Por um longo período da história, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi desvalorizada e forçadamente excluída dos espaços sociais. Apenas recentemente, após o reconhecimento legal e o fortalecimento da proposta de ensino bilíngue é que a LS conquistou seu devido espaço nos meios educacionais, provocando um aumento expressivo no número de estudantes surdos no sistema de ensino. Porém, em virtude do histórico de marginalização da língua, o repertório da Libras não se desenvolveu em diversos domínios de conhecimento, evidenciando a necessidade de ampliação do léxico de Libras para suportar comunicação nesses contextos.
Como consequência, dificuldades relacionadas ao repertório da língua começaram a ser relatadas pelos profissionais atuantes na área, principalmente os tradutores intérpretes da língua de sinais:
Situações de interpretação simultânea se tornaram mais frequentes e mais complexas, especialmente em contextos acadêmicos. A presença de estudantes surdos em salas de aula inclusivas em todos os níveis educacionais evidenciou uma necessidade urgente de desenvolvimento e consolidação de um vocabulário anteriormente inexistente (ou pouco conhecido) em várias áreas de conhecimento, especialmente para intérpretes profissionais. (OLIVEIRA; WEININGER, 2011, tradução nossa)
O problema apontado é recorrente em diversos domínios, sendo que, para gerenciar as situações de ausência de vocabulário específico, uma das estratégias adotadas é a apresentação dos termos sob a forma de alfabeto datilológico1. Este recurso da língua de sinais realiza a transliteração2 do termo conhecido na modalidade linguística oral para uma representação em modalidade visuoespacial. A dificuldade relacionada à estratégia é que ela não apresenta qualquer elemento significativo ao seu receptor surdo. Para Sacks (2010, p. 37), “não é possível transliterar uma língua falada para a língua de sinais palavra
1A datilologia é o uso do alfabeto manual, utilizada para “soletrar” nomes ou termos da língua
oral.
2De acordo com o dicionário Michaelis (2014), o ato de transliterar consiste em representar
(uma letra ou um grupo de letras de um vocábulo) por uma letra ou grupo diferente no correspondente vocábulo de outra língua.
por palavra ou frase por frase – suas estruturas são essencialmente diferentes”.
Neste sentido, Stumpf, Oliveira e Miranda (2014, p. 148) apontam para a necessidade de cunhar sinais que explorem aspectos da visualidade do surdo. Para os autores, a exploração dessas características, além de facilitar a comunicação direta em sinais e a compreensão de conceitos, valoriza o uso da LS nos espaços acadêmicos. Assim, ao considerar esta demanda, duas questões principais se destacam: a primeira se refere à quantidade de registros da Língua Brasileira de Sinais; e a segunda à dificuldade de disseminação de repertórios de especialidade em virtude da ausência ou baixo nível de interação entre comunidades surdas de diferentes regiões do país.
O baixo número de registros da língua de sinais nos domínios técnico-científicos tem demandando esforços da comunidade acadêmica. Em busca de fomentar a comunicação, e apoiar o acesso ao conhecimento científico e tecnológico de forma natural ao surdo, pesquisadores têm se dedicado à ampliação dos repertórios em domínios de conhecimento científico (CARVALHO; MARINHO, 2007; SOUZA E LIMA; CALIXTO, 2011; MONTEIRO, 2011; SCHUBERT; COELHO, 2011; DUARTE et al., 2013).
Por outro lado, a ausência de interações e a baixa disseminação dos repertórios de especialidade entre as comunidades surdas do território nacional, têm implicado na geração de diferentes propostas de realizações de sinais para um mesmo conceito (STUMPF; OLIVEIRA; MIRANDA, 2014, p. 149). Esta criação difusa de sinais relacionados a determinados conceitos científicos, acaba permitindo inclusive distorções e interpretações equivocadas sobre os mesmos (CAVENDER et al., 2010; PEIXOTO; LIPPE, 2013).
As questões são relacionadas, visto que, se os resultados de um trabalho terminológico não são disseminados, não chegam ao conhecimento das outras comunidades. Como a demanda de terminologias em diversos domínios é urgente, se o repertório não é disponibilizado, outras iniciativas em domínios de conhecimento acadêmico são passíveis de ocorrer. São esforços duplicados em uma mesma direção e que dificultam atividades de validação e tomada de decisão em relação ao repertório terminológico (SOUZA, 2011) de forma coletiva.
Neste sentido, faz-se necessário um trabalho de reflexão quanto à importância do envolvimento e colaboração entre as comunidades surdas, pesquisadores, professores e intérpretes de forma solidária em
benefício do fortalecimento da Língua de Sinais. Em relação à comunidade surda, Faria do Nascimento (2009, p. 55) afirma que:
Conscientizar estudantes surdos, de cursos de graduação, a respeito dos processos de construção terminológica permitirá o enriquecimento ainda mais acelerado da LSB (Língua de Sinais Brasileira), e a rápida sistematização e divulgação dos neologismos terminológicos acarretará o acesso e o domínio mais rápido, também dos intérpretes para adequarem sua tradução ao contexto emergente.
Considerando o exposto, o arcabouço teórico da Cognição Situada (LAVE, 1988) e das Comunidades de Prática (CoPs) (LAVE; WENGER, 1991) em sua modalidade virtual, apresentam suas contribuições. As CoPs são sistemas sociais que reúnem pessoas com interesse em um determinado domínio de conhecimento. Por meio das interações e práticas compartilhadas e a resolução conjunta de problemas, significados são compartilhados e reconstruídos, linguagens e códigos são estabelecidos, e a aprendizagem e fomentada estabelecida em um contexto situado. Quando cultivadas na modalidade virtual como Comunidades de Prática Virtuais (vCoPs – Virtual Communities of Practice), as tecnologias atuam como amplificadoras das redes de relações, além de incentivar a comunicação entre as pessoas e estimular a aprendizagem e a construção social do conhecimento (WENGER, 1998; WENGER; McDERMONT; SNYDER, 2002) por meio de técnicas criativas e pelo uso de novas ferramentas.
Nessa perspectiva, os ambientes de Comunidades de Prática Virtuais se configuram como ambientes com potencial para apoiar a interação entre as pessoas e comunidades distribuídas ao longo do território nacional. Para tanto, considerando o problema apresentado, é fundamental que os ambientes forneçam técnicas, metodologias e ferramentas para comunicação, coordenação e cooperação adequados à habilidades comunicativas dos surdos. Sendo assim, apresenta-se a seguir a pergunta que norteia esta pesquisa.