conhecia os mitos, mas não desejava contar em sua íntegra por acreditar que “a coisa é nossa! Publicar pra quê?” (frase que ela se utiliza em outros trechos da entrevista para se referir às respostas que deu a alguns
medicinais e sobre sua tradição). Smîkidi resiste à narrativa do mito, tornando seu discurso evasivo e pouco descritivo, como se quisesse defender e preservar sua cultura para aqueles que a têm por direito, ressaltando a relação de poder, na qual ela escolhe aquilo que acha conveniente falar (Madureira, 2000). Outro elemento que pode compor esse quadro é a idéia de que, na cultura xerente, a narrativa dos mitos é prerrogativa dos anciãos homens, sendo que a ela, mulher e ainda na meia-idade, não caberia essa função (Luz, 2005). Considerando esses dois aspectos, observo na narrativa de Smîkidi um posicionamento tradicionalista com relação a sua cultura e um desejo de preservação daquilo que lhe é próprio, ao mesmo tempo em que percebe a necessidade de conservação a partir de suas experiências com o branco.
Já Kupradi, mais espontânea, não se furta a contar o mito, ainda que diga não conhecê-lo direito. Chama a atenção desde logo que, ao narrar, ela o faz pela voz do outro (“diz que”; “é assim que eu escuto”); na parte final, ela funde à narrativa elementos da criação da mulher segundo disseminada pela teologia cristã:
K (Kupradi): Eu não sei bem essa história aí não. Eu já escutei, mas sei bem não. P (Pesquisadora): Mas como você acha que foi?
K: Que o Waptokwá [Deus] criou sim, a história que eu ouço... O Waptokwá colocou