6 Oppsummering og diskusjon
6.1 Oppsummering og tolkning av funn
6.1.2 Den vertikale analysen
Neste momento da presente tese, buscaremos trabalhar a concepção marxista de religião, que envolve a compreensão da religião enquanto ideologia e, podemos dizer, enquanto ilusão. Para tanto, o Espiritismo kardecista e a Igreja Universal do Reino de Deus, denominada IURD, constituem-se como fenômenos religiosos contemporâneos, que permitem trabalhar-se com os pressupostos marxistas.
Há no Espiritismo kardecista um elemento que consideramos fundamental, pois é fonte explicativa de elementos constantes na realidade cotidiana, na vida vivida de indivíduos e grupos. Este elemento é a teoria da reencarnação. Ela tem por base a constituição de uma estrutura de plausibilidade do mundo, principalmente diante da morte e dos sofrimentos vividos por parte de indivíduos e grupos. Na teoria da reencarnação, encontramos como fonte chave o resgate em que se constitui a vida presente, ou seja, nossa vida presente é um resgate dos males praticados no passado, é, a dívida que devemos pagar para nos irmos aprimorando em nossas sucessivas reencarnações até nossa morte. Entendemos que a teoria da reencarnação funciona como uma espécie de “narcótico”, ou lenitivo, para os sofrimentos de qualquer ordem em nossa vida cotidiana atual. É uma forma de justificação, um “porquê” o qual permite o entendimento da dor em todas as suas dimensões. Talvez isto nos dissessem os marxistas se pudessem analisar, investigar e interpretar o kardecismo na contemporaneidade.
Se pensamos em Marx, com a sua crítica da religião, poderemos verificar que o Espiritismo kardecista, principalmente com a sua teoria da reencarnação, é, fundamentalmente uma forma de justificativa da ordem social. Dentro deste aspecto de justificação do existir presente, não poderia haver nenhuma forma de transcendência da realidade objetiva vivida, pois, se nossa vida é um eterno resgate, o que pode efetivamente ser modificado? Que estrutura social e que consciência para si seria possível? Afirma Kardec:
A cada existência corporea, o Espírito devendo adquirir alguma coisa de bem e se despojar de alguma coisa de mal, disso resulta que, depois de um certo número de encarnações, ele se encontra depurado e chega ao estado de Espírito puro. O número das existências corppreas é indeterminado: depende da vontade do Espírito abreviá-lo trabalhando ativamente pelo seu aperfeiçoamento moral(KARDEC, 2001, p: 37).
Dentro desta concepção de homem e de mundo há um movimento de reforço à ordem estabelecida, pois encontra-se plenamente individualizada a religião internalizada, não se consubstanciando em fato coletivo, mas em fato de foro íntimo, individual, portanto. E, considerando-se estes aspectos, a força motivacional para um movimento revolucionário possível estaria obstaculizado, pois a revolução, a transformação e a transcendência do real vivido, em termos sociais, é basicamente coletivo e não individualizado.
Nascer, conforme o Espiritismo kardecista, é vir ao mundo para resgatar uma dívida. E, neste sentido, podemos, aplicando a lógica marxista, perguntar o que pode efetivamente ser mudado? Há aqui o pressuposto mesmo de uma forma de ilusão, que retira do homem as suas dimensões humanas e as transporta para o transcendente, para um outro mundo, mundo este que o homem não conhece e não pode conhecer, mesmo que concebamos que existam dimensões que ainda não podemos efetivamente conhecer, pois há sempre o “devir” da descoberta no mundo do homem.
O preceito moral fundamental, presente no Espiritismo kardecista, é a caridade. O homem, no resgate de sua dívida a resgata enquanto um ser efetivamente caridoso que deve dar de si sem nada receber em troca. Ora, a caridade, diante das contradições da realidade objetiva do mundo vivido, funciona enquanto uma forma de paliativo, não permitindo à consciência a percepção das mesmas contradições vivenciadas, pois a dívida deve ser resgatada, pois: “A alma do homem é feliz ou infeliz depois da morte, segundo o bem ou o mal que fez durante a vida ( Kardec, 2001, p: 33). E, numa crítica aos materialistas, Kardec aponta que: “As doutrinas materialistas são incompatíveis com a moral e subversivas da ordem social (Kardec, 2001, p:31). Segundo a teoria marxista, as transformações, mais radicalmente a própria revolução deve ser realizada a partir das contradições presentes na sociedade. A ordem social desigual deve ser modificada pela ação expressa do homem em seu estar no mundo. Diante deste aspecto, a concepção espírita kardecista, em sua forma de apresentar a fé cristã, em suas práticas discursivas e não discursivas, estaria, enquanto concepção de mundo e de homem, obstaculizando transformações estruturais no contexto das sociedades.
O Espiritismo kardecista expressaria uma forma de aceitação da ordem vigente. E é neste sentido que esta “ideologia” legitimaria essa mesma ordem, com sua
desigualdade de classe e com todas as contradições dela advindas. Se as determinações da realidade social se convertem em “determinações cósmicas”, espirituais, estas mesmas determinações se sacralizam, assumem uma dimensão sagrada, que terminam por tornar legítimas as ações do homem no mundo, bem como das instituições sociais. As legitimações religiosas respaldam a existência social, assumindo dimensão objetiva.
Com relação à Igreja Universal do Reino de Deus – IURD, encontraremos aspectos diferenciados, mas um aspecto comum com o Espiritismo kardecista, que expressa o próprio religioso na contemporaneidade – a religião não é mais fato coletivo em essência, mas hoje é fundamentalmente individualizada. Sobre o indivíduo recai a própria busca pela salvação. No que tange à IURD, considerando-se os pressupostos marxistas, também podemos dizer que se trata de uma ideologia, de uma forma de ilusão que não levaria o homem a transformar sua realidade, mas de legitimá-la.
Considerando-se estes aspectos preliminares, não parece possível pensar o crente da IURD, distante das múltiplas determinações da sociedade, que são contraditórias. A força motivacional de sua conduta de adesão é a mesma que move os crentes das demais religiões, mas o que se constata ser diferenciado no contexto da Universal é a sua forma de apresentar a fé cristã e construir um modelo de práticas que referenciam padrões comportamentais dos indivíduos que a ela aderem, os quais acabam por construir suas subjetividades, a partir de um universo de representações simbólico-religiosas que se regem pela acriticidade, heterogeneidade, imediatismos, dogmatismos e fragilidade diante do questionamento do real, melhor dizendo, da realidade objetiva vivenciada por estes indivíduos e grupos.
O universo de representações simbólico-religiosas da Universal aprova e ratifica os padrões comportamentais aceitos pela sociedade e restringe a manutenção das antigas condutas religiosas tradicionais contrárias ao modelo sócio-religioso. Neste sentido, verifica-se uma forma de reorganização pela prática discursiva adotada (do aqui e do agora – do imediatismo das ações), das condutas dos indivíduos a partir de suas subjetividades, na medida em que a realidade, em segundo nível é reflexo da internalização ou interiorização do mundo social, do contexto externo.
A Universal potencializa a individuação do religioso. A questão religiosa é essencialmente potencializada enquanto de foro íntimo. Considerando-se novamente os
pressupostos marxistas, a potencialização das subjetividades é fonte motivacional da alienação, no sentido de estar desprovido de si, por parte destes indivíduos e grupos de crentes. Que capacidade reivindicativa, transformadora e libertadora pode haver quando tudo se restringe ao âmbito puramente individual, subjetivo?
A prática discursiva da Universal do imediatismo do aqui e do agora, não permite a conscientização dos movimentos e processos que abarcam toda a historicidade. Esta imediaticidade não permite o trabalho consciente de ver a si mesmo contextualizado, pertencente a um determinado contexto histórico. Assim sendo, a ordem social fica devidamente legitimada pela conduta de indivíduos e grupos, os quais, não se contextualizando, não podem perceber as transições necessárias a todo processo histórico.
Ilusão? Dentro de uma ótica marxista – ilusão. Estar restrito ao imediato da existência é estar determinado pelas múltiplas determinações do real e a consciência para si, repetimos, fica obstaculizada, porque obstaculizado está o processo de coletivização do religioso, traço marcante de nossa contemporaneidade.