Como caminho metodológico para a condução da primeira etapa da entrevista, sugere-se explorar os campos temáticos propostos no guia orientador em três momentos complementares.
Além das apresentações pessoais e dos objetivos da entrevista, o primeiro momento é dedicado ao levantamento de informações gerais sobre o agroecossistema tal como se apresenta em sua atual configuração e, na sequência, sobre a sua trajetória evolutiva. Sobre a configuração atual, são levantadas as seguintes informações: com- posição do NSGA e sua força de trabalho (incluindo a sua organiza- ção); acesso a recursos naturais apropriados pelo NSGA (dimensões e características do estabelecimento familiar ou do território comu- nitário, conforme o caso); atividades agrícolas e não agrícolas do NSGA (já procurando obter uma primeira visão sobre as diferentes
fontes de renda agrícolas e não agrícolas do NSGA e sobre o seu nível de autoabastecimento alimentar).
Em relação à trajetória do agroecossistema, são levantadas infor- mações sobre constituição e desenvolvimento do NSGA, dos elemen- tos materiais e imateriais de sua base de recursos autocontrolada (terra, infraestruturas, relações sociais, etc.), das políticas públicas acessadas e das atividades econômicas realizadas em diferentes momentos.
Uma visita dialogada pelo espaço físico do agroecossistema (tra- vessia) é realizada no segundo momento da entrevista. Essa será a oportunidade para a visualização da distribuição espacial das ativida- des produtivas já identificadas no primeiro momento da entrevista. É também o momento mais adequado para o levantamento de infor- mações sobre os itinerários técnicos sobre cada uma das produções realizadas (organização do trabalho no decorrer do ciclo produti- vo, com a identificação das operações de manejo e dos membros do NSGA que efetivamente as realizam, origem dos insumos, destino dos produtos, etc.). Dependendo da necessidade de aprofundamento de informações relacionadas aos itinerários técnicos, instrumentos para diagnóstico rural participativo (DRP) poderão ser empregados. Desenvolvidos para facilitar o detalhamento de informações por meio da elaboração de esquemas visuais, esses instrumentos podem ser emprega- dos durante a travessia para descrever a distribuição sazonal das atividades, a divisão social do trabalho, as interações entre diferentes componentes do agroecossistema, etc. (FARIA; FERREIRA NETO, 2006).
A realização de travessias em separado com homens e mulhe- res contribui para a qualificação do levantamento de informações. O registro fotográfico de elementos estruturais mais significativos do agroecossistema (residência, cobertura vegetal, estado do solo, cria- tórios, cultivos, infraestruturas, etc.) deverá ser feito nesse momento.
Finalmente, como terceiro momento da etapa 1 da entrevista, o NSGA é convidado a elaborar um croqui para a representação visual das diferentes estruturas e espaços físicos do agroecossistema.
Além da distribuição espacial das atividades produtivas, fluxos de insumos e produtos (dentro e fora do agroecossistema) são repre- sentados no croqui por meio se setas que ligam a sua origem e o seu destino. Esse croqui corresponde a uma primeira aproximação da representação gráfica da estrutura e do funcionamento do agroe- cossistema (que será posteriormente representado por meio de mo- delos na forma de diagramas de fluxos). Esse terceiro momento da entrevista costuma ser importante para a coleta de informações complementares sobre questões ainda não suficientemente explora- das nos momentos anteriores, em particular sobre a trajetória evo- lutiva do agroecossistema.
Ressalta-se aqui, mais uma vez, a importância da participação de todos os membros do NSGA. Embora exerçam grande impor- tância na economia dos agroecossistemas, os espaços dedicados às atividades produtivas prioritariamente voltadas ao consumo do- méstico (quintais, hortas, pomares e pequenos criatórios) tendem a ser sub-representados e/ou secundarizadas na elaboração dos cro- quis caso as mulheres, principais responsáveis pela gestão dessas atividades, não participem efetivamente dessa atividade. Esse é um momento adequado para a elaboração de perguntas relacionadas ao nível de autoabastecimento alimentar do NSGA, bem como sobre as diferentes fontes de renda agrícola e não agrícolas.
A realização de entrevistas em separado com mulheres e jovens costuma proporcionar condições mais adequadas para o levanta- mento de informações sobre a organização do trabalho no agroe- cossistema, dentre as quais destacam-se a divisão sexual e geracio- nal do trabalho, processos de tomada de decisão sobre as atividades realizadas e sobre o emprego das rendas produzidas.
Quadro 5: Guia orientador da etapa 1 da entrevista semiestruturada 1) Composição do Núcleo Social de Gestão do Agroecossistema (NSGA)
O agroecossistema de gestão familiar é uma unidade de produção e consumo. Portanto, o NSGA corresponde ao grupo de pessoas que possui vínculos permanentes de trabalho no agroecossistema e/ou que depende das rendas agrícolas nele geradas (parentes ou agregados).
Deverão ser registrados os nomes e as respectivas idades dos membros do NSGA, bem como informações gerais sobre suas ocupações internas e/ou externas (estudos, pluriatividade, etc.).
Essas informações deverão ser obtidas no primeiro momento da entrevista. Membros das famílias ou comunidades que já não possuem vín- culos de trabalho e consumo com o agroecossistema não são consi- derados integrantes do NSGA. Sempre que a existência dessas pes- soas seja identificada, particularmente na descrição do ciclo de vida do NSGA, ela deve ser anotada no campo “observações”. Esse registro é importante para a compreensão das inserções anteriores desses mem- bros no sistema e suas atuais atividades. Essas informações contribuem para a análise da capacidade do agroecossistema de prover condições materiais necessárias para assegurar a sucessão entre gerações.
2) Acesso à terra
A terra acessada corresponde à extensão territorial (em hectares) na qual o NSGA se apropria de bens ecológicos para a sua produção eco- nômica. Essa extensão corresponde à soma das áreas próprias com as áreas de terceiros utilizadas no período considerado na análise, além de proporções de áreas comunitárias exploradas pelo NSGA para a produ- ção animal e/ou vegetal. As áreas próprias são aquelas sobre as quais o NSGA tem estabilidade de acesso exclusivo sob os mais variados regimes (propriedade privada, posse, cessão de uso, etc.). Essas áreas podem compreender diferentes parcelas, mesmo que não contíguas.
As áreas de terceiros ou comunitárias correspondem às extensões de terra utilizadas no período considerado (ou em parte dele) para a produção vegetal e animal. O acesso a áreas de terceiros se dá por meio de regras mercantis (aluguel, arrendamento, comodato, foro,
meia, etc.) ou de regras de reciprocidade (cessão, empréstimo tem- porário etc.). O acesso a áreas comunitárias se faz por meio de regras ou costumes estabelecidos localmente (consuetudinárias).
3) Trajetória do agroecossistema
Levantar informações sobre as transformações significativas na estrutura e no funcionamento do agroecossistema ocorridas desde a formação do NSGA ou de algum momento referencial específico (como o assentamento em um lote de reforma agrária). Uma visão geral sobre a trajetória do agroecossistema pode ser obtida no primeiro momento da entrevista. O detalhamento des- sa panorâmica histórica será feito nos momentos seguintes, com o desdobramento da conversação sobre aspectos específicos do agroecossistema. O conjunto das informações relacionadas à tra- jetória deverá ser registrado de forma ordenada em uma matriz cronológica, periodizada em anos (ver sobre a elaboração da linha do tempo na seção seguinte).
A elaboração da linha do tempo poderá ser realizada em conjun- to com os membros do NSGA, no momento final da primeira etapa da entrevista ou logo depois de finalizada essa etapa. No primeiro caso, esse exercício deverá ser feito com o auxílio de meios de vi- sualização (ver dica metodológica adiante). Após a finalização da pri- meira etapa, as informações sistematizadas deverão ser transpostas para uma planilha excel especificamente preparada para o registro dessas informações.
Se a linha do tempo for sistematizada entre a primeira e a se- gunda etapa da entrevista, as informações levantadas em campo serão registradas diretamente na planilha excel. Nesse caso, a linha do tempo será apresentada e complementada no início da segunda etapa da entrevista.
As informações necessárias para a composição da linha do tempo correspondem às seguintes variáveis internas e externas ao agroecossistema:
a) Internas ao agroecossistema
• Ciclo de vida do NSGA: casamento/união, nascimento de filhos e filhas, migrações, mortes, chegada de agregados, mudanças de familiares, etc.
• Capital agrário (capital fundiário + capital fixo inanimado): acesso à terra (considerando terra própria, arrendada ou de uso comum); construções, ampliação e reformas da moradia; infraestruturas produtivas (hídricas, agroindústria familiar etc.); veículos e equipamentos
• Produção animal: evolução na composição e dimensão do cria- tório (grandes e pequenos animais) e capital agrário associado à produção pecuária (pastos, currais, cercas, cochos, bebedouros, máquina forrageira)
• Produção vegetal: evolução dos cultivos anuais e perenes
b) Externas ao agroecossistema
• Participação na gestão e uso de bens comuns (casa de farinha, bancos de sementes comunitários, fundos rotativos solidários, fundo de pasto, áreas comunitárias, redes de gestão de conhe- cimento, mecanismos de reciprocidade na gestão do trabalho – mutirões, trocas de dia de trabalho, educação formal, saúde, etc.) • Integração a espaços político-organizativos-econômicos (sindicatos,
associações, grupos formais e informais, cooperativas etc.) • Acesso a mercados: centrais de abastencimento, mercados ins-
titucionais, feiras livres, mercados de produtos orgânicos, feiras agroecológicas, vendas para vizinhos etc.
• Acesso a políticas públicas: crédito, preço mínimo, Ater, crédito fundiário, reforma agrária, previdência, programas de transfe- rência de renda, educação formal, saúde, etc.
Dica metodológica para a elaboração da linha do tempo juntamente com os membros do NSGA: Utilizar meios de visualização das infor- mações significativas relacionadas à trajetória do agroecossistema. Essa visualização pode ser realizada por meio do emprego de tarjetas colori- das ou pela escrita em papel cartolina. O uso de tarjetas coloridas pro-
porciona maior versatilidade ao exercício pois elas podem ser refeitas ou trocadas de lugar no curso do diálogo. Ao final da elaboração da linha do tempo com a família, ela deverá ser fotografada.
4) Sistemas produtivos
Levantar as produções realizadas no agroecossistema, sejam elas destinadas à venda ou ao autoconsumo. Uma informação genérica poderá ser obtida no primeiro momento da entrevista. O detalhamento das informações sobre os sistemas produtivos poderá ser realizado durante a travessia (segundo momento), oportunidade em que será visualizada a distribuição espacial das atividades produtivas no agroecossistema. Além disso, as informações a seguir deverão ser levantadas para cada atividade produtiva identificada.
a) Práticas de manejo adotadas : tarefas realizadas durante o ciclo de produ- ção com a identificação das pessoas responsáveis; origem dos insumos (se são produções próprias ou comprados – especificando os mercados de compra); destino dos produtos (autoconsumo, trocas e doações ou venda – especificando os canais de comercialização).
b) Qualidade das infraestruturas e dos meios de produção empregados: solos, qualidade genética de espécies cultivadas e criadas; sanidade de cultivos e criações, biodiversidade associada (vegetação espontânea nas parcelas de cultivo e em seu entorno), instalações e equipamentos, etc.