3. Un model ontològic de praxi musical
3.1 Transcendent immanent
"As formas adquiridas de ver as coisas perpetuam uma ordem que desaprovamos; se o queremos mudar, temos que reescrever a nossa história para justificar a mudança". (W. Sussman, 1984: 3).
As razões do título deste sub capítulo final, amplamente inspirado, bem como sustentado, pelas teorias desenvolvidas em Purity and danger, da antropóloga inglesa Mary Douglas, referem-se ao escopo que ela mesma tem vindo a atribuir à célebre obra, editada pela primeira vez em 1966. Nas palavras da autora lemos que a intenção que a tinha animado a escrever, foi a vontade de “defender os chamados primitivos da acusação de ter uma lógica ou um modo de pensar diferente” (1996:7). Todavia, na “Introdução à nova edição”, escrita mais de duas décadas depois do ano de lançamento da obra, a autora afirma claramente que aquela mesma vontade precisava agora de ser re-contextualizada: é exactamente nas breves e densas páginas dessa nova introdução ao texto que os domínios da pureza e do perigo vêem a ganhar novas brilhantes dimensões, às quais muitíssimo devemos, nomeadamente o ter vindo a relevar a importância dos mecanismos políticos e económicos atrás dos mais básicos comportamentos sociais.
Se fôssemos chamados a explicitar as intenções deste trabalho, em que temos proposto algumas ligações entre a esfera do limpo e do sujo e os mecanismos de formação e de funcionamento das categorias que dividem a sociedade em camadas superiores e inferiores, notámos, pelos menos, três coisas. Em primeiro lugar, as próprias intenções não foram intencionais desde o começo: vieram a formar-se, moldar-se e explicitar-se de forma crescente ao longo do processo de preparação e de escrita do texto. A uma primeira intuição sem forma, foram-se acrescentando as ideias, e com estas os conceitos, as palavras, as dúvidas. Os caminhos para as nossas intenções são acidentados e imprevisíveis, outras vezes lógicos e seguros, sem saída ou com muitos desenvolvimentos possíveis. Caminha-se, mas nunca se sabe com certeza onde e quando se acabará, pois o ponto de chegada parece sempre ser distante do ponto que tínhamos imaginado. Ainda mais, qualquer que seja o lugar onde chegarmos, este, torna-se sempre uma nova partida desde onde repartir, sem que nunca nos deixe parar.
Em segundo lugar, resulta claro como a desconstrução do nosso facto social total que é a limpeza, comportou descer até aos dois átomos iniciais do discurso, isto é, o puro e o impuro, duas noções que normalmente fomos habituados a atribuir aos rituais exóticos e misteriosos dos Outros (das tribos, dos hindus, etc.), e que só recentemente têm vindo a encher os slogans publicitários das nossas revistas, onde se encontram relacionadas tanto com a estética e a saúde do corpo (de domínio farmacêutico ou das terapias naturais) quanto com as modas das disciplinas orientais (e, aqui está, com os seus rituais). De repente, pureza e impureza, afastaram-se do mundo primitivo e incompreensível dos outros para vir a sustentar as nossas ideias de progresso e bem estar. Aos seus rituais de purificação, juntaram-se os nossos: civilizados (nós) e primitivos (outros) partilham o mesmo horizonte conceptual, não existem diferenças de pensamento. Finalmente, parece possível afirmar que: os civilizados são como os primitivos!
Não obstante a ingénua e aparente conquista89, suspeitamos poder ir muito mais longe. A separar os dois grupos, hoje mais do que nunca, impõe-se o primado da tecnologia, aliada da retórica do progresso, ambas representantes dum contexto político e económico das democracias neo-liberais sob o escudo do qual afirmamos a superioridade dos nossos sistemas, reificando, ainda uma vez, a mesma antiga distinção entre civilidade e barbárie, embora de forma renovada. A prévia similitude, já caiu sem deixar benefícios nenhuns, e, como se não bastasse, temos visto como no interior do “nosso” próprio grupo, uma certa distinção de tipo positivista (quando não até evolucionista) é utilizada para separar e manter separadas as diferentes classes, com o resultado de existirem os nós-civilizados e os nós-primitivos.
Contra as promessas retóricas da tecnologia e da ciência com as quais sonhámos um mundo melhor, temos que constatar que, na realidade, “a ciência não tem produzido uma categoria de pessoas sem ambições de domínio sobre os outros”, e, igualmente, “a industrialização não tem produzido uma raça de seres humanos cautos quanto à possibilidade de utilizarem o perigo a fim de defender o bem de todos” (M. Douglas, 1996: 16). Infelizmente devemos admitir que tudo isto nos leva a uma conclusão que
89 Embora típica duma certa antropologia, ingenuamente mas tenazmente direccionada contra o evolucionismo,
esta abordagem superficial, ambígua e contraproducente, se encontra em boa saúde nos actuais circuitos de iniciativas pseudo culturais da industria do lazer e do turismo ecológico em que as diferenças são olhadas sob a lente duma amigável igualdade expressa através da troca de musica, danças, tradições culinárias, etc. Focando-se sobre a igualdade, essas práticas, embora fascinantes, não deixam muito espaço ao questionamento critico das razões à base das diferenças, muitas vezes reduzidas para serem mais facilmente absorvidas nos novos contextos de lazer.
não esperávamos, embora tenhamos conquistado uma primeira esperança. O nosso progresso e a nossa superioridade tecnológica multiplicaram exponencialmente as discrepâncias sociais, produzindo diferentes grupos de neo-civilizados e diferentes inúmeros grupos de neo-primitivos. Esta é a conclusão a que chegamos depois de uma leitura feita a partir das categorias positivistas com que se tinha orientado o discurso, pelo que o “progresso” e a “ciência”, os “Nós” e os “Outros”, constituem as palavras- chave mais poderosas e cativantes. Nesse caso, e de acordo com os primeiros propósitos de Mary Douglas, defender os novos e velhos primitivos seria o que deveríamos fazer. Todavia, temos a possibilidade de reconstituir um novo patamar com que abordar a mesma realidade e os mesmos actores sociais através de novos olhos, explicando as diferenças como resultados de políticas e de práticas sociais, tanto dos grupos quanto das nações, tirando delas a arrogância dos atributos de valores, e, sobretudo, pondo em séria questão a suposta e muitas vezes cega equivalência entre ciência, progresso e tecnologia por um lado, e, por outro, bem estar colectivo, paz, harmonia e justo desenvolvimento. Estas conquistas não se realizam utilizando a tecnologia aplicada às guerras, nem com a ciência aplicada à ghettização das cidades e tão pouco com o progresso simbolizado por uma sempre crescente necessidade de consumo. Não é comparando a quantidade ou a qualidade dos bens possuídos que se expressa a moral ou se compreende a diferença. A política da diferença não leva necessariamente ao conflito, como muita literatura tem vindo a afirmar nos últimos anos90. O que está em jogo, esta vez, não é o esforço contraproducente de lutar em favor de uma paridade entre dois concorrentes, mas é a urgência de acabarmos de fundar o nosso pensamento sobre a dualidade da diferença, e ainda mais, sobre a diferença em si própria olhada como explicação dos problemas sociais. Começamos, desde já, a reflectir sobre as necessidades humanas, comuns, através de um conceito que a matemática ensina na segunda classe: o mínimo comum denominador. A partir daí, a diferença poderá ser olhada mais como um valor acrescentado, algo que não temos que amar ou odiar, mas, antes de tudo, tomar em consideração como elemento irreprimível dos grupos humanos.
90 A referência mais flagrante é a obra de Samuel P. Huntington de 1996, The Clash of Civilizations and the
Remaking of World Order, em que uma das teses centrais do autor é que as grandes divisões da humanidade e a fonte principal de conflito serão ligadas à cultura e não à economia ou à politica, esquecendo que a cultura não é um produto isolado de crenças, mitos e práticas mas, ao contrario, funda-se num determinado contexto ambiental onde os indivíduos visam organizar e coordenar os recursos naturais quanto demográficos. É exactamente nessa mesma acção de gestão e organização das possibilidades de vida dos grupos que vemos como, na realidade, política, economia e cultura formam um único conjunto indivisível.
Afinal das contas, temos visto que, em sentido lato, querer ser mais limpos, porque é no limpo que lemos os signos de civilidade, não nos afasta do sujo, com que temos igualmente de lidar, e não porque seja sinonimo de incivilidade mas sim porque representa um estado temporal e inevitável das coisas, e não as qualidades das pessoas. Como afirma Mary Douglas, “tornou-se evidente que a ligação antiga entre risco e moral não derivava da falta de conhecimento. O conhecimento é sempre escasso. Se se quer atribuir uma culpa, sempre há escapatórias que permitem interpretar os dados na maneira que se prefere”. A questão, portanto, recai sobre as maneiras de nos utilizarmos os instrumentos de que dispomos (sejam estes as ciências, o progresso, a limpeza ou não), nenhum dos quais será capaz de nos garantir a bondade das suas acções em virtude do nome que leva consigo. Rebatemos com a autora, que o ponto central da utilização dos nossos conhecimentos (científicos ou não, progressistas ou não, etc.), não está nas suas qualidades, que ainda quando muitas, ou ainda quando excelentes, sempre são e sempre serão insuficientes e parciais. O que importa, antes de tudo, é a imagem que a partir das nossas sempre lábeis certezas poderemos e queremos criar, ou mais, “da comunidade que somos capazes de criar, ou ainda melhor, daquela comunidade que a tecnologia nos permite criar” (M. Douglas, 1996: 15).
Contra o individualismo metodológico, tanto do pesquisador quanto do individuo, ambos autores e leitores do fenómeno social, acreditamos que seja importante ler, reler e questionar o difícil texto dos nossos caminhos, para criar visões participadas de futuro. No fundo, são os livros mais difíceis, os que lemos cem vezes e que levam os signos das nossas mãos, dos nossos olhos que neles se afundaram, que se tornam quase sempre os livros mais amados.
Partindo duma vassoura chagámos a uma proposta de um humanismo feito de olhos capazes de se despir dos juízos rápidos com que normalmente olham, a fim de ver as necessidades dos homens antes das panóplias das suas categorias. Acreditamos podê- lo realizar, vassourada após vassourada.
8.3. Melhores do que os antropólogos, os Poetas e os Cantoneiros de