3. Material i mètodes
3.7. Manteniment de la plantació
3.7.1. L’adobat
Algo que não pode passar despercebido, é a forma como Nietzsche irá se expressar em MA/HH. A relação entre forma e conteúdo é de suma importância para o filósofo, no qual não podemos encarar as coisas de modo acidental: tudo em Nietzsche é pensado, nada é por acaso. Desse modo, a maneira como é comunicada seu pensamento em 1878 tem que ser levada em consideração, pois nesta obra passa a utilizar o aforismo, outro ponto distinto do primeiro livro GT/NT: forma e conteúdo devem ser levados em consideração ao analisar a produção filosófica de um pensador como Nietzsche. A preocupação com o estilo é assunto de uma carta enviada pelo filósofo à Peter Gast:
Estou refletindo sobre o estilo. Por favor, escreva-me para meu uso e proveito algumas opiniões sobre o meu estilo atual (você é o único conhecedor) – sobre do que sou capaz e do que não sou [...] Devemos ajudar a sermos melhores, para fazer as coisas cada vez melhor197 (Carta 883).
Desde as primeiras interpretações do pensamento de Nietzsche, ainda no século XIX, seu estilo recebeu demasiada atenção, mesmo que fosse para desconsiderar seu conteúdo filosófico e o elencando unicamente como escritor. O aforismo como forma de expressão ajudou na divulgação de Nietzsche como um literato. Walter Kaufmann198 vê na escolha do estilo aforismático uma tentativa de se opor ao estilo adotado tradicionalmente pela tradição filosófica que privilegiava, na sua grande maioria, os tratados filosóficos, que prezam, sobretudo, por raciocínios dedutivos. O aforismo dá a sensação de experimento com o pensamento, através dele elabora hipóteses que podem ser desenvolvidas posteriormente, ou simplesmente deixadas de lado. Porém, não devemos encarar o estilo de Nietzsche com o que ele denuncia ser o estilo decadente, um escrito anárquico, onde as partes se sobressaem em relação ao todo (ITAPARICA, 2002, p.12-13).
196 Partilhamos da proposta por Itaparica, onde define estilo como a forma de expressão, nesse caso a escrita escolhida para expressar seu pensamento (ITAPARICA, 2002, p. 11, nota 1).
197 Estoy reflexionando sobre el estilo. Por favor, escríbame para mi uso y provecho algunas tesis sobre mi estilo actual (usted es su único conocedor) – acerca de lo que soy capaz de lo que no soy capaz [...]. Debemos ayudarmos para llegar a ser mejores, para hacer las cosas cada vez mejor (Carta 883).
O próprio Nietzsche, em escritos anteriores a MA/HH, havia utilizado outras formas de expressar seus pensamentos, porém expondo estes sempre de maneira linear. André Itaparica destaca que Nietzsche não só modifica a forma de se expressar, mas também aquilo que ele expressa (ITAPARICA, 2002, p.26-27). Desse modo, o contexto da obra ajuda a compreender a escolha pelo estilo aforismático. Ao optar pelo aforismo Nietzsche está, também, adotando uma forma de conhecimento: a ciência. Ao contrário da metafísica que busca verdades eternas e imóveis, a ciência é um saber fragmentado, e sabe de suas limitações espaço-temporais. Assim, o aforismo está de acordo com tal perspectiva, pois com o aforismo o filósofo pode assumir diversas perspectivas e testar várias hipóteses para um determinado “problema”: “Com o aforismo, o que vemos na obra de Nietzsche é um tema a ser observado por diversos ângulos, de modo que o resultado global a que se chega não é obtido de formar linear e dedutiva, mas composta e analógica” (ITAPARICA, 2002, p.50). O aforismo é necessário para a reflexão da obra de 1878: “Contra os míopes – Então vocês acham que é uma obra aos pedações, somente porque lhes é oferecida (e tem de ser) em pedaços?” (VM/OS 128).
A filosofia histórica, diferentemente da filosofia tradicional metafísica, não tem como objetivo uma visão completa da realidade, ela expõe seus resultados de forma fragmentada em aforismos:
Esse caráter fragmentário está também associado à natureza nômade da nova ciência, a seu constante deslocamento por diversas culturas em diversos níveis de desenvolvimento, procedimento investigativo indissociável da filosofia histórica. Sabendo-se parte da era da comparação, que relativiza sua cultura a partir do cotejo com outras, a ciência utiliza o aforismo como modo de contrapor diferentes temas e concepções (ITAPARICA, 2002, p.47).
A compreensão do estilo aforismático é de suma importância para entendermos melhor a concepção de psicologia desenvolvida em MA/HH. O aforismo é o estilo que Nietzsche escolhe para expor suas reflexões, assim como os moralistas franceses. Ao contrário do que parece, o aforismo é o fruto de um longo processo de trabalho que exige o máximo do leitor:
Contra os que censuram a brevidade – Algo que é dito brevemente pode ser o produto
e colheita de muito o que foi longamente pensado: mas o leitor, que nesse campo é novato e ainda não refletiu sobre isso, vê em tudo que é dito brevemente algo embrionário, não sem nenhum gesto de censura para o autor, por servi-lhe como refeição algo assim tão verde e imaturo (VM/OS 127).
No FP 23[39] do verão de 1877 Nietzsche fala aponta as características necessárias para aquele que investiga as ações humanas: além de frieza, necessita de estilo, ser um artista
na exposição de seus pensamentos. É necessário que ele conheça todos os afetos que serão expostos em suas sentenças. Fala o quão difícil é conseguir isto, pois a sua exposição deve ser precisa e lembra que neste âmbito não pode ser como no âmbito da matemática, que consegue se expressar com precisão através da sua linguagem.
A falta de reflexão psicológica fica evidente na falta de capacidade dos modernos em ler aforismos. O aforismo exige tempo, paciência, condições estas que a vida moderna não possibilita, pois nesta tudo ocorre de maneira muito rápida199. Além disso, no caso de Nietzsche, algo que dificulta a composição das máximas é a própria língua alemã200. No parágrafo 8 do prólogo de 1886, o filósofo destaca uma das dificuldades atestadas pelos leitores de sua obra:
‘Ele [MA/HH] exige muito’, foi a resposta, ‘ele se dirige a pessoas que não vivem atormentadas por uma obrigação boçal, ele pede sentidos delicados e exigentes, tem necessidade do supérfluo, da superficialidade de tempo, de clareza de céu e coração, de otium [ócio] no sentido mais temerário: – coisas boas, que os alemães de hoje não podem ter e portanto não podem dar’ (MA/HH, Prólogo 8).
O texto necessita de tempo livre para ser digerido. Vale lembrar que Nietzsche produz MA/HH num período sabático em que passou em Sorrento, pois este reclamava frequentemente como a falta de tempo impedia o desenvolvimento da sua produção. Sendo assim, é por isso que o alemão não pode entender seu escrito, pois ele mesmo passara, anos antes, por isso. O povo alemão não se dá o direito ao ócio201.