2.3 Machine learning
2.3.3 Training process
Numa perspectiva funcional e renovada, a APS pode ser compreendida como ―aquele
nível de um sistema de serviço de saúde que oferece a entrada no sistema para todas as novas
necessidades e problemas, e fornece atenção sobre a pessoa (não direcionada para a
enfermidade), no decorrer do tempo‖
9: 28. Assim, compartilha responsabilidade pelo acesso,
pela qualidade e pelos custos da atenção e, por meio de serviços e de ações efetivos,
potencializa a saúde e o bem-estar da população para a integralidade.
Há que se ressaltar que averiguar a qualidade dos serviços que compõem a APS é
fundamental para definir se a oferta de cuidado é efetiva e integral. No entanto, a qualidade da
atenção deve ser discernida sob uma ótica ampliada, que abrange além do atendimento às
necessidades de saúde, aspectos como a satisfação dos usuários, os custos, a qualificação dos
profissionais, a segurança, a estrutura e os equipamentos necessários para efetivar a atenção à
população nos serviços de saúde
9. Para isso, é necessário determinar a presença e a extensão
dos atributos essenciais e derivados da APS como elementos estruturantes para se definir um
serviço como orientado para a atenção primária e, portanto, capaz de prover atenção integral e
de boa qualidade para a população
100.
Para se mensurar o potencial e o alcance de cada atributo essencial da APS, deve-se
avaliar uma característica comportamental e uma estrutural da qual ela depende, ou seja,
medir um dos quatro itens estruturais e um dos dois itens de processo, visto que a avaliação
desses atributos está alicerçada no modelo de avaliação da qualidade dos serviços indicado
por Avendis Donabedian (1996), já apresentados
9. Então, para avaliar a APS no sistema de
saúde brasileiro, deve-se utilizar uma versão traduzida e adaptada do instrumento Primary
Care Assessment Tool - PCATool, elaborado por Starfield, denominado, neste país, de
Primary Care Assessment Tool - PCATool – Brasil
100.
Portanto, é preciso estabelecer uma correlação entre os itens de modo que, tanto os
estruturais quanto os processuais sejam mensurados por meio dos atributos essenciais da APS,
descritos no instrumento PCATool - Brasil. Os itens estruturais (acessibilidade, variedade de
serviços, definição da população eletiva e continuidade) deverão ser avaliados por meio
dos atributos essenciais
―acesso de primeiro contato - acessibilidade‖, ―integralidade -
serviços disponíveis‖, ―grau de afiliação‖ e ―coordenação - sistema de informação‖; e os itens
processuais (utilização e reconhecimento de um problema) por meio dos atributos
―longitudinalidade‖, ―integralidade - serviços prestados‖, e ―coordenação - integração de
cuidados‖
9,100(Quadro 1).
Quadro 1 – Relação entre os itens estruturais e os processuais descritos por Donabedian e os
atributos da APS estabelecidos por Starfield.
Itens de capacidade e de desempenho Atributos da APS
Estruturais
Acessibilidade Acesso de primeiro contato – Acessibilidade Variedade de Serviços Integralidade - Serviços disponíveis
Definição da
população eletiva
Grau de afiliação
Continuidade Coordenação - Sistema de informação
Processuais
Utilização Longitudinalidade e Integralidade - Serviços prestados
Reconhecimento de um problema
Coordenação - Integração de cuidados
O atributo ―acesso de primeiro contato‖ corresponde à acessibilidade e ao uso do
serviço para dar atenção a um novo problema ou seguimento de um problema de saúde já
existente. Envolve um serviço ou profissional de atenção à saúde que atua como ―porta de
entrada‖ para o sistema, portanto, deve ser acessível à população. Quando isso não acontece,
incorre em falta de atenção adequada, que afeta o diagnóstico e o manejo do problema e
incide em sobreposição de custos
9.
A mensuração desse atributo nos serviços de saúde abrange a avaliação do item
estrutural - acessibilidade, como aquele que possibilita a pessoa a ter acesso ao serviço de
saúde, e do item processual - utilização - que se refere ao emprego do serviço para suprir uma
necessidade de saúde na fonte regular de atenção. Essa avaliação pode ser realizada tanto do
ponto de vista da população quanto do serviço. Porém, se a avaliação ocorrer apenas na
perspectiva do serviço, os indivíduos que não procurarem o serviço, seja por dificuldade de
acesso ou por outro motivo, serão excluídos. Portanto, a medição será realizada a contento se
ocorrer no nível da população ou em ambos.
A acessibilidade refere-se às características dos serviços e dos recursos de saúde
ofertados aos usuários, como à
―ausência de barreiras geográficas, financeiras,
organizacionais, socioculturais e de gênero ao cuidado‖
101: 12, bem como de transporte e
epidemiológicas
57. Remete-se a um elemento estrutural necessário para a obtenção da
primeira atenção e, consequentemente, sua continuidade
9. Deve estar presente como porta de
entrada do sistema e acolhimento ao usuário com sua necessidade
102.
O acesso é a forma como a pessoa experimenta os serviços de saúde
9. Ou seja, está
incluído como um item processual de avaliação da oferta e utilização dos serviços de saúde,
quanto à sua organização, desde a entrada ao recebimento de cuidados subsequentes
103.
Assim, o conceito de acesso é ampliado para ―acesso efetivo‖, como resultado do uso dos
serviços para melhorar as condições de saúde e satisfazer os usuários quanto às suas
necessidades de saúde e particularidades socioculturais locais
103.
Nesse sentido dizem respeito ao acesso de primeiro contato questões como:
Em que medida o sistema oferece fácil acesso, tanto geograficamente quanto com horário mais prolongado de funcionamento? A população acha este acesso conveniente? O quanto o acesso mais fácil está associado à utilização do estabelecimento para novo problema por sua população definida?9.
A ―longitudinalidade‖ requer uma relação interpessoal de longa duração entre os
profissionais e os usuários, que os reconhecem como fonte regular de atenção dirigida à
pessoa, independentemente do tipo ou da existência de um problema de saúde. Essa relação é
a essência da longitudinalidade, por possibilitar uma troca de conhecimento pessoal entre
usuários e profissionais ao longo do tempo, em que a população é vista como um ser
completo, com valores e prioridades que precisam ser considerados no processo de cuidado
9.
A mensuração desse atributo deve ocorrer por meio de uma relação mútua de
reconhecimento entre os indivíduos e a fonte de atenção primária, para que eles sejam capazes
de identificar sua fonte de APS, a qual deve ser capaz de identificar sua população eletiva ao
longo do tempo. Além disso, que os indivíduos possam utilizar essa fonte habitual para todos
os problemas, incluindo nos casos em que é preciso um encaminhamento, o que deve ocorrer
quando a densidade tecnológica for superior à existente na unidade de APS, ou quando a
situação determinada exigir uma opinião profissional com qualificação superior à do
profissional disponível
9. Contudo, para avaliar a longitudinalidade também é necessário
lançar mão de um bom sistema de informação que registre para onde se dirige a população em
busca de atenção, mesmo quando não é assistida nas unidades de APS ou quando esse
encaminhamento não é realizado
9.
O atributo longitudinalidade está inter-relacionado a outros atributos, como primeiro
contato, integralidade e coordenação, visto que a fonte regular de atenção que implica na
porta de entrada para o primeiro contato poderá influenciar a prestação do serviço
9. Dentre os
benefícios da longitudinalidade, estão menos utilização de serviços, melhor atenção
preventiva, atenção mais oportuna e adequada, menos doenças preveníveis, mais satisfação
dos usuários, melhor reconhecimento dos problemas dos pacientes, menos hospitalizações e
períodos mais curtos, quando necessário, e custo total mais baixo.
rede de atenção à saúde aos usuários. Isso inclui ações para prevenção de riscos, promoção à
saúde, bem como diagnóstico, tratamento e reabilitação prestadas nas unidades de APS ou
disponibilizadas por outros serviços especializados (nível secundário) ou hospitalares (nível
terciário) através de encaminhamentos
9.
Para garantir uma atenção integral na APS, cada unidade deve reconhecer o contexto
biopsicossocial apresentado pelos usuários e definir a própria variedade de serviços, para
assegurar o ajuste necessário e atender às demandas identificadas. Uma variedade adequada
de serviços considera ―quais‖ os problemas ou necessidades da população e ―como‖ e ―onde‖
são abordados adequadamente
9.
Como segunda característica mais importante da APS, a integralidade é a capacidade
que as unidades de saúde devem ter de usar suas ações para as demandas do usuário, da
família e da comunidade e sua efetividade reconhecida por eles. As limitações na prestação e
disponibilidade de serviços comprometem a qualidade da atenção à saúde e a qualidade de
vida da população, visto que doenças preveníveis deixam de serem evitadas, e outras podem
evoluir em um curso mais prolongado do que o previsto e até colocar em risco a vida das
pessoas, o que indica insuficiência desse atributo na unidade de atenção primária
9.
Para mensurar esse atributo, pode-se utilizar o nível populacional (sistema/população)
ou o nível institucional (unidade de saúde/paciente). O primeiro nível define a variedade dos
serviços a serem ofertados a partir das necessidades da comunidade. A integralidade deve ser
obtida com a extensão dos serviços para abordar as necessidades da população, como o
programa de imunização, por exemplo. No segundo, a variedade de serviços depende das
informações disponibilizadas sobre os tipos de problemas e diagnósticos que são assistidos e
manejados por diferentes profissionais em distintas unidades, como no acompanhamento do
crescimento e do desenvolvimento infantil
9.
Para se alcançar a integralidade, é necessário refletir sobre as seguintes questões:
O quão inclusivo é o pacote de benefícios oferecidos? Ele é explícito e é compreendido pela população? Ao oferecer serviços, os profissionais reconhecem um amplo aspecto de necessidades na população? Eles encaminham a outros especialistas, quando apropriado? 9: 63.
A ―coordenação‖ implica na capacidade do serviço de assegurar a continuidade do
cuidado na rede de atenção à saúde, seja por parte dos profissionais, seja por meio do
prontuário ou por ambos. Ademais, admite o reconhecimento de problemas observados em
consultas anteriores, realizadas no serviço de APS ou provenientes de um encaminhamento,
visto que nem todas as necessidades são contempladas na atenção primária e demandam a
condução do usuário a outros serviços ou níveis
9.
O cerne desse atributo é a disponibilidade de informações acerca de serviços e
problemas passados e o reconhecimento dessa informação diante da necessidade de relacioná-
la às demandas de saúde do momento. Ou seja, exige dos profissionais da APS ciência dos
problemas em todos os contextos em que está inserido, como algo necessário para integrar e
coordenar os serviços prestados à população
9.
A
coordenação, como um ―estado de estar em harmonia numa ação e esforço
comum‖
9: 365, é de grande relevância para o alcance de outros aspectos na APS, visto que, sem
ela, a longitudinalidade perderia muito do seu potencial, a integralidade seria dificultada, e a
função de primeiro contato ficaria permanentemente administrativa, comprometendo a
efetividade da atenção nesse contexto.
Esse quarto atributo pode ser medido avaliando-se dois aspectos: a continuidade da
atenção, que pode ser alcançada com a permanência do mesmo profissional para atender ao
paciente, de uma consulta para outra, e com a presença de um serviço com capacidade de ser
referência para o indivíduo, fazendo-o se reconhecer como parte dele, independentemente da
presença do mesmo profissional para atendê-lo; e o reconhecimento do problema e das
informações sobre a atenção recebida, que deve ser considerado como o mais crítico para se
avaliar, visto que não se pode agir sobre algo sem conhecê-lo. Assim também deve ser em
relação às necessidades de saúde da população, cujo resultado da atenção é diretamente
proporcional ao nível de conhecimento dos profissionais sobre a realidade existente
9.
Há que se ressaltar que uma coordenação exitosa requer atenção compartilhada,
mecanismos que subsidiem a transferência de informações entre profissionais da atenção
primária e outros serviços, para garantir uma sucessão ininterrupta de eventos entre as
consultas, independentemente de onde aconteceram ou por quais motivos. Esses mecanismos
podem ser o prontuário ou outras tecnologias com as quais sejam possível detectar e manejar
os problemas e as informações suscitadas sobre o usuário
9. Contudo, apesar de a coordenação
estar em todos os níveis de atenção, alcançá-la na APS é um desafio para os profissionais,
devido à insuficiência de itens de capacidade e de desempenho para garantir a qualidade da
fonte de atenção primária.
São questões importantes para a avaliação desse atributo:
Em que medida o agendamento é organizado para permitir que os pacientes consultem sempre com o mesmo profissional em todas as consultas? Os
prontuários médicos contêm informações pertinentes ao atendimento dos pacientes? Existe aumento do reconhecimento de problemas associados à melhor continuidade?9: 63.