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4.2 Finite-temperature effects

4.2.1 Toy theory

Com as primeiras dificuldades superadas, o relatório das atividades de 1975, apresentado ao Conselho Consultivo no início de 1976, comemora as novas perspectivas:

Foi em 1975 que a FCB saiu do longo recesso de 8 anos, ocasionado por uma ausência quase total de recursos. A partir de fins de 1974 foram tomadas medidas, que se intensificaram nos primeiros meses de 75, para organizar a vida da instituição. A ata da Reunião Extraordinária de 25 de maio, da qual nasceu a atual composição do Conselho Consultivo, (...) marcou o pleno restabelecimento legal da instituição, assim como, na Reunião Extraordinária de 15 de junho, foram criadas condições para se dar início ao restabelecimento administrativo e lançar bases para um estabelecimento funcional.144 O restabelecimento jurídico da instituição permitiu que o novo grupo desse continuidade aos planos de reorganização do arquivo, que passou a redirecionar os objetivos da entidade. Segundo Calil, naquele momento “estava em plena voga” a compreensão de que a conservação era o papel mais importante de uma cinemateca “porque era inadiável”: “o nosso desafio foi basicamente implantar este tipo de idéia. Isso era tudo ao contrário do que tinha sido feito até então.”145

Para Carlos Roberto de Souza, quando assumem a responsabilidade pelo arquivo: “Havia consciência da necessidade de preservar o acervo reunido pela instituição durante mais de duas décadas e de cuidar para que a produção

142 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p.104

143 Para satisfazer as exigências externas e dar continuidade aos trabalhos da Cinemateca, Paulo Emilio

lançou mão inclusive do recurso peculiar de redigir no livro de Atas, com concordância dos envolvidos, a súmula de uma reunião do Conselho Consultivo que nunca existiu. Para saber mais sobre o episódio, consultar Carlos Roberto de Souza, op. cit., p. 103-104.

144 Relatório Exercício de 1975. Arquivo histórico da Cinemateca Brasileira. 145 Entrevista com Carlos Augusto Machado Calil, 2009. Op. cit.

cinematográfica brasileira em seu conjunto recebesse cuidados de tratamento e conservação”146.

O relatório de 1975, ao definir suas metas operacionais, confirma os novos objetivos: “os recursos obtidos estão sendo empregados prioritariamente na aquisição de equipamento para assegurar uma sólida infra-estrutura de preservação”147.

Ao grupo original, se juntam Maria Rita Galvão – professora de História do Cinema da ECA, e no ano seguinte (início de 1976), José Carvalho Motta – montador de cinema e também ex-aluno da ECA. Calil, Carlos Roberto de Souza, Sylvia Naves, Maria Rita Galvão e José Motta são os nomes que tomam a frente da FCB e colocam literalmente a mão na massa. Cada um deles, a seu modo e conforme seus talentos pessoais, serão determinantes no estabelecimento do método de trabalho, sistemas de controle técnico, catalogação, documentação, na definição das políticas de acesso, prospecção, difusão – enfim, serão os articuladores da reconstrução da Cinemateca. A partir de então, a instituição concentrará seus esforços em compreender e buscar os meios necessários para cumprir o leque completo das atividades fundamentais de um arquivo cinematográfico.

As dificuldades eram de toda ordem. Segundo Carlos Roberto de Souza:

tínhamos um conflito com produtores rolando na Justiça148, nossas relações

com os cineclubes eram difíceis e, para fazer face às demandas do acervo, precisávamos superar uma defasagem tecnológica que nos parecia, e efetivamente o era, gigantesca.149

Além disso, e apesar dos ânimos renovados, também será preciso enfrentar os problemas crônicos, já identificados em outras épocas. Ainda no relatório de 1975, afirmam que

Dos vários pontos ainda frágeis da Fundação [Cinemateca Brasileira], a ausência de pessoal profissionalizado é o mais grave. O trabalho está sendo executado na base de pró-labores simbólicos, contratos de serviços técnicos por prazo determinado e colaboração voluntária.150

E avaliam que o bom funcionamento dos trabalhos de preservação depende “da existência de recursos para criar quadros estáveis”.151 Rudá já alertava sobre isso nos

146 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 107.

147 Relatório Exercício de 1975. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit.

148 Adhemar Gonzaga processa a Cinemateca Brasileira por não concordar com a sonorização do filme

Ganga bruta. Para saber mais, consultar Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 102.

149 Carlos Roberto de Souza. , op. cit., p. 109.

150 Relatório Exercício de 1975. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit. 151 Idem, ibdem.

anos de 1950. Neste momento, o problema tendia a se agravar, pois o laboratório exigiria mão-de-obra mais especializada.

3. A Cinemateca de 1975

A Cinemateca Brasileira que existe em 1975 ainda está concentrada no mesmo casarão, cedido pela Prefeitura de São Paulo na década de 1950. O acervo de filmes em base de nitrato de celulose continua armazenado nas quatro “casinholas” que foram construídas pela Administração do Parque após o incêndio de 1969. O casarão, coberto com antigas telhas de barro, mantinha as divisórias originais de compensado que não chegavam até o teto. As únicas paredes de alvenaria (afora as paredes externas) eram a da cozinha e banheiro (que ficavam juntos), uma parede que separava o depósito do fundo e outra que separava a área que seria destinada ao laboratório de restauração, e um quartinho onde morava o zelador, seu Aloysio, em frente à cozinha. O piso de taco de madeira tinha os rejuntes envelhecidos, propiciando o acúmulo de sujeira. As janelas altas, do tipo basculante, estavam vedadas com compensado nas áreas de guarda de acervo e nas áreas de trabalho não possuíam cortinas. Todas as estantes eram de madeira e estavam por toda parte. Os rolos de filme, guardados nas latas (a maioria delas enferrujadas e muitas sem identificação), eram armazenados sem qualquer separação entre filmes deteriorados e filmes em bom estado. O único critério de armazenamento era a separação entre os filmes de base de acetato e os filmes em base de nitrato. A umidade e temperatura acompanhavam o ambiente externo: quente no verão – refrescado pelas sombras das árvores; frio no inverno; e úmido o ano inteiro. Especialmente no inverno, o ambiente era bastante desconfortável. Alguns anos depois, alguns funcionários adquiriram o hábito de retirar os instrumentos de trabalho do pequeno gaveteiro que servia de apoio às mesas enroladeiras, forrar a gaveta com jornal e colocar os pés dentro da gaveta, para se proteger da umidade gelada que subia do piso. Ou seja, as condições das instalações físicas da instituição deixavam a desejar, tanto para o conforto humano, quanto para a conservação do acervo.

Para Carlos Augusto Calil a situação era “exasperante”. Depois de tantos anos de “abandono, [...] a camada de pó era de centímetros”152. Segundo ele: “a primeira

questão foi o mapeamento do acervo e em seguida, que rumo dar à instituição”153. A

152 Entrevista com Carlos Augusto Machado Calil, 2009. Op. cit. 153 Idem, ibidem.

situação era muito precária, pois seu Aloysio era a única pessoa que sabia algo dos filmes que existiam no acervo e onde se encontravam:

O que a gente teve que fazer, com todo respeito a seu Aloysio [...] foi ir retirando as informações para que no caso da instituição ganhar um corpo mais profissional [...as informações] não ficassem na mão de uma pessoa só.154

O ano de 1975 foi consumido muito mais com as questões burocráticas do que com o tratamento do acervo em si. No entanto, foi suficiente para que se definisse uma estratégia de ação para a conservação do acervo. O curto e objetivo Plano de Trabalho para o ano de 1976, relacionava sete pontos, dos quais pelo menos quatro diziam respeito ao tratamento do acervo de filmes (considerando que a busca de “locais apropriados” referia-se inclusive à construção de depósitos climatizados).