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Tap – samlet

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3.1 Tap

3.1.1 Tap – samlet

Sobre o ethos infantil já começamos a falar quando apresentávamos as cenografias conversacionais, particularmente, aquelas em que enunciador mostra-se como criança. Na ocasião, todavia, não utilizamos o termo “ethos”, mas o seu conceito, dizendo que a imagem que o enunciador construía de si ao enunciar era a de uma criança.

Neste momento, buscaremos abordar de modo mais direcionado o ethos infantil. Para isso, lançaremos mão das canções a seguir.

Mamãe um minutinho já vou / Agora não posso parar / Espera um pouquinho já vou / É só um minutinho, rapidinho já vou / Primeiro, maior perigo / Segundo, estou ferido / Terceiro, voar bem alto / O inimigo já está no alvo / Mamãe um minutinho eu preciso acabar / Com um tiranossauro / Mamãe um minutinho já vou / Agora não posso para r / Espera um pouquinho já vou / É só um minutinho, rapidinho já vou / Primeiro, a bonequinha / Segundo, abre a boquinha / Terceiro, come a papinha / Minha filhinha é uma princesa / Mamãe um minutinho eu preciso acaba r / De dar a sobremesa (“Um minutinho”, Paulo Tatit, por palavra Cantada, 2012).

Hoje é dia de alegria e vai rolar muita diversão / Vamos para o parque / Com toda a família, mamãe, papai, vovô, vovó, titia / Churros, pipoca com gua raná / Algodão doce pra se lambuzar / Vou na roda gigante, e no / Pula pula, e no carrossel vamos gira r / Gira, gira, gira, oh / Sobe, desce, sobe, desce, pula, pula, escorrega / Dia de parque, tudo é festa / Sobe, desce, sobe, desce, pula, pula, escorrega / Jesus com a gente / A vida é sempre festa amém (“Dia de parque”, Josias Teixeira / Júnior Maciel, por Aline Barros, 2014).

De todas as brincadeiras que eu gosto, a melhor é pular corda / (É pular corda) (2x) / Faz bem à saúde / Movimenta o corpo / De todas a s brincadeira s que eu gosto, a melhor é pular corda / De todas as brincadeira s que eu gosto, a melhor é pular corda / (É pular corda) (2x) / É o maior barato / Treme o cora ção / De todos os esportes que eu faço, o melhor é pula r corda / (É pula r corda) / Um homem bateu em minha porta, / E eu abri / Senhoras e senhores, ponham a mão no chão / Senhora s e senhores, pulem de um pé só / Senhoras e senhores, dêem uma rodadinha / E vá pro olho da rua / Pula, pula, pula, pula, pula, pula sem parar (2x) / É pular corda ! / Um homem bateu em minha porta, / E eu abri / Senhoras e senhores, ponham a mão no chão / Senhora s e senhores, pulem de um pé só / Senhoras e senhores, dêem uma rodadinha / E vá pro olho da rua / Pula, pula, pula, pula, pula, pula sem parar (3x) (“Pula corda”, Chico Roque / Ed Wilson, por Xuxa, 2007).

Nessas três canções, o ouvinte é levado a construir a representação do enunciador como uma criança. Isso porque a “voz” de onde procede a enunciação apresenta marcas que assim o definem, as quais veremos na sequência. Essa “voz”, como temos mostrado, associa- se a um “corpo enunciante” definido sócio-historicamente. A noção de ethos, portanto, desenvolvida por Maingueneau (2010), visa articular corpo e discurso, seja este oral ou escrito, e é coextensiva a toda enunciação.

Na três canções, essa personalidade infantil do enunciador pode ser percebida a partir de índices que são dados pela enunciação: escolhas lexicais, como vocabulário de ordem familiar (papai, mamãe, vovó, vovô, titia), de ordem alimentar (papinha, algodão doce, pipoca, guaraná...) e do campo da brincadeira (tiranossauro, bonequinha, pula-pula, carrossel, pular corda ...), assim como uso de diminutivos (minutinho, papinha, rodadinha ...), de estruturas sintáticas simples (apresentando, de um modo geral, períodos simples e ordem) e de expressões coloquiais (“é só um minutinho”, “vai rolar muita diversão”, “é o maior barato”...).

O conteúdo da canção e a maneira através da qual esse conteúdo é tratado em cada uma das canções referidas também apontam para um enunciador infantil. Na canção “Um minutinho”, temos a cenografia de um diálogo em que aparece, primeiramente, um menino que, supostamente respondendo a um chamado da mãe, pede para que ela espere “um minutinho” enquanto ele termina uma brincadeira, a qual consiste numa aventura em que precisa derrotar um tiranossauro. Já na segunda parte da canção a simulação de diálogo se dá entre uma menina e a mãe. Aquela, assim como o menino, também pede que a mãe aguarde um pouco a fim de terminar de alimentar sua bonequinha, ou seja, para que possa concluir sua brincadeira.

Vê-se, portanto, duas crianças adiando o pedido da mãe em razão de brincadeiras, pois estas não podem esperar. A demora em atender ao chamado da mãe, no entanto, não se dá através de uma fala rebelde ou desrespeitosa, assim como as crianças também não ignoram esse chamado. Antes, as crianças demonstram que ouviram o pedido da mãe, que vão atendê- lo, mas que querem apenas “um minutinho” para terminar as brincadeiras que estavam em curso quando ocorreu o chamado.

Na cenografia de diálogo entre mãe e filho que a canção apresenta, aquele ou aquela que assume o papel desse filho (a) não poderia ser senão, pelas marcas da enunciação, uma criança. E na construção da personalidade desses filhos, enquanto crianças, a brincadeira foi o elemento que mais se destacou. Basta notarmos que é em torno da brincadeira que se dá a maior parte da enunciação.

Vale ressaltar também que a brincadeira não está sendo tematizada por um adulto ou alguém que está fora dela. Antes o que ocorre é a própria encenação da brincadeira e dela participam as crianças como protagonistas. Interessante perceber ainda que a cenografia é a de uma conversa, na qual também são encenadas brincadeiras que por sua vez configuram-se também como cenas de diálogo (o menino conversa consigo mesmo ou com um ser imaginário para quem apresenta os acontecimentos da aventura: “Primeiro, maior perigo /

Segundo, estou ferido / Terceiro, voar bem alto / O inimigo já está no alvo”; a menina

conversa com a bonequinha: “Primeiro, a bonequinha / Segundo, abre a boquinha / Terceiro,

come a papinha / Minha filhinha é uma princesa”). Esse encaixamento de uma cena em outra busca dar conta justamente de uma situação heterogênea como aquela que se pretende mostrar, a saber, a de brincadeiras no cotidiano das crianças que frequentemente aparecem entrecortadas pela fala daqueles que estão por perto das mesmas, seja com o intuito de chamá- las para outros afazeres, como estudar, comer, tomar banho etc. seja para fazer algum alerta, mesmo em relação à brincadeira, para dar algum aviso etc. A simulação desse dia a dia infantil apresenta-se, assim, como uma estratégia para que o público se identifique e venha a aderir ao universo representado.

Por sua vez, na canção “Dia de parque”, temos uma enunciação em primeira pessoa que fala acerca de um “dia de parque”, que é um dia de diversão, em que reúne a

família, em que se come guloseimas, em que se brinca etc.. O enunciador que fala sobre tudo isso de modo empolgado não poderia ser senão uma criança. Além disso, a criança é caracteristicamente o indivíduo que deve sair acompanhado dos pais ou responsáveis, diferentemente, por exemplo, do que costuma acontecer com os adolescentes que saem com os amigos ou dos adultos que podem sair sozinhos, com namorado (a), esposo (a) etc. O parque em si já é uma atração predominantemente infantil, o que não significa dizer que outras gerações não apreciem. Considerando também os brinquedos, com exceção da roda gigante, nos quais o enunciador demonstra brincar, nesse parque, a saber, “pula-pula”,

“escorrega” e “carrossel”, evidencia-se ainda mais o perfil infantil de quem assume a

enunciação, pois são brinquedos considerados de pouca emoção e mais seguros, portanto, recomendados para o público infantil.

O aspecto de se “lambuzar” ao degustar o algodão doce também aponta para um

locutor mais preocupado com a sensação de prazer proporcionada não só pela comida em si mas também por aquilo que o ato de comer envolver, como o “labuzar”, do que com regras de etiqueta, comumente seguidas pelos adultos.

Já na canção “Pula corda”, o enunciador fala sobre a sua brincadeira favorita, pular corda. Ele é alguém, portanto, adepto de brincadeiras e que escolhe uma marcadamente infantil como sua preferida. Sabe-se que o pular corda é uma atividade também entre os adultos, mas, nesse contexto, não costuma ser uma atividade lúdica, antes os adultos aderem a essa prática como um exercício físico, com finalidades práticas. A brincadeira de pular corda, todavia, acompanhada da canção “Um homem bateu em minha porta”, é caracteristicamente infantil e visa a um fim em si mesmo. É pelo prazer que ela proporciona que as crianças

brincam, o que não significa que não tenha efeitos práticos. Apenas não são estes, entre as crianças, a motivação de se brincar.

O ethosinfantil construído nas canções “Um minutinho”, “Dia de parque” e “Pula

corda” está associado à brincadeira, dando a entender que há uma relação direta entre a

identidade infantil e a brincadeira. Na verdade, existe sim essa relação, sendo praticamente impossível pensar em um elemento e não pensar no outro. No entanto, em algumas canções, na construção do ethos infantil não aparece a brincadeira, o que não significa que a criança representada não brinque. Antes se busca apresentar outros aspectos da vida infantil, que também são constitutivos da infância. Tomemos, como exemplo, a canção “Aniversário”,

presente no álbum “Canções de brincar”, da Palavra Cantada.

Aniversário / Hoje eu sinto que cresci bastante / Hoje eu sinto que estou muito grande / Sinto mesmo que sou um gigante / Do tamanho de um elefante / É que hoje é meu aniversário / E quando chega meu aniversário / Eu me sinto bem maior, bem maior, bem maior, bem maior / Do que eu era antes (“Aniversário”, Paulo Tatit / Luiz Tatit, por Palavra Cantada, 1996).

Como se pode perceber pelo tema (meu aniversário), pela importância dada tanto à chegada desta data quanto ao fator crescimento, pela linguagem simples, pelo caráter imaginário (“Sinto mesmo que sou um gigante / Do tamanho de um elefante”), vê-se que a identidade do locutor corresponde a de uma criança. Porém, a brincadeira não aparece como um aspecto caracterizador dessa personalidade infantil. O que se destaca, por outro lado, é a “imaginação” desse locutor, a qual, por sua vez, é um dos elementos da cultura lúdica infantil, segundo Sarmento (2003a), e também se faz constantemente presente nas brincadeiras.

Não é aqui nossa intenção fazer o levantamento de todas as nuanças que o ethos infantil apresenta nas canções para crianças. Parece-nos suficiente atestar o investimento estratégico, nessa canção, em um ethos infantil com o qual se pretende que o público se identifique e mostrar que, frequentemente, esse ethos aparece atrelado à brincadeira como uma maneira de construir um mundo ético do qual a criança já é parte pregnante e para o qual a criança se sente culturalmente atraída.

Embora seja fato que a infância não é caracterizada a partir somente da brincadeira, na canção para crianças a identificação dessa etapa da vida com o universo lúdico se mostra recorrente.

A partir da análise sobre o ethos apresentada aqui, podemos concluir que essa dimensão discursiva é relevante para o delineamento do Discurso Literomusical Brasileiro para Criança enquanto um discurso lúdico infantil, uma vez que pode receber investimentos

infantis, configurando-se em um ethos infantil, ou seja, que apresenta a identidade de uma criança; ou investimentos lúdicos infantis, caracterizando-se como um ethos próprio daqueles que participam de uma atividade lúdica, a exemplo do ethos de líder de brincadeira e o ethos de narrador de histórias infantis.

Neste momento, apresentados investimentos cenográficos e éticos da canção para crianças, passamos à análise do código de linguagem de que se lança mão para enunciar nessa canção.

6.3 Código de linguagem

O discurso literomusical brasileiro para crianças investe de maneira específica na diversidade de línguas e esse investimento mantém uma estreita relação com a infância e a cultura lúdica infantil. Esse discurso, portanto, não se constitui na compacidade da língua, mas através de uma “interlíngua”, “um espaço de confronto entre variedades „internas‟ (usos de determinada profissão, níveis de linguagem, dialetos...) ou variedades „externas‟ (idiomas „estrangeiros‟)” (MAINGUENEAU, 2008a, p. 146).

Devemos lembrar que, segundo Maingueneau, na ideia de código de linguagem interligam-se duas acepções: de sistema semiótico e de código prescritivo. De acordo com a primeira acepção, o código de linguagem é um sistema que permite a comunicação e, conforme a segunda acepção, “o código linguageiro que mobiliza o discurso é, com efeito, aquele através do qual ele pretende que se deva enunciar, o único legítimo junto ao universo de sentido que ele instaura” (2008a, p. 52).

O código de linguagem através do que o Discurso Literomusical Brasileiro para Crianças é enunciado reúne, de fato, essas duas acepções, pois, por um lado, apresenta-se como um código linguageiro acessível às crianças, garantindo, assim, a comunicação com o público infantil, e, por outro lado, mostra-se prescritivo, uma vez que, encenando um modo de falar supostamente infantil, acaba por apontar o recorte linguístico que se julga legítimo para se enunciar para crianças e, além disso, esse código linguístico ainda é oferecido ao público como um padrão a ser seguido.

O DLBC é, fundamentalmente, enunciado através de uma linguagem coloquial e poética, pretendendo, assim, retratar a linguagem utilizada pelas crianças no dia a dia, particularmente em suas brincadeiras.

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