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Transaksjonsmodellen

2 Teoretisk referanseramme

2.5 Transaksjonsmodellen

Apesar da polémica causada, a proposta de renovação do slogan é bem recebida por todos (à exceção de tomás), o que motiva dora a apresentar uma candidatura alternativa à liderança do partido. nesse sentido, se fossem estabelecidas metas, em termos narrativos, para este Daqui p’rá Frente, uma delas seria certamente a de relatar, passo a passo, o crescente envolvimento da jovem na política, bem como os desafios, contrariedades e obstáculos enfrentados. Sublinhe ‑se ainda, neste âmbito, que estes últimos são baseados em factos reais, como nos revela a realizadora na entrevista citada:

“A ideia deste filme partiu de uma situação real que me foi descrita por uma esteticista. Contou ‑me que fora eleita, na noite anterior, cabeça de lista do seu partido para as eleições autárquicas e que, para festejar, tinha andado de carro, a buzinar, pelas ruas da sua freguesia. esta mulher a celebrar sozinha a sua vitória representou, para mim, uma imagem de força de vida, e fez ‑me ter vontade de fazer um filme sobre alguém que se recusa a deixar cair os braços.”

o microcosmos recriado em Daqui p’rá Frente reflete, deste modo, a situação de outras mulheres em Portugal — país onde há muito se discute a inserção de quotas nos sistemas políticos, face à constante falta de representatividade feminina em cargos de poder. Neste ponto, sendo Dora candidata às eleições autárquicas do seu concelho, considero pertinente elaborar um paralelismo com a realidade nacional, observando a percentagem de mulheres eleitas para o mesmo cargo. recorrendo a dados do instituto nacional de estatística, e calculando as respetivas percentagens, facilmente se pode concluir que as câmaras municipais do país são, na sua grande maioria, presididas por homens.

1993 1997 2001 2005 2009 Autarquias 305 305 308 308 308 Presididas por homens 300 293 292 289 286 Presididas por mulheres 5 12 16 19 22 Percentagem 1,6 % 3,9 % 5,2 % 6,2% 7,1%

distribuição das presidências das câmaras municipais, em Portugal, por género. Fonte: www.ine.pt (site do instituto nacional de estatística).

No gráfico apresentado, constata ‑se que, no início da década de 90 (em 1993, mais concretamente), cinco mulheres presidiam a menos de dois por cento das

305 autarquias nacionais. dezasseis anos depois, a evolução dos números não terá sido francamente favorável ao sexo feminino, pois apenas 22 mulheres foram eleitas presidentas de câmaras municipais nas últimas eleições autárquicas. O argumento das dificuldades de conciliação entre vida privada e profissional é aqui fragilizado, se tivermos ainda em conta que assumir a liderança de um município implica menos deslocações e uma sobrecarga menor do horário de trabalho, quando comparado às exigências de um cargo de deputada na Assembleia da república ou a nível europeu. Aspetos como o conservadorismo típico de meios rurais e do interior do país poderiam aqui ser considerados, requerendo todavia uma análise mais aprofundada, não contextualizada no presente estudo.

Ao nível da Assembleia da república, a realidade será ligeiramente distinta da acima descrita, como pode constatar ‑se no gráfico seguinte.

Ano Total de

Deputados Homens Mulheres Percentagem

1976 263 250 13 4,9% 1979 250 233 17 6,8% 1980 250 233 17 6,8% 1983 250 232 18 7,2% 1985 250 234 16 6,4% 1987 250 231 19 7,6% 1991 230 210 20 8,7% 1995 230 202 28 12,2% 1999 230 190 40 17,4% 2002 230 185 45 19,6% 2005 230 176 54 23,5% 2009 230 167 63 27,4% 2011 230 167 63 27,4%

evolução percentual relativa ao número de deputadas eleitas para a Assembleia da república, no pós ‑25 de abril. Fontes: www.ine.pt (site do instituto nacional

A evolução da percentagem de deputadas desde o ano de 1976 (então correspondente a 4,9 por cento) até aos dias de hoje (27,4 por cento) tem sido, como os números revelam, lenta e difícil. Atualmente, o Parlamento é constituído por 230 deputados, 63 dos quais são mulheres (27,3 por cento). das mudanças registadas neste quadro, distinguimos ainda um momento relevante no que concerne à história de Portugal: em 1979, Maria de lourdes Pintasilgo seria oficialmente a primeira mulher a chefiar um Governo português (31.07.1979 a 03.01.1980), por nomeação do então Presidente da república, general ramalho eanes. em julho desse mesmo ano, em entrevista a O Jornal, declarava:

“Atribuo a esse facto uma importância simbólica. É um tabu que fica destruído. Daqui para a frente já não será ‘proibido’ a uma mulher chegar a este ou àquele lugar, a esta ou àquela função. Mas não considero que, pelo facto de eu ser indigitada para este cargo, fique resolvida a discriminação de que são vítimas as mulheres em muitas das funções que ainda exercem.” (Pintasilgo, 1980: 23)

no mês seguinte, em entrevista à revista brasileira Isto é, Maria de lourdes Pintasilgo afirmava ainda:

“espero que, por ser mulher, eu possa introduzir uma certa maneira diferente de viver as coisas políticas. nós, mulheres, movimentamo ‑nos em muitos círculos, mas estamos habituadas a não sermos importantes em círculo nenhum. Pelo contrário, os homens têm necessidade de uma zona em que se sintam importantes. A minha nomeação é, assim, em si própria, uma desmistificação da importância excessiva dada às tarefas públicas.” (Idem: 34)

três décadas passadas sobre esta data, Portugal continua a ser o único país do sul da europa em que uma mulher ocupou o cargo de primeira ‑ministra, perpetuando ‑se uma incontornável dificuldade de acesso a cargos políticos. De um modo geral, a Comissão para a igualdade no trabalho e no emprego (Cite) sublinha que a taxa de atividade das mulheres, em 1960, era de apenas 13 por

cento. em 2010, de acordo com o “relatório sobre o progresso da igualdade de oportunidades entre mulheres e homens no trabalho, no emprego e na formação profissional” (CITE, 2011), este indicador atingiu os 56 por cento. Sendo a taxa de atividade masculina de 68 por cento, o desemprego consolida ‑se como flagelo social que atinge maioritariamente as mulheres. As desigualdades salariais em função do género mantêm ‑se, por sua vez, igualmente elevadas: as mulheres ganham, em Portugal, em média, menos 22 por cento do que os homens, diferença que se acentua nos quadros superiores, chegando a atingir os 30 por cento.

Por último, e dando por concluída a breve descrição de alguns constrangimentos sociais que se mantêm na contemporaneidade, sublinhe‑ ‑se que, segundo dados recentes da European Women’s Professional Network (EWPN), as mulheres ocupam apenas 3,6 por cento dos cargos nos conselhos de administração das grandes empresas nacionais — um número muito inferior à média europeia, que sobe para os 11,7 por cento. A histórica dificuldade de conciliação da vida privada e pública continua a ser apontada como o principal fator justificativo para a manutenção das desigualdades mencionadas. De facto, e em termos estatísticos, a Cite comprova que, ao nível da distribuição de tarefas diárias, os homens despendem, por semana, mais duas horas e 30 minutos na atividade profissional. As mulheres, por seu lado, gastam mais 16 horas em trabalho não pago, na realização de tarefas domésticas ou no cuidado de crianças e idosos.

A abordagem de todas estas desigualdades, a que Catarina ruivo se propôs, exige, de um ponto de vista estético, uma sensibilidade que ultrapasse a crueza dos números, bem como os seus determinantes sociais e económicos. essencialmente, seria necessário ir além dos arquétipos cristalizados sob a forma da mulher insatisfeita que suspira por dias mais longos: com mais tempo para preparar reuniões, analisar dados, construir soluções, estar com os filhos e/ou prestar atenção à pessoa com a qual mantém uma relação amorosa. não se tratava aqui de abordar o feminismo contornando o mal ‑estar associado ao reconhecimento dos severos efeitos da desigualdade, mas antes de exibir esse mesmo feminismo como uma luta de (e não entre) ambos os sexos, caracteristicamente integrativa e intergeracional. deste modo, poderia (e deveria) evitar ‑se a exploração sensacionalista das dificuldades como consumação de

um final infeliz — o pathos obscurantista que percorre a obra de determinados realizadores portugueses frequentemente apresentados como “realizadores de mulheres”, destacando ‑se João Canijo como o mais próximo de críticos e espectadores. Num recurso constante à tragédia grega, filmes como Sapatos Pretos (1998), Ganhar a Vida (2000), Noite Escura (2004), Mal Nascida (2007) e Sangue do Meu Sangue (2011) revelam personagens femininas para quem o destino final é sempre revestido de dramas e perdas irreparáveis. A mensagem comum a estes exemplos parece ser a de que uma mulher com forte personalidade é necessariamente infeliz na sua vida privada ou profissional.

A sensibilidade requerida a um/a cineasta que procure abordar uma temática feminista entrelaça ‑se, como vemos, em inúmeras instâncias: social, política e económica, mas também cultural, histórica, ética e afetiva. não adotando um modo sádico e miserabilista de narração, Catarina ruivo pôde sugerir, no seu filme, que a determinação e a crença são essenciais à concretização de objetivos relacionados com a vida pública e, sobretudo, que esta não é inevitavelmente danosa da vida privada. Reflexo essencial da democratização das estruturas de poder, Daqui p’rá Frente expõe as dificuldades de um percurso político que, ao ser bem sucedido, é saudado por colegas de ambos os sexos. Mediante a desconstrução de preconceitos instituídos, sem recurso à dramatização e ao miserabilismo comuns a outras obras centradas na mesma temática, este é um filme de fácil acesso e diálogos circunstanciais que, não obstante, interpela quem assiste, através da colocação de questões prementes, identitárias e culturais. o ponto forte da proposta de Catarina ruivo traduz ‑se, portanto, no encontro do que escapa aos estereótipos tradicionais e na filmagem de uma perspetiva exterior aos mesmos, sintetizando uma conceptualização distinta da dominante na cinematografia nacional. O olhar condescendente, contemplativo e, por vezes, maniqueísta, dirigido por diversos cineastas contemporâneos à mulher determinada e, de alguma forma, insatisfeita, foi aqui substituído por um olhar plausível, realista e ético sobre uma mulher determinada mas distintamente feliz em todos os aspetos da sua vida.

Partindo de uma história verídica, a obra de Catarina ruivo poderia ainda ser apresentada como sucessora de um dos poucos filmes portugueses que centraram a sua atenção numa mulher real, com protagonismo político e social na história

do seu país. tal como Solo de Violino — o filme de Monique Rutler estreado em 1992, centrado numa fase verídica e marcante da vida de Adelaide Coelho da Cunha2 — Daqui p’rá Frente vem, de certo modo, preencher esta lacuna na

realização de obras portuguesas dedicadas a mulheres com um papel relevante na esfera pública nacional. Nesta perspetiva, encontram ‑se ainda por filmar, em termos ficcionais, o percurso político de Maria de Lourdes Pintasilgo, a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen ou a literatura em tom de manifesto consubstanciada nas Novas Cartas Portuguesas de Maria isabel Barreno, Maria teresa horta e Maria velho da Costa, entre outros exemplos que poderiam ser igualmente citados. num contexto internacional, ao longo de toda a história do Cinema, esta é uma tradição artística (e, de certa forma, compensadora de inúmeras desigualdades de género) mais cultivada pelo cinema norte ‑americano. Nela poderão inscrever ‑se filmes como África Minha (Sydney Pollack: 1985), Erin Brockovich (steven soderbergh: 2000), Frida (Julie Taymor: 2002), Terra Fria (niki Caro: 2005) ou Amelia (Mira nair: 2009).