As técnicas com que os filmes estão a ser produzidos em Portugal acompanham a evolução externa e diversificam ‑se entre as chamadas tecnologias tradicionais e as digitais.
Se isto parece justificado no conjunto das obras de animação produzidas, é curioso saber como uma nova geração de cineastas encara as questões da tecnologia.
Conto do Vento é o único que não parte do desenho, mas sim de construções virtuais tridimensionais. gerado em animação 3d, e com imagens trabalhadas a partir de tratamentos diversos de pós ‑produção, este filme usa a tecnologia dominante na carreira de Cláudio Jordão e, em parte, de nelson Martins. este último tem, em outros projetos, desenvolvido trabalho em cut ‑out digital.
Para Cláudio Jordão, com um software 3d “(...) não há verdadeiramente limite para a expressão artística!”
Todos os restantes filmes usam o desenho como ponto de partida de um processo de trabalho tecnológico onde a animação 2d digital é o meio principal de composição, em alguns casos de pintura e animação e em todos de finalização.
Cláudio sá, Cristiano Mourato e Pedro Brito trabalham maioritariamente com o desenho e a animação tradicional 2d, principalmente por se tratar de uma técnica que dominam bem. Pedro Brito não exclui que, no futuro e em novos projetos, poderá usar outra tecnologia. Cristiano argumenta que “esta opção surge apenas por questões metodológicas de trabalho, conseguindo assim uma maior eficácia na realização das animações e a possibilidade de manipular a arte final com a ajuda das novas tecnologias”. Cláudio Sá usa a mesa gráfica como recurso. “Apenas esboço no papel os primeiros desenhos das personagens, cenários e storyboards”, explica.
Por último, david doutel e vasco sá usaram a animação tradicional com pintura a carvão. esta escolha deveu ‑se, segundo os autores, às “(...) características plásticas do material”, ao “resultado estético dos filmes” e à “relação com as narrativas” construídas.
de um modo geral, as novas tecnologias implantaram ‑se na totalidade das novas produções, embora o desenho tradicional continue a ter um papel fulcral
em boa parte dos projetos de animação. se a animação 3d continua neste reduzido leque de filmes a ser ainda pouco utilizada (um filme em seis), há, no entanto, uma pluralidade de técnicas de que aqui não surgem exemplos. uma marca que, por enquanto, marca o conjunto dos cineastas desta nova geração.
10. A produção, a distribuição e o financiamento dos
novos filmes
Terminados, exibidos e premiados, os filmes dos novos cineastas têm uma história de produção que importa conhecer. Certamente, dará informações oportunas sobre a forma como têm sido produzidos cada um destes filmes e poderá permitir a visualização de pistas sobre a continuidade da produção de novas obras de novos cineastas.
Caberá, neste espaço, perceber a figura do produtor e a dinâmica da produção/ distribuição que estes filmes estão a percorrer.
na sua maioria, os realizadores assumem a produção e só uma pequena percentagem a divide com outros produtores. na verdade, a função de produtor não parece fundamentar ‑se aos olhos dos autores — que, em certos casos, os chegam a ignorar nas respostas aos nossos questionários. Apesar disso, casos há em que os autores reconhecem o papel do produtor, sobretudo nos esforços de distribuição e promoção dos seus filmes.
Aqui tem particular importância a forma de financiamento destes trabalhos, uma questão que envolve os produtores de um modo indissociável.
da análise que as respostas permitiram fazer, é quase comum que todos os filmes receberam apoio do ICA e quase todos ao abrigo dos concursos de apoio à produção de curtas ‑metragens de animação.
As únicas exceções são os filmes de Cláudio Sá e Cristiano Morato.
No caso do filme de Morato, este acabaria por ter apoio do ICA através dos contributos dados às escolas de cinema. Confirma o autor que “este apoio veio no seguimento de um concurso interno na escola e foi preponderante na finalização do mesmo.”
o caso de Cláudio sá é bem mais distinto. este realizador, apesar de ser um dos mais profícuos da animação portuguesa, nunca recebeu qualquer apoio do iCA.
Os seus filmes têm sido financiados através do envolvimento esporádico de entidades autárquicas e com aquilo a que podemos chamar de autofinanciamento.
O autofinanciamento é, aliás, prática que parece também ter acontecido a certos projetos de boa parte dos realizadores, nomeadamente Cristiano Mourato e Cláudio Jordão.
A distribuição, que nas curtas ‑metragens quase se resume ao circuito dos festivais, é alvo de particular atenção por parte destes autores que, na sua maioria, remetem para os produtores ou coprodutores esta importante tarefa de divulgação da obra.
De um modo geral, os filmes estão a ser distribuídos pela Agência de Curta Metragem, em certos casos, e pelo Cine ‑Clube de Avanca noutros. numa e noutra situações, os autores parecem estar contentes com o trabalho desenvolvido por ambas as entidades de distribuição.
A título de exemplo, Conto do Vento transformou ‑se, com as suas 22 distinções, no filme português de animação mais premiado de sempre, e O Sapateiro foi já exibido cerca de 60 vezes em festivais de cinema e congéneres. Este último filme, tratando ‑se de uma coprodução, foi ainda distribuído nos festivais espanhóis de cinema pelo coprodutor galego.
Para além dos festivais, alguns filmes conseguiram chegar às salas de cinema. É o caso de O Relógio do Tomás, que teve a sua estreia cinematográfica em dezembro de 2011 nas salas portuguesas, e Conto do Vento, que foi vendido para estreia nas salas francesas.