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Guió i esborrany d’una proposta didàctica

A forma pré-moderna do jornal emergiu no século XVI na Europa – as chamadas “folhas volantes”. De cariz moralista e religioso, estas publicações não eram regulares e dedicavam-se a um só tema considerado importante (Traquina, 2002:174).

Foi no século XVII que surgiram os jornais, datando a primeira publicação de 1609: Aviso de Augsburgo, na Alemanha. Inicialmente, estas publicações periódicas caracterizavam-se pela sua natureza ideológica, sendo essencialmente vistas como armas políticas (Rebelo, 2002:14). Ao longo do século XIX, contudo, verifica-se no Ocidente a expansão da imprensa, fruto de um conjunto de transformações sociais que, embora variando de intensidade consoante as especificidades de cada país, iriam permitir o surgimento de uma nova abordagem ao jornalismo.

Um dos aspectos mais significativos foi a evolução do sistema económico com o processo de industrialização, o desenvolvimento dos transportes públicos e os avanços tecnológicos que se registaram no domínio da técnica tipográfica, da transmissão da informação e do tratamento da imagem (inclusive com a invenção da máquina fotográfica). Nas palavras de Traquina, estas inovações tecnológicas “tiveram um impacte directo na ideologia da profissão emergente e no estreitamento da relação entre o jornalismo e o factor tempo”, permitindo a identificação da actividade jornalística com a actualidade e uma concepção da notícia enquanto reprodução fiel do mundo real (Traquina, 2002:23).

Assim, a capacidade de produzir um produto em massa – a informação –, associada à emergência de um público mais amplo de leitores dados os processos de urbanização e de escolarização da população a que se assistia no século XIX, permitiu o crescimento dos meios de comunicação social, enquanto indústria, e a criação de agências internacionais que privilegiariam o estilo directo e conciso da informação.

Concomitantemente, o surgimento de uma nova forma de financiamento – a publicidade – e a possibilidade de rendimentos através das vendas dos jornais,

57 Para mais informações sobre o desenvolvimento dos meios de comunicação social, em geral, e o

jornalismo de imprensa, em particular, ver CÁDIMA, Francisco Rui (2002), História e Crítica da

Comunicação, Lisboa, Edições Século XXI; TENGARRINHA, José (1989), História da Imprensa

30 transforma a imprensa num negócio lucrativo cujo objectivo central passa a ser o aumento do número de tiragens. A notícia é, então, perspectivada como mercadoria (perecível) numa relação entre produtor e cliente (Traquina, 2002).

Esta nova lógica de comercialização introduziu mudanças significativas na forma de fazer jornalismo. Com efeito, os factores de concorrência e lucro induzem os jornais a alargarem e a diversificarem os seus públicos, procedendo-se a um relato jornalístico que visa ser compreendido por todos os leitores. Segundo José Rebelo, “desenham-se estratégias de concorrência que implicam a simplificação dos conteúdos e o recurso à espectacularização (o lead, a linguagem icónica, os grandes títulos, a ilusão da interactividade). Consolida-se um jornalismo do presente que, conferindo a prioridade à palavra do protagonista, relega para segundo plano a enunciação de causa ou a previsão de consequências” (Rebelo, 2002:16).

É neste contexto que, na década de 30 do século XIX, surge a penny press ou “imprensa de informação”. Sucedendo-se à “imprensa de opinião”, o novo paradigma considera que a função do jornalista é a de apresentar os factos não devendo emitir qualquer comentário ou opinião pessoal dada a sua posição neutra de mediador. O jornalismo funcionaria, assim, “como elo de ligação entre o ‘acontecimento’, situado a montante, e o ‘público’, a jusante”, sendo a notícia concebida como um espelho da realidade isenta de qualquer dimensão interpretativa (Rebelo, 2002:16). Esta noção é ainda acentuada com a crescente importância do conceito de objectividade, introduzido nos anos 20 e 30, nos Estados Unidos58 (Traquina, 2001:34).

A emergência do novo paradigma do jornalismo como informação em oposição à propaganda está intimamente associada ao desenvolvimento de um novo sistema político – a democracia – onde a primazia é dada ao reconhecimento de direitos fundamentais como a liberdade. Sobre este aspecto, Traquina refere a relação simbiótica entre o progresso do jornalismo, enquanto profissão, e a luta pelos valores

58 De acordo com Michael Schudson, a objectividade consistiria não na negação da subjectividade e

afirmação da supremacia dos factos, mas na utilização de métodos e procedimentos profissionais que permitam garantir a fiabilidade destes, num momento em que se verificava o surgimento das relações públicas enquanto profissão e a eficácia da propaganda na Primeira Grande Guerra (Schudson, cit. em Traquina, 2001:34). Também a socióloga americana Gaye Tuchman afirma que a objectividade é uma noção “operativa” que se reflecte em “rituais estratégicos” constituídos com o objectivo de neutralizar potenciais críticas e repressões no trabalho jornalístico. A título exemplificativo, saliente-se como procedimentos estratégicos a verificação dos “factos”, a apresentação de possibilidades conflituais e provas auxiliares, bem como o uso judicioso das aspas (Tuchman, 1972).

Sobre a crítica à conceptualização do conceito de « objectividade » no campo jornalístico, consultar Tuchman (1972), Mesquita (2000), Rebelo (2002).

31 democráticos: “A afirmação da nova legitimidade jornalística ocorre perante o antagonismo do poder político, inserido num processo secular em luta pela liberdade e, subsequentemente, a conquista de uma nova forma de governação: a democracia” (Traquina, 2002:28).

O jornalismo é, assim, encarado como um instrumento central na defesa do sistema democrático, um observador cuja neutralidade permite informar com rigor e transmitir a verdade aos cidadãos para uma participação esclarecida na sociedade.

O desenvolvimento e a profissionalização do jornalismo veio, de facto, transformar enormemente a comunicação pública. Procurando obter e assegurar autonomia e estatuto social, valores como a objectividade, o equilíbrio, a independência e o rigor ganham centralidade no campo narrativo mediático. A própria legitimidade profissional do jornalismo passa a basear-se nessa posição epistemológica e numa ideologia profissional59 definida pela noção de ‘imprensa livre’ e de jornalismo como ‘quarto poder’60.

Contudo, a imagem do jornalismo enquanto reprodução e transmissão directa e inócua da realidade encontra-se, cada vez mais, desmistificada: mais do que veículos do real, os media, no seu processo de mediação face ao mundo, (re)constroem a realidade e distanciam-nos desta através do seu discurso.

Assim, embora a realidade seja um factor fundamental no conteúdo noticioso, a natureza e actividade dos media revela-se bem mais complexa. Há factores individuais, organizacionais e transorganizacionais que influenciam o processo de produção noticiosa, tornando-se necessário reflectir sobre o produto jornalístico e repensar a noção de notícia, central na actividade dos meios de comunicação social (Traquina, 2001).

59 Ideologia profissional enquanto a “representação mais ou menos idealista de si mesmo”, nas palavras de

Bourdieu (Bourdieu, cit. em Traquina et al., 2007:17). É assim, um “ «sistema de crença» que permite aos indivíduos dar sentido à sua experiência de trabalho” (ibidem).

60 O termo foi aplicado aos media pela primeira vez por um deputado do Parlamento inglês, McCaulay,

em 1828. À data tinha como quadro de referência os três poderes no contexto da Revolução Francesa : o clero, a nobreza e o troisième état, englobando os burgueses e o povo. Actualmente, no âmbito da teoria democrática, os media seriam o «quarto » poder em relação ao poder executivo, legislativo e judicial, tendo como principais funções socialmente instituídas a expressão da opinião pública e a protecção dos cidadãos contra os abusos dos governantes (Traquina, 2002:30-34).

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