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A televisão, como um meio de cultura de massa, tenta com sucesso alcançar o maior número de público, produzindo programas não muito complexos e que possam ser acompanhados facilmente por qualquer pessoa. Geralmente suas tramas são mais lentas e são utilizadas fórmulas narrativas mais conhecidas, como a binaridade dos personagens – mocinho e vilão. Essas narrativas acabam por seguir certas regras e entram em um grande ciclo de repetição. As telenovelas, por exemplo, apesar de serem

divididas em longos capítulos, têm como característica narrativa tramas simples que não exigem muito do espectador, apenas que acompanhem a sequência diária da mesma história (já conhecida e esperada). Segundo Moreira,

Na base desse discurso estariam os estereótipos. O público ciente das regras de determinados gêneros ou personagens, se ligaria mais facilmente à trama e seria atraído a consumir produtos semelhantes. Da mesma forma, a estrutura narrativa se repetiria, com novos elementos modificando seus enredos. (MOREIRA, 2015, p.23)

O barateamento da TV paga e os avanços tecnológicos, como a troca de arquivos pela internet, passaram a contribuir para uma mudança expressiva na estrutura dos programas televisivos. Desde a criação da fita de vídeo, passando pela reprise de programas na TV por assinatura, geralmente disponíveis em mais de um canal, até chegar ao serviço de streaming de vídeos, o espectador se tornou cada vez mais autônomo, podendo assistir quando e quantas vezes quisesse ao programa escolhido.

Ao contrário da TV aberta, a televisão a cabo sempre ofereceu conteúdos diferentes e mais específicos, permitindo à audiência um maior poder de escolha em relação à programação de seu interesse, e de certa forma, setorizando essa mesma audiência, que passou a ser cada vez mais exigente quanto aos produtos audiovisuais consumidos.

O formato das séries televisivas conquistou um grande espaço em meio a um público heterogêneo. Serviços de oferta de vídeo por demanda, ou mais popularmente chamados de serviços de streaming de vídeo, como a plataforma on-line abordada no presente trabalho, mudaram o paradigma de relacionamento entre o público e os produtos de entretenimento audiovisuais.

Os espectadores, com o tempo, não só se tornaram cada vez mais autônomos, como também mais exigentes em relação ao conteúdo dos programas. O resultado foi que, para não perder público e nem mercado, alguns canais de TV passaram a produzir suas próprias séries. A Netflix, que foi criada em 1997 para ser uma locadora de filmes on-line, decidiu lançar em 2007 seu serviço de oferta de vídeo por demanda. Várias plataformas on-line de streaming de vídeo foram criadas no decorrer desses anos, e, com o consumo cada vez maior das séries e com a boa resposta da crítica, a televisão a cabo passou a produzir seu próprio conteúdo com narrativas cada vez mais complexas e com gêneros diversificados. Para também manter-se no mercado, a Netflix passou a

investir alto na produção de séries próprias, lançando seus títulos exclusivos a partir de 2013.

O termo transmídia, muito utilizado hoje em dia, também explica o fenômeno das mudanças nas estruturas narrativas. Kieling (2013) se refere à transmídia como sendo fruto do uso emergente de múltiplas telas, dos processos interativos causados pelas novas tecnologias digitais e pelas formas de consumo que vão surgindo com as gerações que nascem em meio a essas ofertas. Para o autor, é a partir dessa convergência de mídias na vida das pessoas que os formatos narrativos vão se transformando, uma vez que os espectadores estão mais ativos e demandando histórias que se aproximem do mundo real. As produtoras, então, vão se atualizando em relação às demandas do público, enquanto este mesmo público vai ativando diferentes competências de leitura.

A comunicação midiática, segundo Gasciola (2013), é um movimento de contínua transformação, pois cada meio incorpora os novos meios criados previamente, tendo seu potencial comunicacional ampliado mundialmente. Para o autor, esse novo tipo de comunicação se constitui de narrativas que buscam novidades nas novas tecnologias e o mesmo acontece em relação às novidades que as narrativas trazem para essas novas tecnologias.

A cultura de convergência (KIELING, 2013) seria então o afunilamento de todas as formas de comunicação para o mesmo meio, ou seja, a internet, que acolhe e se adapta às transformações tanto culturais, como sociais e de mercado, sendo capaz de produzir seu próprio conteúdo e compartilhá-lo com o mundo. Como as pessoas são diariamente bombardeadas por informações e histórias, é preciso que haja estratégias para atrair a atenção desse público de forma efetiva. Assim, o recurso da transmídia, conjunto de mídias que narram uma mesma história, é utilizado de modo a garantir essa atração a partir dos meios mais utilizados, articulando também a narrativa entre TV e Cinema.

De acordo com o pensamento de Gasciola (2013), a popularização da narrativa transmídia está transformando os modelos e hábitos de comunicação do público em geral. É enorme a oferta de conteúdos audiovisuais à disposição dos espectadores, que têm acesso a qualquer conteúdo na web, seja por compartilhamento nas nuvens ou em redes sociais. Ainda de acordo com o autor, o maior potencial

expressivo da transmídia é a integração entre as narrativas e as plataformas em que são transmitidas, oferecendo uma estratégia atraente, mas também coesa de contar histórias. Essa estratégia de comunicação, conhecida como storytelling, “divide uma grande história em partes ou desenvolve partes complementares de uma história principal e as distribui e exibe pelas plataformas que melhor possam expressá-las”. (GASCIOLA, 2013, p.205)

Para autores como Kieling (2013), as estratégias transmidiáticas estão se tornando a terceira fase da televisão. Já se vê um rompimento com as formas tradicionais de transmissão, produção e recepção dos conteúdos televisivos em que o espectador influencia esses meios de produção, compartilhando suas experiências por meio das redes sociais. O storytelling, para o autor, “funciona como uma forma de unir as micro-histórias, no sentido de aumentar as intersecções e complexidade do conteúdo narrativo desses universos”. (KIELING, 2013, p. 167)