As notícias apresentam um padrão muito estável e previsível ao nível do seu conteúdo, embora possam verificar-se variações de um país para o outro ou consoante o meio mediático em análise (Traquina, 2002; McQuail, 2003).
Um dos motivos que contribui para essa estabilidade noticiosa deriva da noção de noticiabilidade (newsworthiness), definida como o “conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os órgãos de informação enfrentam a tarefa de escolher, quotidianamente, de entre um número imprevisível e indefinido de factos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias” (Wolf, 1987:168).
Uma das componentes da noticiabilidade são os valores-notícia (news values), “regras práticas que abrangem um corpus de conhecimentos profissionais que (…) explicam e guiam os procedimentos operativos redactoriais”, permitindo rotinizar o trabalho jornalístico no sentido de o tornar pragmático e exequível (Golding e Elliott,
cit. em Wolf, 1987:174).
Partilhados pelos membros da comunidade jornalística na sua prática profissional, os valores-notícia constituem-se, assim, como “estruturas invisíveis que organizam a percepção e determinam o que vemos e não vemos”, oferecendo a realidade ao público através de uns “óculos” (Bourdieu), de um “prisma” (Thomas Patterson), ou de “uma forma de ver” própria ao microcosmo do jornalismo (Traquina et
al., 2007:19). Parte integrante da cultura jornalística, os valores-notícia são, por isso mesmo, dificilmente definidos. Dir-se-ia, numa concepção mítica da profissão, tratar-se de uma aptidão intuitiva que os profissionais do jornalismo detêm para identificar as notícias de interesse, como se “a perspicácia noticiosa” fosse “o conhecimento sagrado, a capacidade secreta do jornalista que o diferencia das outras pessoas” (Tuchman, 1972:85).
A primeira reflexão teórica sobre os critérios de noticiabilidade foi realizada pelos investigadores noruegueses Johan Galtung e Mari Ruge, em 1965, com base num estudo sobre a cobertura das crises políticas internacionais em que os autores identificam uma lista de atributos combináveis que influenciam o fluxo de notícias, nomeadamente: a frequência do acontecimento, a amplitude do evento, a clareza quanto ao seu significado, a significância, a consonância (facilidade de inserir o “novo” numa “velha” ideia correspondente ao que se espera que aconteça), o inesperado, a
42 continuidade, a composição, a referência a nações e a pessoas de elite, a personalização e, por último, a negatividade (Galtung e Ruge, 1965:63-71)71.
Desde então, vários autores têm vindo a abordar a problemática dos critérios de noticiabilidade e elaborado diversas listagens de valores-notícia: Fishman (1978, 1980), Golding e Elliot (1987), Gans (1979), Hartley (1982), Ericson, Baranek e Chan (1987) e Wolf (1987) são alguns dos autores referenciados por Nélson Traquina, ele próprio um académico português com reflexões sobre os factores que orientam o processo produtivo de informação (Traquina, 2002:186-201).
Dos autores mencionados, destaca-se o italiano Mauro Wolf pela sua distinção entre os valores-notícia de selecção e de construção, ou seja, entre os critérios utilizados para a identificação de acontecimentos a serem transformados em notícia e os critérios que orientam a apresentação do material informativo, no sentido de definir o que deve ser realçado ou omitido nessa construção (Wolf, 1987).
Ao nível da selecção das ocorrências a constituírem-se como notícia, Wolf identifica os critérios substantivos – relativos ao conteúdo do acontecimento – e os critérios contextuais – referentes ao contexto de produção da notícia.
Quanto às características substantivas do produto jornalístico, estas articulam-se, segundo o autor, em torno de dois factores: a importância e o interesse da notícia, sendo que este último encontra-se associado à “capacidade de entretenimento” da história, do ponto de vista do insólito e das pequenas curiosidades que atraem a atenção (Golding e Elliott cit. em Wolf, 1987:182). Por sua vez, o critério “importância” do acontecimento é determinado por quatro variáveis: 1) o grau e nível hierárquico na sociedade dos indivíduos envolvidos no acontecimento; 2) o impacte sobre a nação e o interesse nacional – o qual se encontra associado ao valor de proximidade em termos geográficos ou culturais; 3) a quantidade de pessoas que envolve, de facto ou potencialmente; e 4) a relevância do acontecimento quanto à evolução futura de uma determinada situação (Wolf, 1987:178-182).
Na sua prática profissional, os jornalistas diferenciam as notícias importantes e interessantes como hard e soft news, sendo as primeiras consideradas notícias de relevo ou apresentações factuais de ocorrências noticiáveis, e as segundas notícias ligeiras, que
71 Para uma análise crítica do conceito de noticiabilidade e dos respectivos critérios apresentados por
43 dizem respeito a “fraquezas humanas” (Traquina, 2002:206). No entender de Ponte, contudo, esta dicotomia é algo elitista, legitimando-se quanto à cobertura mediática “um olhar displicente sobre matérias outras que não as protagonizadas por actores proeminentes do campo público” e confinando “essas matérias à leveza de um tratamento superficial e orientado para sensações”. Para a autora, tanto é possível que um acontecimento considerado importante mobilize motivações psicológicas, como também que haja histórias de interesse humano com uma importante dimensão política e enquadradas como questões sociais (Ponte, 2004:119-121).
Para além dos critérios substantivos mencionados, salientam-se os critérios relativos ao produto informativo que, tal como afirmam Golding e Elliot, dizem respeito à congruência deste com os procedimentos produtivos e as possibilidades técnicas e organizativas dos media (Golding e Elliot cit. em Wolf, 1987:183). Critérios exemplificativos são a disponibilidade do produto, ou seja, a facilidade de cobertura do acontecimento; a brevidade; o “equilíbrio” (balance), que consiste na composição equilibrada do produto global final; e a actualidade.
No que diz respeito à questão da “actualidade”, Traquina menciona dois conceitos centrais no jornalismo, nomeadamente a “novidade” e o factor tempo. Para o autor, o tempo constitui-se como valor-notícia quer sob a forma de actualidade (news
peg, ou seja, quando uma notícia serve de “cabide noticioso” para dar visibilidade pública a outro acontecimento que lhe é associado) e quando é o próprio tempo, no sentido de uma data específica ou efeméride, a servir como news peg para justificar a noticiabilidade de um acontecimento que já teve lugar no passado, mas nesse mesmo dia. O factor tempo é ainda valor-notícia quando um assunto adquire noticiabilidade durante um tempo mais dilatado (Traquina, 2002:189).
Outros critérios relativos ao produto são a qualidade da história e a ideologia da notícia, definida por Wolf como o “pressuposto segundo o qual são noticiáveis, em primeiro lugar, os acontecimentos que constituem e representam uma infracção, um desvio, uma ruptura do uso normal das coisas” (Wolf, 1987:183).
Encontramos aqui presente a noção de importância para a comunidade jornalística da quebra do normal, da transgressão das regras que implica e sustenta noções consensuais sobre o funcionamento da sociedade. De acordo com Stuart Hall os valores-notícia funcionam como uma estrutura de primeiro plano que opera com base
44 numa estrutura social profunda e escondida que ajuda a delimitar as fronteiras entre a “norma” e o “desvio”, entre o “legítimo” e o “ilegítimo” (Hall, cit. em Traquina, 2002:194). É também neste sentido que van Dijk afirma que, no caso de quadros de desvio social, a negatividade proporciona aos membros de um grupo informação sobre «os outros» que contribuirá para a definição e confirmação da sua própria identidade. Para o autor, o conceito de negatividade – crucial no domínio jornalístico – articula-se com os atributos de consonância com normas e valores sociais, uma vez que exige conformidade e reconhecimento da positividade (van Dijk, cit. em Ponte, 2004:127).
Sobre a questão da presença do negativismo no jornalismo, salientamos que quanto mais negativas forem as consequências de um acontecimento, maior o seu valor de noticiabilidade: bad news is good news (Wolf, 1987; Traquina, 2002). É neste sentido que Traquina indica a morte como um valor-notícia fundamental, sobretudo quando a notoriedade do agente principal do acontecimento é grande. De acordo com o autor, a personalização do acontecimento facilita a identificação deste em termos de “negativo” ou “positivo”, sendo por isso que o factor personalização, entendido como a valorização do factor pessoa, é de extrema importância no processo de produção jornalística (Traquina, 2002). Sobre este critério, Ponte salienta que não é suficiente a existência de pessoas, sendo necessário que “correspondam e se adequem ao molde cultural com que são pensadas” (Ponte, 2004:127).
Complementarmente aos critérios substantivos e aos critérios relativos ao produto, existem os valores-notícia associados ao meio de comunicação, como por exemplo a qualidade do material informativo a utilizar, a frequência do acontecimento – identificado por Galtung e Ruge como o quadro temporal necessário para que um acontecimento adquira significado – e o formato do produto informativo, o que nos remete para a questão das qualidades narrativas da notícia: “cada notícia deve ter uma introdução, uma parte central, de desenvolvimento e uma conclusão” (Wolf, 1987:188).
Por outro lado, há que ter em conta os valores-notícia associados ao público, às suas necessidades e exigências que influem constantemente nas rotinas produtivas, bem como os valores-notícia associados à concorrência, ou seja, à competitividade e às expectativas recíprocas entre os diferentes media: tal como afirma Traquina, os jornalistas tomam-se uns aos outros como padrões de comparação, “confiam fortemente no trabalho uns dos outros, como prática institucionalizada, para ideias de «estórias» e confirmação dos seus critérios noticiosos” (Traquina et. al., 2007:20).
45 Constituindo-se como referências ao longo de todo o processo de produção jornalística, os valores-notícia são uma característica central no jornalismo (Wolf, 1987). Devem ser vistos, porém, como complementares não podendo ser analisados isoladamente, uma vez que “são as diferentes relações e combinações que se estabelecem entre diferentes valores-notícia, que «recomendam» a selecção de um facto”. Salienta-se, deste modo, o “carácter negociado da noticiabilidade”, bem como a natureza dinâmica dos valores-notícia (Wolf, 1987:173).
Stuart Hall afirma, contudo, que os valores-notícia são “uma das estruturas mais opacas de significado”, pois “mais do que uma listagem de atributos das notícias, combinados ou combináveis”, estes elementos são “mapas culturais” ou “mapas de significado do mundo social” que, ao mobilizarem conhecimentos sociais e culturais, tornam os acontecimentos perceptíveis e significativos às audiências. Como consequência, os valores-notícia não só incorporam e reflectem os valores dominantes da sociedade como também os reforçam. Assim, e nas palavras de Hall et al., “os media definem para a maioria da população [não apenas] quais os acontecimentos significativos que ocorrem mas, também, oferecem poderosas interpretações de como compreender esses acontecimentos” (Hall et al., cit. em Traquina et al., 2001:57). Este é, de acordo com os autores, o papel ideológico dos media contribuindo para a produção e transformação de ideologias na sociedade.