como sede um galpão. Estes são os casos do Circuito Cultural Barracas e do grupo de Pontelagoscuro na Itália (SCHER, 2010a). Outros, adotaram um galpão após algum tempo de atividade, a exemplo do grupo Catalinas Sur, isto ocorreu com os Murga de La Estación e Murga del Monte, ambos da provìncia de Posadas.
Nestes casos, os grupos que possuem um galpão tendem a utilizar a transformação do espaço fechado em sede, numa atividade de mobilização comunitária. Esta dinâmica é descrita por Antonio Tassinare, diretor do grupo de Teatro de Vizinhos de Pontelagoscuro, em Ferrara:
Usamos a prática que geralmente se usa na Argentina, Buenos Aires. Esta consiste em envolver as pessoas da comunidade. Para isto, foi organizada uma grande assembleia na qual foram convidadas todas as associações do bairro, todo os vizinhos e todos que tivessem interesse, para recolher materiais, anedotas, histórias para decidir Ahora no somos mas esa historia de que nos poniamos a ensayar acá y de golpe aparecia alguien a mirar el ensayo, y que vos lo veias en dos o tres ensayos, y de golpe después lo incorporábamos. O sea, habia todo un proceso en la plaza que no era solo lo físico, era el hecho de hacer las cosas en un lugar público (HISTORIA DE UNA UTOPIA, 1999).
como fazer o mural. Para não transformar o mural em algo que vem de cima, mas em um produto, resultado do trabalho de todos (TEATRO E TRANSFORMAZIONE SOCIALE, 2007).167
Como já dito, a pintura do galpão do grupo de Pontelagoscuro, Itália, foi coordenada pelos muralistas do grupo Catalinas Sur. Omar Gasparini e Ana Serrana. Como indica Antonio Tassinari, os grupos que possuem um galpão como sede buscam mobilizar os vizinhos para que estes participem da elaboração e construção das fachadas e espaços interiores. Buscando retratar nos galpões uma parte da memória do bairro e demonstrar assim a territorialidade do grupo e sua identidade comunitária.
167No original: hanno usato la pratica che usano normalmente in
Argentina, Buenos aires cioé di coinvolgere la gente che vive nel territorio. Quindi é stato organizzato una grande assemblea dove si é invitato tutte le associazioni, tutti i cittadini e tutti quelli che volevano, a partecipare per raccogliere materiale, racconti, storie su come fare questo murales. Per rendere questo murales non una cosa che veniva dall´alto, ma una cosa partecipata (TEATRO E TRANSFORMAZIONE SOCIALE, 2007).
Figura 14 Teatro Julio Cortazar. Fonte: Grupo Nucleo
Outro exemplo interessante é do grupo Matermurga, na cidade de Buenos Aires. Mesmo não possuindo um galpão, e tendo dividida suas atividades entre a praça 24 de Setembro e um espaço alugado, no qual os integrantes do grupo constroem seus cenários, figurinos, adereços etc e ensaiam em dias de mau tempo, o grupo Matemurga organizou a pintura de um dos muros da escola Andrés Ferreyra, no bairro de Vila Crespo, ao qual está vinculado (SCHER, 2010b).
Sobre a investigação para a criação do mural, Scher (2010b) relata:
A investigação levou meses. Livros, testemunhos orais, lembranças de alguns filhos de relatos que lhes contavam seus pais, fotografias, letras de tango entre outros, formaram a matéria prima. Com tudo isto se construiu o mundo que querìamos contar. Alguns companheiros desenharam, outros trouxeram dados. A equipe de plástica de Matemurga começou a dar forma ao material, até que um de seus integrantes, Jorge Vellarga, fez o primeiro esboço (SCHER,
2010b).168
Uma semana antes do dia marcado, os integrantes do grupo pintaram o muro de branco e fizeram um esboço do desenho a ser terminado posteriormente com a ajuda de todos. Segundo Scher (2010b), este momento despertou a curiosidade de muitos vizinhos, que passaram a perguntar o que estava ocorrendo. Ao explicar seus objetivos, ouviram comentários de uma senhora “cética [...] Pelo que vai durar” (SCHER, 2010b)169 outra pessoa também demonstrou desconfiança. “Há! Tomara que ninguém estrague” (SCHER, 2010b)170.
O relato que se segue é por si esclarecedor da capacidade de mobilização que a pintura de um mural pode alcançar, isto quando realizada de forma comunitária e com o objetivo de integrar os vizinhos: O dia 25 de outubro amanheceu fresco, mas ensolarado. Estava tudo pronto: desde a plástica até o comestìvel [...]. Avançou a manhã e alguns começaram a animar-se. Muitos que passaram por um tempo ficaram todo o dia. Outros estiveram por um tempinho e voltaram animados pela tarde. A parede tomava cor, se transformava, e com ela, a gente. Tinham crianças lambuzadas, adultos que se aproximaram da mesa de pinturas, e com total desenvoltura, pediam o cinza ou o bege 4, cachorros esperavam pacientes que seus donos terminassem de dar pinceladas, ciclistas paravam para observar e opinar. Alguns passavam com o pão na mão, outros paravam no caminho da casa
168No original: La investigación llevó meses. Libros, testimonios orales,
recuerdos de algunos hijos, de relatos que les contaban sus padres, fotografías, letras de tango y más constituyeron la materia prima. Con todo eso se armó el mundo que queríamos contar. Algunos compañeros dibujaron, otros aportaron datos. El equipo de plástica de Matemurga comenzó a darle forma al material, hasta que uno de sus integrantes, Jorge Vallerga, hizo el primer boceto (SCHER, 2010b).
169No original: cética [...] Por Lo que vá a durar (SCHER, 2010b). 170No original: Ay! Ojalá nadie lo arruíne (SCHER, 2010b).
da sogra. A verdade é que a esquina estava cada vez mais cheia. Até a vizinha cética, essa que não apostava dois pilas quando nos viu começar a desenhar, estava com o pincel na mão, absorvida pela atividade. Pintamos e pintamos. Fomos felizes. Nesse dia fomos felizes. Aproximadamente às seis e meia começamos a terminar. Um aplauso estrondoso nos surpreendeu e nos comoveu. Começamos todos a aplaudir. Éramos muitos os que aplaudimos. O mural estava ali. Lindo, belìssimo, nosso. Com um pouco de cada um. Com a história do bairro e com os sonhos. Escureceu lentamente. Todos os que no dia 25 de outubro de 2009 estivemos na esquina da rua Luis Viale com Rojas soubemos que nesse dia algo tinha mudado (SCHER, 2010b)171.
171 No original: El 25 de octubre amaneció fresco pero soleado. Estaba
todo listo: desde lo plástico a lo comestible. […] Avanzó la mañana y algunos comenzaban animarse. […] Muchos que pasaban por un rato se quedaron todo el dia. Otros estuvieron un rato y volvieron, entusiasmados, a la tarde. La pared tomaba color, se transformaba. Y com ella, nosotros. Habían niños enchastrados, adultos que se acercaban a la mesa de pinturas y, con total soltura, pedían el gris claro o el beige 4, puerros esperaban pacientes que sus dueños terminaran de dar pinceladas, ciclistas que se detenían a observar y opinar. Algunos se cruzaban con la bolsa de pan en la mano, otros se detenían camino a la casa de la suegra. Lo cierto es que la esquina estaba cada vez mas llena. Hasta la vecina escéptica, esa que no apostaba dos mangos cuando nos vio empezar a dibujar, estaba con un pincel en la mano absorta en la tarea. Pintamos y pintamos. Fuimos felices. Esse dia fuimos felices. Alredor de las seis y meia empezamos a cerrar. Um aplauso estruendoso no sorprendió y nos conmovió. Todos empezamos a aplaudir. Éramos muchos los que aplaudíamos. El mural estaba ali. Lindo, belíssimo, nuestro. Com um poco de cada uno. Com la história del barrio y con lo sueños. Oscureció lentamente. Todos los que el 25 de octubre de 2009 estivimos em la esquina de Luis Viale y Rojas supimos que esse día algo habia cambiado (SCHER, 2010b).