5 Materialegenskaper og materialkrav
6.2 Tilslag i asfaltdekker
Dentro e fora do país, a opinião de mercados e jornais era eivada de um forte conservadorismo. Em seu relatório trimestral, o Banco para Compensações Internacionais (BIS) afirmava que “no Brasil, os investidores se tornaram cada vez
mais preocupados com a continuidade da desaceleração da economia e pelo fato de um populista concorrendo com um programa inamistoso aos mercados ter aumentado a sua liderança nas pesquisas de opinião para a eleição presidencial” (“Para BIS,
vantagem de Lula prejudica País”, João Caminoto, OESP, 28/5/2002). Artigo publicado pelo Wall Street Journal sustentou a tese de que Lula não era perigoso apenas como candidato que poderia ganhar a eleição e alterar a situação do capital financeiro no país, mas pela sua capacidade de influenciar o discurso dos demais candidatos.“No Brasil, o
Lula consegue o que quiser.” (...) Com todos os candidatos criticando o mercado, o livre comércio e a intervenção limitada do governo, mesmo que Lula não ganhe, suas idéias parecem estar destinadas a dominar a política”, segundo a editora Mary
Anastasia O’Grady, que assina o artigo. (“Wall Street Journal apóia temor”, OESP, 11/5/2002).
O conservadorismo, não raro, vinha eivado de preconceitos, sociais e intelectuais. Tratou-se de tentar colar em Lula a imagem do despreparo – era o operário e não tinha experiência executiva – e no PT a de radical incorrigível – um partido que não compartilha do “consenso” é não apenas despreparado, mas irracional e temível. As duas vertentes de preconceito atingem, é lógico, o eleitor: se ele, ainda assim, optava por Lula, era porque também era despreparado e irracional. Assim, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a pressão dos mercados eram antídotos ao despreparo e à irracionalidade. Existia também outro fato “inibidor” da ação de qualquer governo que foi pouquíssimo lembrado pelos jornais durante o ataque especulativo: a emenda que regulamentou o uso de medidas provisórias embutiu um artigo que impedia o governo de alterar, por esse instituto, o cronograma de pagamentos da dívida (a limitação foi lembrada pelo secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Rubens Sardenberg, e citada sem destaque no meio de uma matéria do Estadão: para mexer no cronograma, o novo presidente teria que aprovar um projeto de lei ou uma emenda constitucional). (“Para analistas, rolagem da dívida preocupa, mas é administrável”, Fernando Dantas, OESP,
3/6/2002).
Vistos de fora, os argumentos conservadores antipetistas expunham a “vergonha” de uma elite intelectual com “idiotices” e “irracionalidades” – uma vergonha que se estendia aos ataques contra a irracionalidade dos mercados, já que eles tinham por tarefa e obrigação cuidarem do dinheiro dos pensionistas e investidores que eram seus clientes.
Assim, a ignorância petista é apontada no “preconceito” do partido com manifestações de riqueza – e a prova de que isso é uma farsa, ou uma contradição, são as demonstrações de riqueza por integrantes do partido:
“Os petistas consideram toda e qualquer manifestação de riqueza como um escárnio à grande massa, que é pobre. Pois bem, há pouco tempo, numa grande revista, saiu uma reportagem mostrando o deslumbrante guarda- roupa da alcaidessa paulistana [Marta Suplicy, do PT]. Seu estoque de bolsas, sapatos e vestidos é de causar inveja a muita socialite por aí. São dezenas de milhares de reais despendidos. ‘Gente, é tudo pelo social!’, há de defender-se ela” (“Comentários e implicâncias”, João Mellão Neto, OESP, 19/4/2002).
Ou, num diagnóstico de que o eleitor brasileiro havia se “modernizado”, a aposta de que ele seria o muro de contenção contra o esquerdismo petista, conforme o jornal britânico Financial Times, em matéria na qual reproduzia declarações de FHC duvidando da posição moderada exposta pelo PT antes das eleições. “Será que essa
posição é apenas para ganhar a eleição ou isso sinaliza realmente uma mudança na maneira que eles encaram o mundo?” , perguntava o então presidente. Ao que conclui o
jornal que “a popularidade da inflação baixa e a crescente sofisticação dos eleitores
brasileiros criarão dificuldades para um governo petista dar uma guinada para a esquerda” (“Dúvida de FHC: moderação do PT é eleitoral?”, João Caminoto, OESP,
20/4/2002).
O preconceito é retratado também na afirmação do presidente tucano, José Aníbal, de que Lula tinha a “cabeça ruim” . “O Lula é uma grande liderança popular,
mas administrativamente diz coisas que não têm absoluta coerência e que provocam muita insegurança” (“José Aníbal diz que Lula ‘é cabeça ruim’”, OESP, 28/4/2002).
O anticomunismo também foi uma manifestação desse conservadorismo. As lembranças da ligação, ou simpatia, do PT e de Lula com Fidel Castro, de Cuba, e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, seriam a prova cabal das tendências comunistas do candidato e do partido. Assim, a proximidade com os dois chefes de governo seriam “erros”, segundo o presidente do PFL, Jorge Bornhausen. “Começa pelas viagens
internacionais, encontros com Fidel Castro, com Hugo Chávez, e passa pelos pronunciamentos [que fez] contra exportações e sobre taxações do Imposto de Renda. Lula está bem porque tem um bom marketing” (“Lula afastará investimento, diz
Bornhausen”, FSP, 1/5/2002). Na página de opinião do The Wall Street Journal, dos EUA, a “contaminação” de Lula pelas idéias dos dois líderes também é apontada como razão para que os investidores temessem pelo futuro de seu dinheiro. Relata matéria da
Folha: “‘O mercado está certo ao temer uma Presidência ocupada por Lula’, diz o WSJ. O candidato baseou sua carreira ‘na defesa das idéias do Fidel Castro’ e ‘recentemente tem deixado clara a sua admiração por Hugo Chávez’” (“Com ou sem
Lula, Brasil não é boa opção para investir”, FSP, 11/5/2002).
Os editoriais do Estadão não se esqueceram desse particular. Pelo menos um deles usa esse argumento para explicar as especulações dos mercados:
“Como lembra o colunista Celso Ming, do Jornal da Tarde, o PT defendeu em dezenas de documentos a ‘renegociação concertada’ da dívida, o que implica alguma forma de descumprimento de contratos. E há pouco mais de um ano o partido apoiou francamente a absurda proposta da CNBB de um plebiscito sobre a suspensão do pagamento dos compromissos assumidos pelo Brasil. Pesam ainda na percepção dos agentes econômicos estrangeiros as ‘afinidades eletivas’ de Lula com Fidel Castro e Hugo Chávez, que o petista se esmerou em ostentar, bem como a estridência de seus ataques à globalização”
(“O ‘risco Lula’ e o ‘fator memória’”, Editorial, OESP, 4/5/2002).
O despreparo, diz o Estado, seria também um dos principais temores do mercado.
“Resta o ‘fator Lula’. Esse é preocupante, menos pelos impulsos carbonários de que ele possa ser acometido se for eleito – porque tenderão a ser neutralizados pelas realidades que acabamos de mencionar – do que por sua completa inexperiência em qualquer cargo executivo. Lula se gaba de não ter seguido carreira política, considerando-se mais bem apetrechado do que
os outros candidatos para fazer as coisas certas, em razão de suas jornadas pelos grotões do Brasil. E é essa propensão ao voluntarismo – ‘querer é poder’ – que justificaria os temores sobre o seu despreparo para o exercício do poder. Mas é importante não esquecer que a experiência administrativa que lhe falta, falta porque lhe foi negada, por enquanto já por três vezes, pelos eleitores – e em duas ele chegou a um favoritismo nas pesquisas maior que o de hoje. O único campo em que Lula acumula mais conhecimento prático que todos os outros políticos brasileiros em qualquer tempo, aliás, é no das derrotas em eleições presidenciais. E este é o indicador mais seguro da precipitação do Morgan Stanley e da Merrill Lynch em seu veredicto sobre o Brasil” (“Wall Street e as eleições no Brasil”, Editorial, OESP, 11/5/2002).
A escolaridade de Lula foi outro tema insistente na agenda conservadora. Em artigo no Estadão, Roberto Macedo, faz uma ginástica para não configurar a sua defesa da escolaridade como conservadorismo. É discutível que tenha conseguido:
“Embora tenha avançado na escolaridade, não sou daqueles que a confundem com inteligência. Inegavelmente, Lula é um homem muito inteligente, bastando dizer que sem sua boa cabeça não teria chegado aonde chegou. Mas, mesmo corretamente colocando em segundo plano a escolaridade superior que não tem, não faz jus à sua inteligência confundir escolaridade com preparo, o que parece fazer. Para ser torneiro mecânico, líder sindical ou político, passou por um preparo que pode ter dispensado um período mais longo na escola formal. Este teve como substituto a escola da vida, não menos importante para formar pessoas qualificadas, naquilo que é conhecido como treinamento no trabalho, no qual a inteligência inata se desenvolve e floresce com a experiência. (...) Agora, é candidato a presidente da República, cargo para o qual a Constituição não exige, como querem alguns equivocados, diploma de curso superior. Tal exigência não seria um procedimento democrático. O cargo, contudo, exige preparo, e este não dispensa leitura, de livros, relatórios e até mesmo de estatísticas, com domínio dos aspectos mais fundamentais, não apenas para não falar bobagens, mas para tomar decisões cruciais. (...) Se chegar a presidente, Lula terá à sua disposição inúmeros assessores, mas, para bem escolhê-los, novamente precisa estar preparado. Conheço bem o lado da oferta de assessores e sei que, mesmo com muitos diplomas, não há garantia de inteligência nem de boa formação. Lula é inteligente, mas vem revelando falta de preparo nos assuntos econômicos. Não é a primeira vez que causa espanto com o que diz nessa área. Se eleito, vai lidar com questões econômicas extremamente delicadas pelo que podem trazer de impacto aos rumos da economia, da política e do próprio Lula, enquanto presidente. (...) Assim, Lula-lá, na economia, não assusta pela falta de diplomas, mas pela carência de preparo, dele e de alguns assessores. A esperança está na sua inteligência, mas é bom lembrar que mesmo pessoas inteligentes podem tomar decisões equivocadas. O preparo é indispensável, pois reduz esse risco. Não é o caso de aprender francês, como Machado, mas de aperfeiçoar seu frágil ‘economês’” (“Lula-lá na economia”, Roberto
A desqualificação intelectual era comum quando o candidato do PT fazia discursos que contrariassem a lógica hegemônica. Maílson da Nóbrega foi imbatível nessa “vigilância”. Ao relatar imagens usadas por Lula em evento promovido pela Força Sindical e pela Bolsa de Valores de São Paulo, por exemplo, o ex-ministro aponta “disparates” que desqualificariam o candidato, in limine, na postulação pela Presidência da República:
“Lula usou imagens típicas do homem comum. Arrancou aplausos ao afirmar que no capitalismo brasileiro ‘o povo é proibido de consumir’. Para o governo, protestou, ‘se o povo comprar vai ter inflação’. Nunca se viu tais disparates nem mesmo na boca de governantes incompetentes. Essas palavras poderiam ser consideradas força de expressão, um momento de êxtase, mas nunca quando pronunciadas por alguém que pretende governar um país tão complexo” (“Voluntarismo e populismo explícitos”, Maílson da Nóbrega, OESP, 5/5/2002).
O direito à palavra para desqualificação do candidato também foi dado ao publicitário responsável pela campanha de Serra, Nizan Guanaes, para quem Lula seria um bom chefe de Estado, nunca um razoável chefe de governo.
“Eu respeito o Lula, acho que ele é um exemplo. Se o País fosse
parlamentarista, ele seria um excelente chefe de Estado. Como essa não é nossa realidade e o que temos é o presidencialismo, o País precisa é de um chefe de governo e Serra reúne todas as condições para o cargo. O Lula, com todo o respeito, é como eu: pode estar mais maduro depois de oito anos, mas ainda não está preparado. Ia ficar dependendo o tempo todo do ponto no seu ouvido. Agora, se houver divergências, por exemplo, entre dois de seus ministros, aí seria uma confusão só” (“Nizan propõe debate informal ao PT”,
Carlos Franco, OESP, 20/5/2002).
Contra esse discurso, Lula usou o bom e o mau humor. Ele abandonou um almoço na Folha quando o diretor do jornal, Otavio Frias Filho, perguntou-lhe se se achava em condições de governar o país, devido às limitações de sua pouca escolaridade. Em palestra a universitários da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), conjugou corretamente o verbo “intervir” e perguntou aos estudantes: “Vocês gostaram do interveio, não é? Pensavam que eu ia falar interviu, não? (...) Sempre me perguntava, meu Deus, será que não ganhei a eleição por não ter um diploma universitário?” Levou a platéia às gargalhadas (“Vocês gostaram do ‘interveio’?”, Xico Sá, FSP, 30/5/2002).