O que o relatório chama de revisão englobava tanto a preparação das cópias de exibição quanto o exame periódico dos nitratos, para controle do seu estado de conservação. Os relatórios mensais mensuram detalhadamente o número de rolos revisados, os metros de filmes descartados pela deterioração (“melados”), com os respectivos títulos. Em junho há uma observação importante sobre os filmes deteriorados: “foram encaminhados para o depósito i0, lugar dos filmes condenados à total destruição”82. Em setembro, comenta-se que “Continua cada vez mais grave o problema de filmes que necessitam ser contratipados imediatamente para não se perderem brevemente. Todas as latas de filmes ainda não revisados (depósitos i1 e i9) foram abertas para respirarem”83. Em dezembro: “Foi efetuado um controle geral em todos os depósitos e verificação de títulos e número de material”84. Deste conjunto de observações destacadas dos relatórios, podemos deduzir que existia uma metodologia de trabalho que não era aleatória – o princípio de um “sistema de conservação”, sendo sistema é entendido aqui como um conjunto ordenado de ações que visavam um determinado resultado. Ou seja, os procedimentos já implantados com regularidade seguiam uma lógica de método de trabalho e nitidamente tinham o objetivo de, juntos, prevenir danos e dar condições de sobrevivência (as possíveis) para o acervo.
Relembremos os procedimentos descritos nos relatório: 1. os filmes eram regularmente examinados e as latas enferrujadas eram substituídas; 2. o exame identificava o tipo de suporte e o estado de conservação de cada rolo; 3. o
79 Relatório de fevereiro de 1958. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 80 Idem, ibidem.
81 Idem, ibidem.
82 Relatório de junho de 1958. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 83 Relatório de setembro de 1958. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 84 Relatório de dezembro de 1958. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira.
armazenamento, nos vários depósitos, seguia os critérios de tipo de suporte, estado de conservação e tipo de uso (lembremos que as cópias de difusão em 16mm foram separadas num único depósito desde a mudança para o Parque); 4. os exames periódicos identificavam os filmes em processo de deterioração e, no caso dos nitratos, eram eliminadas as partes hidrolisadas a fim de estabilizar o resto do rolo; 5. os filmes com deterioração avançada eram colocados numa lista para futuras duplicações; 6. os rolos que a equipe não conseguia examinar eram arejados para a dispersão dos gases; 7. todas as cópias de exibição eram revisadas antes de serem liberadas para projeção; 8. fazia-se a checagem periódica de todo o acervo – para o controle da posição topográfica dos rolos dentro dos depósitos e para a conferência dos rótulos externos com o conteúdo de cada lata – a fim de corrigir qualquer erro provocado pela movimentação dos filmes85; 9. havia a preocupação em aplicar todos os procedimentos à totalidade do acervo pelo menos uma vez por ano. Ou seja, havia um sistema de conservação implantado, mesmo que ainda muito simples e insatisfatório para as necessidades de conservação do acervo.
Em 2 de abril de 1958 acontece a mudança da sede para uma casa isolada, situada no local onde estava anteriormente instalada a administração do Parque do Ibirapuera, e composta por:
uma entrada e corredor, sete salas e dois banheiros; das salas, três são divididas por madeiramento sem atingir o forro e duas são maiores, ocupando a largura nas extremidades da casa. A maior sala com separação de madeira foi subdividida com um armário. (...) Como é óbvio, a Cinemateca encontra- se instalada satisfatoriamente e em condições de trabalho mais favoráveis.86 Alguns problemas nos depósitos obrigam a transferência “provisória” de vários rolos para essa nova sede principal (aparentemente, as cópias em 16mm) e a construção de estantes para abrigar estes filmes. Ainda que o relatório classifique este local como “sede provisória”, a Cinemateca ocupará esta casa até 1992.
Dentre as atividades desse ano, ainda são dignas de nota a contratipagem de filmes brasileiros, o Curso de Dirigentes de Cine Clube e a criação do Departamento Brasileiro. O relatório destaca a contratipagem “bem sucedida” de alguns títulos, entre eles João da Matta (Amilar Alves, 1923). Em setembro de 1958 é criado o
85 A checagem do acervo pode parecer desnecessária, porém a experiência confirma sua importância
(rolos de filmes “adoram sair do lugar”). Por enquanto, basta imaginar a situação de se localizar uma lata específica no meio de milhares de latas basicamente com a mesma “cara”. Não havendo um sistema mínimo que restrinja a procura a, pelo menos, uma determinada estante, seria necessário ler os rótulos de lata por lata, até encontrar a desejada – o que torna a operação extremamente morosa e, dependendo do tamanho do acervo, pode tornar-se impossível de ser realizada no tempo necessário.
Departamento Brasileiro com o objetivo de dar maior destaque aos assuntos afeitos ao cinema nacional. Caio Scheiby é o responsável por concretizar a iniciativa e uma das revisoras passa a trabalhar prioritariamente com os filmes nacionais. No mês seguinte (outubro) o relatório comenta: “Foi iniciado o levantamento histórico do Cinema Brasileiro sendo efetuado o rascunho de 105 fitas de 1907 a 1926”87. Trata-se do primeiro destaque específico concedido aos filmes brasileiros, nos relatórios. A partir desse momento, serão habituais os comentários sobre o andamento dos trabalhos do Departamento. Dois meses depois o relatório já indicava que “ascendeu a 1.497 os [cine]jornais nacionais classificados. Foi organizado um quadro da produção nacional corrente. Com esse quadro pode-se rapidamente ver os filmes que estão sendo realizados e em que fase”88. Apesar da intensa atividade, não há informações acerca do estado de conservação, ou de tratamentos específicos realizados neste lote.
Paralelamente, a despeito do quadro reduzido, a instituição teve fôlego para realizar o Curso de Dirigentes de Cine Clubes, que absorve parte das energias da equipe durante praticamente todo o ano: de 11 de janeiro à 29 de novembro de 1958. O curso acontece na nova sede da Cinemateca, atendendo a um pedido do Centro de Cineclubes do Estado de São Paulo. “A supervisão ficou a cargo de Almeida Salles e Caio Scheiby; a direção executiva com Rudá e a secretaria com o cineclubista [Carlos] Vieira”89. Dentre os alunos do curso, encontravam-se Gustavo Dahl e Jean-Claude Bernardet90 que, junto com outros jovens estudantes, vão compor um grupo que trará novos ânimos à instituição. Tanto Carlos Roberto de Souza quanto José Inacio de Melo Souza comentam a grande efervescência cultural deste período – até 1963 – porém, em termos de conservação, muito pouco se avança. Com uma continuidade bastante variável, os procedimentos cotidianos permanecem no mesmo patamar, já descritos acima.
A busca por recursos econômicos regulares leva Rudá ao Rio de Janeiro em 1959 para trabalhar com a “Bancada Paulista [no] projeto de lei para subvencionar a Cinemateca (...)”91, Gustavo Dhal “fez trabalhos a respeito do projeto junto ao deputado Almino Afonso” porque o “deputado Ulisses Guimarães está interessado” – durante o ano há pequenas notas indicando as tentativas da instituição em conseguir apoio formal e continuado dos poderes públicos. Em setembro a Cinemateca é visitada por Henri
87 Relatório de outubro de 1958. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 88 Relatório de novembro de 1958. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 89 José Inacio de Melo Souza, 2002, op. cit., p. 395.
90 Ambos, com maior ou menor proximidade, continuam a participar da vida institucional até os dias de
hoje.
Langlois que fica “impressionado com o acervo desta, rica em filmes cópias únicas [sic]”92 e nesse mesmo mês Caio Scheiby leva ao Rio de Janeiro os negativos de Ganga bruta “para tratar da copiagem desse material assim como de sua montagem, em colaboração com o autor, sr. Humberto Mauro”93. Um convênio assinado com a Prefeitura de São Paulo em 1955, que visava a transferência de recursos para a instituição para a difusão de filmes94, fomenta o depósito de cópias de cinema brasileiro na Cinemateca, mas é no relatório de 1959 que aparecem números que dão uma noção quantitativa desses depósitos: 57 longas e 15 curtas metragens, em outubro e, em novembro – indica a revisão de “265 [rolos] do material brasileiro depositado pela Prefeitura”95. Um documento orçamentário do final desse ano, agregado ao relatório, lista a equipe de então: o conservador (Paulo Emílio), dois conservadores adjuntos (Rudá e Caio), um arquivista (Sérgio Lima), um secretário (Gustavo Dhal), duas revisoras (Aracy de Paula e Dirce Reis), um contínuo e um faxineiro (Aloysio Pereira Matos).
É preciso destacar a chegada de Aloysio Pereira Matos, funcionário da Prefeitura cedido para fazer faxina, em abril desse ano, que vai se incorporar às várias atividades da Cinemateca, inclusive na revisão de filmes, com o passar dos anos. Seu Aloysio (como era chamado) permanecerá na instituição até seu falecimento, em 1984.