1. Introducció
1.3. La Tomàtiga de Ramellet
Para alguns comentadores da filosofia nietzscheana, a psicologia não é entendida como um conceito importante. É o exemplo de Eugen Fink, ao considerar a psicologia como mero recurso sofístico133 utilizado por Nietzsche, algo, segundo o comentador, próprio do autor (FINK, 1982, p.49). Heidegger sugere que a psicologia nietzscheana deve ser compreendida como uma antropologia, entendendo esta como a explicação e busca da essência do homem. Nesse sentido, a antropologia seria uma metafísica do homem (HEIDEGGER, 2000, p.56). Todavia, como veremos mais adiante, a psicologia em Nietzsche quer, antes de mais nada, evitar a metafísica.
Partindo dos textos do próprio Nietzsche, percebemos a importância atribuída pelo mesmo ao conceito de psicologia. No famoso aforismo 23 de JGB/BM o filósofo expressa a
132 Cf. LEITER, 2011, p. 118.
133 Segundo Wotling, é superficial encarar a psicologia como um artifício sofístico, pois Nietzsche declara em inúmeras vezes ser um psicólogo, desconsiderar isso é não levar em conta outra afirmação do filósofo em querer ser lido como os filólogos antigamente liam seu Horácio (WOTLING, 1999, p. 13-14).
necessidade de retirar da psicologia os preconceitos morais para que então, esta possa conduzir o homem, mais uma vez, para os problemas fundamentais134. O aforismo em questão é o ponto de partida para o interprete francês Patrick Wotling, em seu livro La pensée du
sous-sol135, no qual destaca o papel da psicologia como a rainha das ciências. Juntamente a
isto, o comentador tem como fio condutor o conceito de vontade de poder, apresentado no segundo capítulo da obra de 1886. Sendo assim, segundo Wotling, a psicologia ocupa um lugar de fundação da teoria de “vontade de poder”, e não pode ser entendida como um saber hermético (WOTLING, 1999, p.14):
[...] o sentido de psicologia em Nietzsche não retorna unicamente para restituir sob uma forma mais sintética o que Nietzsche disse e pensou sobre psicologia; em outros temos, ela não pode ser estudada uma disciplina entre outras, que se definiria – e se distinguiria das outras – por um campo de objetos específico. Pois a psicologia não é mais em Nietzsche um domínio particular do saber, e s denominou “a rainha das ciências” no parágrafo 23 de Além de bem e mal, a natureza de sua reflexão também proíbe, apesar desses elogios, de a conceber como uma “ciência” no sentido estrito136 (WOTLING, 1999, p.8)
Em 1888, ao redigir sua autobiografia filosófica EH/EH, Nietzsche faz um apanhado geral de sua filosofia desde a primeira obra publicada GT/NT em 1871, indo até sua última obra publicada WA/NW, de 1888. Além deste olhar lançado sobre suas obras anteriores – o mesmo tece alguns comentários sobre seus escritos e destaca as polêmicas envolvendo cada um deles –, Nietzsche faz uma afirmação no mínimo polêmica sobre si mesmo: o filósofo se autointitula o primeiro psicólogo a existir, mais ainda, que antes dele não havia psicologia:
A moral cristã foi até agora a Circe de todos os pensadores – eles estiveram a seu serviço. Quem, antes de mim, adentrou as cavernas de onde sobe o venenoso bafo desta espécie ideal – a difamação do mundo? Quem ousou sequer pressentir que são cavernas? Quem, entre os filósofos, foi antes de mim psicólogo, e não seu oposto, “superior embusteiro”, idealista”? Antes de mim não havia absolutamente psicologia (EH/EH, Por que sou um destino, 6).
Desse modo, Nietzsche retoma algo que já foi dito em 1886 em JGB/BM ao afirmar que a reflexão filosófica está presa a preconceitos morais e os filósofos trabalham para reforçar tal perspectiva, quando não questionam a origem dos valores, por exemplo. Além
134 Cf. JGB/BM 23.
135 WOTLING, 1999.
136 « [...] le sens de la psychologie chez Nietzsche ne reviendra pas uniquement à restituer sous une forme plus synthétique ce que Nietzsche a dit et pensé au sujet de la psychologie ; en d’autres termes, il ne peut s’agir d’étudier une discipline parmi d’autres, qui se définirait – et se distinguerait des autres – par un champ d’objets spécifique. Car la psychologie n’est plus chez Nietzsche un domaine particulier du savoir, et bien qu’il la dise « reine de sciences » dans le paragraphe 23 Par-delà bien e mal, la nature même de sa réflexion interdit en outre, en dépit de ces éloges, de la concevoir comme une « science » au sens strict » (WOTLING, 1999, p.8).
disso, outra característica a sofrer duras críticas do filósofo é o idealismo, na valorização do “além-mundo”, na crença na metafísica.
No livro Nietzsche como psicólogo137, Oswaldo Giacóia parte da proposição, já destacada acima, de autoproclamação de Nietzsche como o primeiro psicólogo que existiu. Para tanto, o comentador brasileiro relaciona psicologia ao projeto de transvaloração de todos os valores, e a tentativa de Nietzsche em desvendar os ideais metafísicos, entre eles a ideia do eu (ego):
A investigação sobre a natureza e a origem do ego constitui uma das tarefas do
psicólogo Nietzsche; mais precisamente, a tarefa que o distingue como psicólogo e
cuja execução depende, em grande parte, a realização do projeto de transvaloração de
todos os valores. É por meio dela que o psicólogo poderá trazer à luz o erro fundamental que está na base de todos os majestosos edifícios teóricos da metafísica e,
desse modo, quebrar o encantamento que mantém em estado permanente de sonho e sono o filósofo, cuja a missão o destina, porém, a ser aquele que ter de estar desperto (GIACÓIA, 2006, p.8).
Recuando alguns anos, em 1886, Nietzsche já havia feito este “balanço”138 de sua filosofia quando acrescenta às obras anteriores a Za/ZA um prefácio para segunda edição de GT/NT, MA/HH I e II, M/A e FW/GC. Desses prefácios podemos destacar, para nosso propósito, o parágrafo oitavo do prefácio destinado à primeira parte de MA/HH, onde o filósofo diz ser perceptível àqueles que se ocupam com psicologia, a importância da obra de 1878. O escrito não encontra ouvidos e é mal compreendido pelo fato de inexistirem, na Alemanha, psicólogos: “Mas onde existem hoje psicólogos? Na França, certamente; talvez na
137 Na obra em questão, Giacóia ressalta, assim como Kaufmann, os poucos comentários sobre psicologia em Nietzsche. Comentários estes que com o passar do tempo foram aparecendo mais vezes. Assim como Thomas Brojer, Giacóia julga que a psicologia é parte fundamental do pensamento nietzscheano, sendo que quem ignora isto não compreendeu tal filosofia (GIACÓIA, 2006, p.8-9). Mais adiante pontua os principais trabalhos sobre psicologia em Nietzsche como: a recepção de Fink e Jasper (idem, p. 16); a interpretação de Heidegger (idem); os trabalhos comparativos entre Nietzsche e Freud realizados por Paul Laurent Assoun e o de Ulrich Irion (Idem); o artigo de Jean Garnier sobre filosofia em Nietzsche e Freud (Idem, p. 17); Walter Kaufmann (Idem, p.17); Louis Corman (Idem, p. 18); Reinhardt Gasser (Idem, p.18); e destaca como um dos trabalhos mais relevantes recentemente o de Patrick Wotling (Idem, p. 19).
138 “O conjunto de textos [...], os chamados prefácios de 1886, pode ser considerado como uma autobiografia de Nietzsche” (BURNETT, 2008, p. 24). Durante toda sua vida Nietzsche escreveu inúmeras autobiografias, algumas delas, inclusive, ainda muito jovem. Como é o caso de um texto intitulado “Os anos de infância” [Les
anées d’enfance] onde ele narra os principais acontecimentos de sua vida no período de 1844-1858 que fora
escrita entre agosto-setembro de 1858 (NIETZSCHE, 1994, p. 21-43; as autobiografias ocupam a primeira parte deste volume dos escritos de juventude de Nietzsche). Outros textos de caráter autobiográfico são intitulados “Minha vida” [Ma vie] (Idem, p. 45-61). Ainda com caráter autobiográfico, Nietzsche redigiu algumas anotações de suas férias (Idem, p. 65-75). Nestes textos, de uma forma ou de outra, Nietzsche lança um olhar sobre o seu passado, mesmo que ainda muito jovem, e o avalia, os prefácios de 1886 fazem parte desta tendência autobiográfica iniciada ainda na sua juventude.
Rússia; não na Alemanha, com certeza” (MA/HH, prefácio 8). Assim, podemos entender que MA/HH conteria traços de uma psicologia que está surgindo a partir desta obra139.