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Tilstand – samlet

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3.3 Tilstand

3.3.1 Tilstand – samlet

Sabe-se que a linguagem poética não pressupõe necessariamente rebuscamento, formalismo, ordem indireta, períodos longos, imagens muito elaboradas, vocabulário incomum etc.. De fato, não são esses os aspectos encontrados no código linguístico das canções para crianças. Diferentemente, buscando atender as especificidades do público infantil, verifica-se uma linguagem que permite e incentiva o acesso das crianças na construção dos efeitos de sentido do texto. Isso é possível através do recurso a uma linguagem simples, acessível, coloquial, espontânea, com pouco monitoramento, própria das interações familiares ou íntimas e entre as crianças, principalmente durante as brincadeiras, destacando- se, dentre essas, as brincadeiras cantadas de origem popular, as quais utilizam predominantemente a linguagem oral. O uso dessa linguagem, nas canções, é feito de modo eficiente, produzindo um efeito de empatia entre os interlocutores e facilitando a memorização e, consequentemente, a reprodução, a repetição dessas canções. Alguns dos elementos que caracterizam essa linguagem e que identificamos com frequência nas canções para crianças são:

a) vocabulário que se refere ao cotidiano da criança, abordando temas como brincadeira, animais, partes do corpo, números, letras, alimentação, higiene, todos, frequentemente, tratados em um contexto de alegria, como pode observado nos trechos abaixo.

Gosto quando vou brincar na rua / Gosto quando encontro meu amigo / Gosto quando a mãe do meu amigo / Me oferece uma bolacha / De água e sal (“Bolacha de água e sal”, Paulo Tatit, por Palavra Cantada, 2005).

Uma mochila cheia de ca ramelo / Outra mochila só de amendoim / E puxa, puxa eu quero mais marshmallow (“Gula, tá amarrada”, Solange César / Beno César, por Aline Barros, 1999)

Vamos pular como um macaco / Ele adora pular/Imitando o elefante, um elefante / Com a tromba pra lá e a tromba pra cá (“Bichos” (“So Many Animals”), Andrew Martin Einspruch / Harriott Christopher Bernard. Versão: Vanessa Alves, por Xuxa, 2004).

b) formas reduzidas ou contraídas

Então tá combinado / Então tá tudo trocado / Então tá tudo mudado (“Então tá combinado”, Paulo Tatit / Zé Tatit, por Palavra Cantada, 2012).

Vai ter bolo, balão, brincadeira / Vai ter doce, refri e surpresa (“Dia de festa”, Gislaine / Mylena, por Aline Barros, 2014).

Se eu tô feliz / Muito feliz / Eu dou um sorrisão (“Há, há, há”, Wolf David Bernard. Versão: Vanessa Alves, por Xuxa, 2004).

c) expressões populares

Então levanta da cadeira / Vê se não ma rca bobeira / Essa é a dança das caveiras” (“Vem dançar com a gente, Paulo Tatit, por palavra Cantada, 2012).

A bíblia conta história / História tão bacana / História da mulher samaritana” (“Mulher samaritana, Beno César / Solange de César, por Aline Barros, 2011).

Se bobear, vão te pegar / Corre, corre, muda de lugar (“Dança da cadeira”, Vanessa Alves / Maurício Gaetani de Pinho, por Xuxa, 2007).

d) ordem direta

Segunda-feira tenho aula de inglês / Na terça-feira curso de computação / Na quarta-feira faço uma terapia (“Agenda infantil”, Paulo Tatit / Zé Tatit, por Palavra Cantada, 2012). Hoje é dia de alegria e vai rolar muita diversão / Vamos para o parque / Com toda a família, mamãe, papai, vovô, vovó, titia (“Dia de parque”, Josias Teixeira / Júnior Maciel, por Aline Barros, 2014).

Eu adoro dançar com o Txutxucão / Gosto muito de dançar com ele / Dançamos de tudo um pouco (“Eu adoro dançar”, Pat Alexander. Versão: Vanessa Alves, por Xuxa, 2013).

e) marcas de oralidade

A pulguinha tão ligeira pula logo pra barriga/Tudo é uma brincadeira, você quer ser minha amiga? (“Pulguinha”, Paulo Tatit / Edith Derdyk, por Palavra Cantada, 1996).

Tririm tririmrim, tririm trimrimrimrimrim/Ei, meu telefone tá tocando, alô!/Ah, conta comigo, eu vou! (“Dia de festa”, Gislaine / Mylena, por Aline Barros, 2014).

Vamos lá ! Quero ver! Nessa roda o bobinho é você (“Bobinho”, Vanessa Alves / Ary Dias Sperling, por Xuxa, 2007).

f) frases curtas

Eu passei de carro (bibi fonfon) / Já andei de cavalinho (ploc ploc ploc) / Aqui tem muito passaririnho (piu piu piu piu) / Acho que eu vi um gatinho (miau miau)(“Eu sou um bebezinho”, Paulo Tatit, por Palavra Cantada, 2012).

Bate palminha para louvar / Feche os olhinhos para orar / Mexe o corpinho para dança r (“Dada gugu”, Anderson Freire, por Aline Barros, 2011).

Todo mundo fechando os olhos, / Todo mundo pensando em alguém / Veja agora um lindo lugar / Va mos brincar de sonhar (“Brincar de sonhar”, Vanessa Alves / Ary Dias Sperling, por Xuxa, 2007).

Um outro aspecto dessa linguagem familiar que merece destaque é a interação com o interlocutor, ou seja, o público infantil. Através dela busca-se tanto orientar a atenção quanto a ação do público. Essa comunicação direta com as crianças, que se dá, principalmente, por meio de sequências injuntivas, remete a situações corriqueiras da vida infantil, como, por exemplo, aquelas em que a mãe visa a ensinar algo para o filho ou a professora, para os alunos ou ainda quando uma criança assume o papel de líder e apresenta uma nova brincadeira.

Olha só o que eu achei / Nessa velha escrivaninha / Uma autêntica varinha mágica / Você pensa que é mentira (“Duelo de mágicos”, Paulo Tatit / ZéTatit, por Palavra Cantada, 2009) “Bota a mão no pé, se sabe onde é / Bota a mão no nariz / Se sabe o que diz / Bota a mão na boca, na orelha / Na bochecha e no cabelo / Quero ver você beijar o cotovelo!” (“Tim-tim por tim-tim”, Josias Teixeira / Júnior Maciel, por Aline Barros, 2014)

“Vem brincar, que o circo já chegou / Vem sorrir, que o circo já chegou / Vem dançar, que o circo já chegou / Vamos bater palmas, porque o circo já chegou” (“O circo já chegou”, Vanessa Alves / Mauricio Gaetani de Pinho / Ary Dias Sperling, por Xuxa, por 2004).

Segundo o que foi demonstrado aqui, o código de linguagem tem um papel fundamental no estabelecimento do caráter infantil e lúdico da canção para criança, pois compreende um uso linguístico particular que se caracteriza, principalmente, por seu caráter coloquial e poético que simula, por um lado, o uso ordinário que a criança faz da linguagem, e, por outro lado, a linguagem com que geralmente são enunciadas as brincadeiras infantis populares: cantigas de roda, trava-língua, parlendas etc.

Assim como a linguagem utilizada rotineiramente pelas crianças no seu dia a dia e nas brincadeiras, a das canções para crianças não se prende a formalismos ou rebuscamentos, pois isso, além de não favorecer a compreensão por parte da criança, ainda se distanciaria daquela da linguagem com a qual as crianças estão familiarizadas, o que poderia levar o público infantil a não se identificar com as canções.

Ressaltamos, contudo, que a linguagem com que é enunciada a canção para crianças trata-se de um recorte linguístico que ao mesmo tempo em que busca retratar ou se aproximar da linguagem utilizada pelas crianças acaba por também se distanciar, visto que, de fato, não há uma representação da linguagem infantil, mas o recurso a uma linguagem que o DLBC julga não só ser aquela com que se deva enunciar para crianças mas também aquela que deve servir de modelo para as próprias crianças. Isso pode ser percebido, por exemplo, no fato de não constar, no código linguístico da canção para crianças, transgressões gramaticais, as quais são comuns na fala das crianças.

Podemos dizer, no entanto, que o código linguageiro com que o DLBC é enunciado recebe tanto investimento infantil, uma vez que apresenta marcas da linguagem utilizada pelas crianças no dia a dia, quanto lúdico infantil, por conta de ser todo ele poético, sendo a organização dele através de versos rimados já suficiente para apontar esse caráter lúdico infantil, pois essa organização remete àquela de práticas discursivas lúdicas infantis. A seguir, analisaremos as relações metadiscursivas, intertextuais e interdiscursivas e buscaremos verificar como esses fenômenos corroboram para qualificar a canção destinada ao público infantil enquanto um discurso lúdico para crianças.

6.4 Metadiscurividade

A metadiscursividade de que tratamos aqui compreende aquela em sentido amplo (COSTA, 2012), ou seja, aquela segundo a qual o discurso de um locutor tematiza a própria enunciação ou seu próprio discurso, tomando a si mesmo ou sua própria enunciação/discurso como outro.

No âmbito da canção popular, Costa e Bezerra (2004) apresentam duas formas principais de metadiscursividade: a metacanção, que compreende a canção que tematiza a própria enunciação de forma explícita, referindo-se à própria canção executada, ou de forma implícita, quando o enunciador refere-se ao gênero da canção executada ou a instrumentos utilizados na execução também da própria canção; e a canção metadiscursiva, que, sem tematizar diretamente a si mesma, refere-se a seu campo discursivo, contemplando, assim, o contexto topográfico e cronográfico que possibilitaram a produção e a execução musical.

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