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6 Oppsummering og diskusjon

6.1 Oppsummering og tolkning av funn

6.1.4 TIMSS-oppgaver

Considerando-se os aspectos presentes na concepção durkheimiana da religião, veremos que ela difere das concepções marxistas, ainda mais quando objetivamos aplicar a referida análise a dois fenômenos contemporâneos – o Espiritismo kardecista e o neopentecostalismo, representado pela IURD. Num primeiro momento, podemos dizer que o Espiritismo Kardecista e a própria Universal, são expressões religiosas que traduzem aspectos de nossa sociedade. O kardecismo, com o seu preceito moral e ético e a teoria da reencarnação e, a Universal com sua imediaticidade e individualização potencializada do religioso, transformam o religioso enquanto eminentemente questão de foro íntimo, como dissemos anteriormente.

Comecemos pelo Espiritismo kardecista. Evidentemente, a teoria espírita, toda a teoria espírita, reflete elementos presentes no século XIX, onde temos uma sociedade que se pauta efetivamente pela racionalidade e pela ciência. O Espiritismo kardecista se propõe a ser uma religião, uma filosofia e uma ciência. Através da ótica durkheimiana, cremos que primeiramente devemos abordar a questão da significação e representação das “mesas mediúnicas” na fase inicial do Espiritismo kardecista, enquanto posse do sagrado. As “mesas mediúnicas” trouxeram para o campo do profano a perspectiva da posse do sagrado e dos mistérios por parte de indivíduos “comuns”, ao mesmo tempo em que é a partir de uma elite de letrados para os quais as manifestações irão se realizar.

Instaura-se, a partir das “mesas mediúnicas”, a própria ritualística presente no Espiritismo kardecista. Essa ritualística manifesta toda uma concepção de sociedade, toda uma concepção de um “outro mundo”, que funcionaria aos próprios moldes da sociedade na qual estão contidos os crentes espíritas. Há nesta visão e ritualística padrões morais e éticos que são ensinados, bem como pode-se perceber a presença de hierarquizações no plano espiritual aos moldes da sociedade. Profano e sagrado na ritualística espírita se interconectam, pois o mundo dos espíritos possui, em planos

distintos, hierarquizados, portanto, espíritos de luz e espíritos das trevas, que devem ser doutrinados, para que saiam de um plano de sofrimentos. Ora, indivíduos e grupos no contexto da sociedade real, objetiva, como demonstrará Durkheim, necessitam internalizar os padrões comportamentais aceitos pela sociedade como preceitos morais e éticos. No mundo dos espíritos, não acontece de forma diferente, podendo-se verificar então a “correção” das assertivas de Durkheim na relação que ele faz entre sagrado e profano e entre sociedade real e sociedade ideal que é o religioso.

Consideramos de grande relevância a análise durkheimiana da reencarnação, realizada nas Formas Elementares da Vida Religiosa. No próprio pressuposto da referida obra – partir do mais elementar para o geral – Durkheim constata que a doutrina da reencarnação somente foi estudada entre as tribos da Austrália central. Mas nosso autor de referência constata que essa doutrina teve larga expansão. Durkheim analisa a doutrina da reencarnação pormenorizadamente nas tribos primitivas, sem fechar o caminho para a sua presença nas sociedades mais desenvolvidas.

O ponto de partida na doutrina da reencarnação estaria nas crenças totêmicas. É a partir destas crenças que se realiza a separação entre corpo e espírito, ou seja, o corpo seria dotado de uma alma que sobreviveria após a morte do corpo. A análise durkheimiana de alma é essencial para podermos trabalhar cientificamente com este elemento fundamental da doutrina espírita – a reencarnação. Afirma Durkheim o seguinte:

A noção de alma é, assim, uma aplicação particular das crenças relativas aos seres sagrados. Com isso explica-se o caráter religioso apresentado por essa idéia desde que surgiu na história e que conserva ainda hoje. A alma, com efeito, sempre foi considerada como coisa sagrada; por essa razão, opõe-se ao corpo que, por si mesmo é profano. Não se distingue do seu invólucro material unicamente como interior e exterior; não vem representada simplesmente como constituída de matéria mais sutil, mais fluída; mas, além disso inspira algo daqueles sentimentos que por toda a parte são reservados ao que é divino. Se não se faz dela um deus, pelo menos, é vista como uma faísca da divindade. Esse caráter essencial seria inexplicável se a idéia de alma fosse apenas uma solução pré-científica apresentada para o problema do sonho: porque, como não há nada no sonho, que possa despertar a emoção religiosa, a causa pela qual é explicada não poderia ser de outra natureza. Mas se a alma é uma parte da substância divina, representa em nós algo diferente de nós mesmos; se é constituída da mesma matéria mental que os seres sagrados, é natural que seja objeto dos mesmos sentimentos( DURKHEIM, 1989, p: 322).

O Espiritismo kardecista, em sua doutrina da reencarnação, concebe a presença da alma e do espírito da seguinte maneira: a alma é “a parcela do divino” que nos habita em vida, enquanto que o espírito é “a parcela do divino” que permanece após a nossa morte. De forma pré-científica, o sonho seria o indício da presença de “um outro ser” em nós, mas constata Durkheim que o sonho em si mesmo não “desperta a emoção religiosa”, na medida em que ele não é concebido enquanto uma “faísca da divindade”. Afirma ainda nosso autor de referência:

Eis o que há de objetivo na ideia de alma: as representações cuja trama constitui a nossa vida interior são de duas espécies diferentes e irredutíveis uma à outra. Umas estão em relação com o mundo exterior e material; as outras com um mundo ideal ao qual atribuímos uma superioridade moral sobre o primeiro. Portanto, somos realmente constituídos de dois seres que se orientam em sentidos divergentes e quase contrários, e dos quais um exerce sobre o outro verdadeira preeminência. Tal é o sentido profundo da antítese que todos os povos conceberam mais ou menos claramente entre corpo e alma, entre o ser sensível e o ser espiritual que coexistem em nós. Moralistas e pregadores sustentam muitas vezes que não se pode negar a realidade do dever e o seu caráter sagrado sem cair no materialismo. E, com efeito, se não tivéssemos a noção dos imperativos morais e religiosos, nossa vida psíquica seria nivelada, todos os nossos estados de consciência estariam no mesmo plano e todo o sentimento de dualidade desapareceria. Certamente, para tornar essa dualidade inteligível, absolutamente não é necessário imaginar, sob o nome de alma uma substância misteriosa e irrepresentável que se oporia ao corpo. Mas aqui, como quando se tratou da noção de sagrado, o erro está sobre a forma de símbolo empregado, não na realidade do fato simbolizado. É sempre verdade que a nossa natureza é dupla; existe realmente em nós uma parcela da divindade porque há em nós uma parcela daqueles grandes ideais que são a alma da coletividade. A alma individual, portanto, não é senão uma porção da alma coletiva do grupo; é a força anônima que está na base do culto, mas encarnada em indivíduo cuja personalidade assume; é o mana individualizado (DURKHEIM, 1989, p:324-325).

Durkheim, não negará a existência da dualidade no humano que somos. Mas esta dualidade envolve a presença de uma realidade objetiva e de uma realidade ideal que constitui a nossa personalidade individual. O divino que há em nós é consequência do fato de sermos seres sociais, é expressão do processo de internalização da realidade objetiva. Este processo permite a compreensão da realidade objetiva, a apreensão por parte de indivíduos e grupos da facticidade do contexto social, pois se constituem e configuram-se papéis sociais, identidades, padrões comportamentais, condutas, visões de mundo e de homem os quais serão parte constituinte da personalidade individual.

A doutrina espírita kardecista da reencarnação, não foge a estes pressupostos sociológicos que Durkheim aponta. Ela é basicamente uma realidade ideal, que estabelece repertórios de ações individuais e coletivas para indivíduos e grupos. É uma

forma explicativa da relação sagrado e profano. Alan Kardec afirma o seguinte: “Há no homem um princípio inteligente que se chama ALMA ou ESPÍRITO, independentemente da matéria e que lhe dá o senso moral da faculdade de pensar ( KARDEC, 2001, p:31).” Retornemos a Durkheim, quando este aponta que:

[...] a doutrina da reencarnação, cuja generalidade definimos, mostra tudo o que há de elementos impessoais na ideia de alma e sua importância essencial. Porque, para que uma mesma alma possa revestir uma personalidade nova a cada geração é preciso que as formas individuais que assume sucessivamente lhe sejam todas igualmente exteriores e não estejam ligadas à sua verdadeira natureza. Trata-se de uma espécie de substância genérica que não se individualiza senão secundária e superficialmente. Aliás, essa concepção de alma está longe de ter totalmente desaparecido. O culto das relíquias demonstra que, ainda hoje, para a multidão dos crentes, a alma de santo continua aderindo aos seus vários ossos, com todos os seus poderes essenciais; o que implica que a compreendamos como capaz de difundir, de se incorporar simultaneamente a toda espécie de coisas diferentes (DURKHEIM, 1989, p: 325).

De certa forma, devemos compreender que não há como perceber-se o sagrado sem a presença da noção de alma, pois esta é inerente ao próprio sagrado. O Espiritismo kardecista não foge a esta determinação sociológica estabelecida por Durkheim. E porque que não foge? A ideia de imortalidade está colocada no transcurso do homem em toda a sua história. Durkheim, considerando o primitivo, desenvolve a concepção de que “se admitiu a sobrevivência dos mortos para explicar o nascimento dos vivos”(p:329). De certa forma, este é o elo da doutrina da reencarnação, tanto para os povos primitivos como na contemporaneidade, no Espiritismo kardecista.

A contribuição da teoria durkheimiana para a compreensão da Igreja Universal do Reino de Deus é inconteste. Na ótica durkheimiana, é a coercibilidade do contexto social a força motriz para o surgimento de determinado fenômeno religioso, formador de uma consciência coletiva determinante das consciências individuais. Durkheim estabelece que a realidade objetiva permite a construção de uma segunda realidade, uma realidade ideal, que se expressa por um sentido de vida através das representações simbólico-religiosas.

A concepção de religião como uma comunidade moral, à qual se ligam os indivíduos, permite-nos, no que tange à análise do fenômeno Universal do Reino de Deus, a própria percepção da constituição do que podemos denominar de uma personalidade grupal. Também permite a compreensão do significado presente nas

práticas discursivas e não discursivas dos crentes da referida Igreja que nela encontram uma reeducação dentro de uma moral.

A concepção sociológica da religião em Durkheim incorpora em si a abordagem de igreja. Abordagem esta que demonstra o caráter coletivo do fenômeno religioso e, em assim sendo, seu caráter social. Esta concepção permite demonstrar ser a Universal, reflexo das determinações presentes no contexto da sociedade brasileira e que esta se expressa como uma forma encontrada pelos segmentos subalternos de traduzirem esta mesma realidade.Estes segmentos constituem o centro da atenção da Universal.

Durkheim (1989), ao referir-se à significação do culto, considera-o como um instrumental do qual indivíduos e grupos se apropriam, estabelecendo repertórios específicos de ações individuais e coletivas, sendo que este capacita maneiras de atuar objetivas e subjetivas e é neste sentido que ele (culto), expressa, toda a sua eficácia. Sugerimos aqui que o caráter e a eficácia do culto, na concepção durkheimiana, transposta para o contexto da análise da Universal e de seus crentes, assume uma significação exemplar, uma vez que permite clarificar aspectos que refletem a sociedade e a concepção desta por parte dos indivíduos e grupos, uma vez que a religião não pode se expressar sem o culto, forma de representação da sociedade.

O culto, no contexto da Universal, assume características claras de um grande programa de auditório, demonstrando a incorporação neste, de aspectos televisivos das grandes redes de comunicação. Neste sentido, a sociedade reduz-se à imediaticidade e acriticidade dos programas de auditório. A conduta diante das transformações sociais perde o caráter coletivo e assume o caráter individualista daquele que quer arriscar e realizar um desafio para com Deus, após realizar as suas contribuições e ser fiel nos dízimos e ofertas, em vez de comprar o carnê do “ Baú da Felicidade”.