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Reconciling CDM and MOND - Bose-Einstein Condensation and Super-

A partir de 1959, as práticas de conservação entram numa curva descendente, até 1963, quando são totalmente paralisadas. O Relatório de 1959-60 inicia dizendo que:

Em 1959-1960 a Cinemateca Brasileira limitou-se a registrar, através de um constante trabalho de revisão, o processo de decomposição da película, e a estabelecer a lista de prioridades para os futuros programas de contratipagem e tiragem [sic].96

Apesar disso, o relatório do Departamento Brasileiro, datado de janeiro de 1961, indica a confecção do contratipo de Fragmentos da vida (José Medina, 1929) e O canto do mar (Alberto Cavalcanti, 1953); uma cópia máster [sic] de Simão o caolho (Alberto Cavalcanti, 1952), e uma cópia em 16mm desses três títulos e de O Saci (Rodolfo Nanni, 1953). Ainda em 1960, segundo Carlos Roberto de Souza, é realizada uma nova

92 Idem, ibidem. 93 Idem, ibidem.

94 Lei Nº. 4.854/55, de 30-12-1955. 95 Idem, ibidem.

montagem de Ganga bruta, com a colaboração com Humberto Mauro, na tentativa de fazer uma cópia sonorizada do filme a partir dos discos Vitaphone originais, que acabou não acontecendo. A Prefeitura de São Paulo continua a depositar os filmes brasileiros (há uma relação de 81 novos títulos encaminhados), assim como o fazem algumas produtoras, como a Vera Cruz, e instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O relatório de 1961 tem o mesmo tom: “O trabalho de preservação limitou-se à revisão permanente dos filmes do acervo e à contratipagem de algumas películas brasileiras cujas cópias se acham em via de decomposição”97.

No entanto, o Plano de Trabalho para 1962, presente nesse mesmo relatório, demonstra esperança no futuro com a mudança da forma jurídica da Cinemateca para uma Fundação, com o objetivo de viabilizar a assinatura de um convênio com o governo do Estado que significava a entrada regular de verbas para as atividades correntes. Entre os planos para esse futuro próximo, e contando com a verba prevista pelo convênio, planejavam-se investimentos na construção dos “armazéns de filmes com os requisitos técnicos necessários” e “contratipagem de filmes brasileiros de cópias únicas”98. Em 1962 as perspectivas de desenvolvimento da conservação continuam frustradas: “A precariedade das atuais instalações continua a ser uma ameaça ao acervo da Fundação [Cinemateca Brasileira]”99 pela insegurança de ter depósitos espalhados pelo Parque do Ibirapuera e pelas “oscilações de temperatura e umidade relativa que atinge a 90%”100. Mais uma vez, manifesta-se a esperança na construção de “armazém especial para a conservação de filmes”, na Cidade Universitária, por conta de um convênio assinado com a Universidade de São Paulo – que também não se efetivou. Ainda em 1962 acontece o importante trabalho de “restaurar e contratipar aquilo que foi possível salvar do chamado Ciclo de Recife”101 sob a orientação de Josef Reindl (responsável, na época, por acompanhar os trabalhos de restauração junto aos laboratórios). Além disso, todos os filmes são “arejados”. São revisados “para os cuidados técnicos de preservação, 3.412”102 rolos de filmes, dentre os quais foram queimados, pelo avançado estado de deterioração, cerca de 30 rolos que continham “principalmente documentos da vida nacional da década de 30”103. Porém, em 1963, o relatório nem sequer menciona as

97 Principais atividades durante o ano de 1961. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 98 Plano de Trabalho para 1962. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira.

99 Relatório anual de 1962. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Também reproduzido em

Cadernos da Cinemateca 3, 1964, p. 36-43.

100 Idem, ibidem. 101 Idem, ibidem. 102 Idem, ibidem. 103 Idem, ibidem.

atividades chamadas de Preservação, limitando-se a informar que “O mais importante e necessário planejamento da Cinemateca Brasileira – a construção do blockhaus [depósitos climatizados] para a armazenagem adequada das películas – não pode, mais uma vez, ser efetivado”104. Em um documento datilografado, possivelmente escrito por Paulo Emilio, lê-se que a Cinemateca, “que tinha apenas 12 funcionários, é obrigada, por falta de recursos, a dispensar mais da metade em fevereiro/1963”105.

Apesar da situação decadente das atividades de conservação, a vida institucional de 1959 a 1963 foi bastante agitada. As verbas da Prefeitura, somadas às receitas advindas das atividades essencialmente de difusão (de grande expressividade na época), permitiram

a contratação de jovens que dinamizaram o ambiente da Cinemateca: Gustavo Dahl (1959) foi chamado para cuidar da secretaria e ajudar na biblioteca, Jean-Claude Bernardet (1960) para a documentação, Mauricio Capovilla (1960) para a difusão e Ilka Brunhilde Laurito (1963) criou o Departamento Infantil.106

Como dito acima, a instituição assume a forma jurídica de Fundação e passa a chamar-se Fundação Cinemateca Brasileira, em dezembro de 1960, e assina um convênio com o Governo Estadual, em março de 1961 – “e no ano seguinte a Cinemateca recebeu a então fabulosa importância de 16 milhões de cruzeiros”107. Em julho de 1962, é criada a Sociedade Amigos da Cinemateca, numa iniciativa liderada por Dante Ancona Lopez que, “através de atividades de difusão da arte cinematográfica, visa auxiliar financeiramente a Fundação”108. Nas instâncias federais, corria o projeto de lei 711/1959, que previa “quantia várias vezes superior à do convênio estadual”109, que é apresentado a plenário em abril de 1962. Os ventos pareciam favoráveis, mas infelizmente eram ilusórios. O projeto federal não foi aprovado, a Sociedade Amigos da Cinemateca tem seus recursos quase todos consumidos na realização das suas atividades de difusão, pouco conseguindo ajudar a Fundação Cinemateca Brasileira, “o convênio com o governo estadual (...) logo foi comido por dois lados: o atraso nos pagamentos e a inflação”110. Em dezembro de 1962 a situação parece crítica para Paulo Emilio, que escreve para Almeida Salles:

104 Relatório anual de 1963. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira.

105 Anotação retirada de documentos do Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira, quase certamente

datilografados a partir de manuscritos de Paulo Emilio, pois existem alguns dos originais manuscritos correspondentes a parte dos documentos datilografados.

106 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 78. 107 Idem, ibidem, p.80.

108 Cecília Thompson (Org.), op. cit., 1964, p.27. 109 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 80. 110 José Inacio de Melo Souza, op. cit., 2002, p. 386.

Vamos pois ser obrigados a dispensar boa parte dos funcionários e, dos que permanecerão, só seja possível guardar um, que será é claro Rudá, com tempo integral (...) Em suma, estamos voltando a uma situação que já conhecemos no passado.111

A Cinemateca esvazia-se: Gustavo Dhal já estava na Itália, desde 1961, cursando o Centro Sperimentale di Cinematografia, “Caio Scheiby e Maurice Capovilla foram desligados a partir de março de 1963. A biblioteca fechou. (...) Os que ficaram, como Rudá, Sérgio Lima ou Jean-Claude, buscam atividades paralelas”112.

O terceiro número do Cadernos da Cinemateca, intitulado A Cinemateca Brasileira e seus problemas, publicado em 1964, oferece um panorama da situação. Logo na primeira página, há um texto assinado por Francisco Luiz de Almeida Salles (presidente) e Paulo Emilio Sales Gomes (conservador), inserido na última hora, antes da impressão, que comenta a situação institucional:

Enquanto durou o preparo do Caderno agravou-se a situação da Cinemateca [...] Até agora, entretanto, as constantes dificuldades da Cinemateca para existir têm sido diagnosticadas como crises de nascimento. A que nos ameaça hoje, é de morte [...] A Cinemateca agoniza da discrepância entre a riqueza de seu acervo e a pobreza dos meios de que dispõe. Esta contradição já foi causa de uma catástrofe, o incêndio de 1957113.

O texto prossegue em sua análise e reafirma que a esperança de custeio da entidade sempre esteve nas verbas governamentais, mas pelo pouco que se conseguiu nos últimos dez anos, os olhos se voltam para as Universidades Brasileiras (de São Paulo e de Brasília) “mais poderosas e vivas”. O tom não é o de entregar os pontos, afinal, o histórico da instituição e o relatório de 1963 apresentados nesta publicação relatam atividades culturais significativas. A conclusão da carta de abertura é a de que “Ainda não é irremediavelmente tarde para salvar a Fundação Cinemateca Brasileira”114.

Apesar das esperanças, o Relatório Anual de 1964 não confirma as expectativas. A reincidente questão da construção dos blokhaus, e do fracasso dessa empreitada, é retomada: “a Cinemateca Brasileira não pôde, até o presente momento, dispor ou construir um só blockhaus por falta de recursos” 115. Porém agora vem acompanhada de outras circunstâncias desalentadoras. Nesse ano e no ano seguinte as atividades de conservação limitaram-se a “vistoria e arejamento” e “algumas revisões

111 Idem, ibidem, p. 387. 112 Idem, ibidem, p. 387

113 Francisco Luiz de Almeida Salles e Paulo Emilio Sales Gomes. “Em tempo, Ainda”. in Cinemateca

Brasileira e seus problemas, 1964, p.1.

114 Idem, ibidem, p. 1.

esporádicas em mesa enroladeira”116. Conta-se apenas com uma revisora “quase totalmente ocupada com os filmes de circulação em 16mm”117. Perdem-se, pela deterioração, mais alguns filmes da “vida brasileira dos anos 30”118. Contraditoriamente, em 1965 a instituição teve recursos para confeccionar várias cópias ou contratipos de filmes nacionais (entre eles, Aitaré da praia (Gentil Roiz, 1925), São Paulo sinfonia da metrópole [sic] (Rex filme, 1929), Garrincha alegria do povo (Joaquim Pedro de Andrade, 1962), ao mesmo tempo que: “Produtores pediram de volta filmes que depositaram (...) por considerarem que a instituição não se encontrava em condições para preservá-las”119. Em 1966 é dispensada a única revisora que permanecia no quadro e conseqüentemente até a revisão das cópias de exibição deixa de ser feita. Tentativas de terceirizar esse trabalho (com a Odil Fono Brasil) mostraram-se caras e ineficientes: “Em última análise, toda atividade de revisão veio a ser impraticável. As conseqüências desse corte são mais do que evidentes”120. Apesar de tudo, o acervo continua crescendo através de depósitos oriundos do convênio com a da Prefeitura de São Paulo e de outras instituições, ou das duplicações de filmes nacionais e estrangeiros. A conseqüência imediata é que a “vistoria” realizada em 1966 indica que os depósitos estão lotados e obriga a transferência de “um grande número de filmes” para a sede principal, repetindo a circunstância que se viveu em 1957, antes do incêndio.

Mais uma vez na contramão do encolhimento das atividades de conservação, a difusão cultural é notável, atuando em várias frentes, em diversas localidades do Brasil e no exterior. Essa discrepância fundamental não passa desapercebida pela equipe. Em 1965, a introdução do relatório anual realça a contradição e afirma: “Por um lado, [há] uma divulgação cultural brilhante. Por outro, [realizam-se] poucos trabalhos a longo prazo. Dominando tudo, a constante penúria”121. E o relatório de 1966 aprofunda a questão afirmando que: “a instituição não consegue realizar bem seus trabalhos por ser impelida a atividades mais circunstanciais e de um brilhantismo que se distancia de seu objetivo principal: o museológico”122. O momento político/econômico do país é mais um fator que colabora para a crise interna, com a acentuada inflação E Fausto Correa Jr.

116 Idem, ibidem. 117 Idem, ibidem. 118 Idem, ibidem. 119 Idem, ibdem.

120 Relatório de atividades de 1966. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira.

121 Relatório das atividades no decorrer de 1965. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 122 Relatório de atividades de 1966. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit.

afirma que “o Golpe Militar de 1964 entravou de vez o projeto essencialmente democrático da instituição”123.