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4. Resultats

4.2. Producció en el tractament de reg

Após caracterizar sua análise psicológica, Nietzsche põe em pratica tal empreendimento. O primeiro sentimento que o filósofo alemão criticará é o de compaixão. Se observarmos atentamente, veremos que existe muito mais egoísmo e vício do que se pensa nas ações morais veneradas pela tradição filosófica. Desse modo, cito mais uma vez a epígrafe das Máximas de La Rochefoucauld:

O que consideramos virtudes costuma ser só um conjunto de ações e interesses diversos que o destino ou nosso engenho sabe arrumar; e nem sempre é por coragem e por castidade que os homens são corajosos e as mulheres castas (LA ROCHEFOULCAULD, 2014, p.11).

Segundo o pensador francês, tentamos ao máximo encobrir nosso egoísmo e vícios com “virtudes morais”, mas aqueles sempre vêm à tona (LA ROCHEFOUCAULD, 2014, p. 12). Nessa perspectiva, encontramos algo semelhante na obra do filósofo alemão, quando este traça um paralelo entre o corpo e nossas virtudes: assim como os órgãos e ossos são revestidos por uma pele para que tornem a visão do homem suportável, nossas paixões e emoções são revestidas pela nossa vaidade, tornando-se assim, a pele da alma (MA/HH 82).

Desse modo, podemos dizer que Nietzsche irá colocar contra a parede a virtude da mais alta estima da moral cristã e da filosofia moral de Schopenhauer, a saber: a compaixão. Efetivamente, em 1840, Schopenhauer participa de um concurso, realizado pela Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague, que tinha como questão central o fundamento da moral, como resposta encontra o fundamento da moral na compaixão. Somente as ações desinteressadas que visam o bem do outro podem ser consideradas morais, todas restantes são contrarias à moral. E esta participação no outro só se dá nas dificuldades, ou seja, quando o outro sofre. Há, assim, uma identidade no sofrimento entre aquele que sofre e aquele que ajuda. Este pano de fundo é importantíssimo para Nietzsche nesse momento, pois o que está em jogo é, também, o afastamento bem marcado em relação à Schopenhauer:

A descoberta de um motivo interessado, mesmo que fosse único, suprimiria totalmente o valor moral de uma ação, ou, mesmo agindo como acessório, o diminuiria. A ausência de toda motivação egoísta é, portanto, o critério de uma ação

É no aforismo 50 que Nietzsche desenvolve sua crítica à compaixão a partir do pensamento do moralista francês La Rochefoucauld. O ponto de partida é o autoretrato229 escrito pelo próprio escritor francês. Nietzsche inicia repetindo o que o francês expõe em seu texto: uma prevenção contra a compaixão, ao atribuir tal sentimento aos fracos e pessoas do povo. Seguindo o argumento, somente pessoas que não se utilizam da razão para realizar suas ações podem se comover e ser levada pela compaixão. Do ponto de vista de La Rochefoucauld, o homem pode ajudar sem a necessidade de ter compaixão, pois até podemos manifestá-la, mas nos guardarmos de tê-la (MA/HH 50).

Para Nietzsche a compaixão e o desejo de suscitar compaixão merecem mais atenção e não devem ser encaradas como uma tolice ou falta de razão, antes, exigem uma reflexão mais atenta e rigorosa. A exposição da dor e sofrimento, por aquele que sofre, não é desinteressada: “[...]a rigor não existe ação altruísta nem contemplação totalmente desinteressada; ambas são apenas sublimações, em que o elemento básico parece ter se volatizado e somente se revela à observação mais aguda [...]” (MA/HH 1). Na verdade, estes artifícios são bem engendrados e têm o objetivo de causar dor e mal-estar naqueles que estão ao seu redor. Esta é a única forma que o ser fraco tem para dar mostra de seu poder. Ele nada pode fazer ao interagir com o mundo ou as pessoas que o cercam, restando apenas esperar o momento adequado para expor suas lamúrias na tentativa de causar dor. É ao causar dor, que ele experimenta uma sensação de poder:

[...] perguntemos a nós mesmos se os eloquentes gemidos e queixumes, se a ostentação da infelicidade não tem o objetivo, no fundo, de causar dor nos espectadores: a compaixão que eles então expressam é um consolo para os fracos e sofredores, na medida em que estes percebem ter ao menos um poder ainda, apesar de toda sua fraqueza: o poder de causar dor (MA/HH 50).

Ao contrário do que parte da tradição diz, a compaixão não é encarada, tanto por Nietzsche quanto por La Rochefoucauld, como virtude elevada, mas sim como o mais alto grau de egoísmo. Do ponto de vista de MA/HH, “a sede de compaixão é uma sede de gozo de si mesmo” (MA/HH 50), ou seja, uma exaltação do próprio “eu”, que deseja ser o centro das atenções e causar dor como demonstração de poder. Aqui temos, de certo modo, um ponto de convergência, mais uma vez, entre Nietzsche e La Rochefoucauld. Trazendo mais uma vez à cena o parágrafo 264 das Máximas, temos uma crítica ao altruísmo semelhante à desferida por Nietzsche em MA/HH:

A piedade é muitas vezes sentir os nossos próprios males nos males de outrem, é hábil previdência das desgraças em que podemos cair; socorremos os outros para constrangê-los a nos socorrermos em ocasião oportuna, são serviços que prestamos, a bem dizer, um bem que por antecipação nos fazemos. (LA ROCHEFOUCAULD, 1994, M 264)

Sendo assim, não há para o francês a ideia de que ajudamos o próximo sem interesse, pois só o ajudamos por medo de um dia nos encontrarmos na mesma situação e não ter quem nos ajude; portanto, ações desinteressadas, como supõe Schopenhauer, não são viáveis.

No aforismo 46 de MA/HH, Nietzsche destaca o compadecer, que podemos chamar, também, de compaixão. Como tal sentimento é mais forte que o próprio padecer. No aforismo em questão Nietzsche utiliza como exemplo a culpa de um amigo: ao acreditarmos na pureza ou inocência de nosso amigo, o amor pelo amigo, ou pela sua inocência, é maior que o próprio tem por si mesmo. O que nos causa sofrimento é o fato dele ser culpado, não por altruísmo. Nossa confiança é abalada, nosso juízo (MA/HH 46). Desse modo, surge uma espécie de doença em decorrência de uma preocupação demasiada com outras pessoas. Segundo o filósofo alemão, esta preocupação é uma espécie de compaixão doentia, que na alma do cristão que tem diante de si a paixão e morte de cristo (MA/HH 47).