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1. TILLØPSDATA
Outra temática que emergiu nos grupos diz respeito aos sonhos para o futuro em que estudar aparece como condição necessária para se alcançar as profissões almejadas por eles. Mesmo para os adolescentes e jovens rurais que mostraram um desejo de permanecer no campo, os estudos e, com isso, a necessidade de morar na cidade, se colocou como fundamental. As profissões desejadas por eles foram várias, sendo que cada participante citou mais de uma opção. Observou-se que as profissões ditas inicialmente diziam respeito a áreas menos comuns no contexto e região dos mesmos. No entanto, ao longo da discussão, opções mais concretas foram sendo mencionadas.
Assim, as escolhas iniciais do grupo rural foram: piloto de aeronáutica, fuzileiro naval, ajudante de um cantor sertanejo famoso e trabalhar viajando pelo mundo. As opções que apareceram depois foram: trabalhar em empresas siderúrgicas da região (dois participantes citaram cada um uma empresa), alguma função na área de informática, ser médica, advogada, polícia civil, polícia militar, professor de capoeira e karatê. Todos os participantes deram mais de uma opção profissional, por exemplo, viajar pelo mundo, ser advogada e policial civil, outra afirmou querer ser médica, trabalhar com informática, na área da mineração, lavando caminhões como o pai e ser ajudante de cantores sertanejos, outro disse querer ser policial e professor de capoeira e karatê e outro disse querer trabalhar como fuzileiro naval, na aeronáutica ou como funcionário da empresa Vale. Percebemos um misto de projetos mais do âmbito da fantasia e dos sonhos com projetos mais reais, ancorados em experiências de familiares e conhecidos. Em nenhuma das profissões desejadas, o caminho se dá com a permanência deles nas comunidades, revelando que as representações que se tem de rural e urbano normalmente desvalorizam o campo como local de trabalho, levando os adolescentes e jovens a buscarem funções urbanas, embora haja um desejo reconhecido e ambivalente de permanência no campo (Bonomo & Souza, 2010).
Já em relação ao grupo urbano, os projetos profissionais mencionados foram: cursar biologia; fazer psicologia ou ser mergulhadora; ser professor de matemática ou de história; e uma das participantes disse estar muito indecisa entre as profissões de arquiteta, engenheira, psicóloga e administradora. Aquele que escolheu ser professor foi muito criticado pelos colegas que afirmaram que essa é
uma profissão difícil e desvalorizada. Interessante ressaltar que o movimento aqui foi contrário ao que aconteceu com os alunos das comunidades rurais. Os alunos de São Brás do Suaçuí inicialmente escolheram profissões mais próximas da realidade, como cursar biologia, psicologia e depois passaram a dar voz aos seus sonhos, como o de ser mergulhadora e ser prefeito ou presidente.
5. Conclusão
Notamos que as relações intergrupais que se desenvolvem entre as vilas e o município de São Brás do Suaçuí objetivadas pelas relações entre os adolescentes e jovens revelaram processos de comparação e diferenciação social presentes principalmente pela necessidade, a todo o momento, de diferenciar as duas localidades e os grupos que possuem vários pontos de identificação.
Essa semelhança, proximidade e identificação entre os espaços rural e urbano analisados pôde ser percebida através de algumas percepções dos integrantes dos grupos como, por exemplo, a noção de perto e longe. Eles destacaram, por exemplo, que no campo tudo é longe e mais difícil e na cidade tudo é perto. Essa constatação nos permite deduzir que a referência de cidade que eles comunicam é a de centros urbanos menores, onde tudo é realmente próximo, bem diferente do que acontece nos grandes centros. Dessa forma, essa noção de cidade para eles é muito próxima da noção de facilidade do rural e reafirma esse como um dos pontos de identificação entre os territórios.
Os dados colhidos apontaram características que mais revelaram a valorização do espaço urbano em detrimento do rural e pouco se percebeu do movimento emergente de valorização do campo, diferente do que trouxe a literatura (Alencar, 2007; Carneiro, 1998a; Carvalho et al., 2009, Martins, 2003).
Nesse sentido, ainda que haja incentivo, por exemplo, para as festas na cidade de São Brás do Suaçuí em especial aquelas de cunho rural, o valor que é dado a esse espaço não muda muito. Esse rural das festas de exposição de gado ou das chamadas festas do produtor rural, pouco tem de rural. São festas, como vimos em outros estudos (Gonçalves, 2005; Moreira, 2003; Oliveira, 2003), organizadas com fins de lucro, onde o rural que se destaca não é o do agricultor, ou do modo
de vida no campo, mas um rural globalizado, em que estão presentes as músicas sertanejas e uma culinária específica associadas ao campo e que, por isso, trazem uma boa arrecadação aos seus organizadores. Sendo assim, o rural que precisa ser valorizado é aquele das populações rurais, com sua cultura, hábitos e tradições e que necessita de investimentos públicos para oferecer condições satisfatórias de vida à sua população, mas sem tornar seu espaço mera cópia das cidades.
Percebemos que os aspectos destacados como positivos no campo estão normalmente associados às relações pessoais de amizade, união, solidariedade e de forte vínculo estabelecidas entre os moradores. Já os aspectos negativos do campo, assim como os aspectos positivos e negativos da cidade concentram-se mais nos termos estruturais/materiais de cada espaço. No caso do campo, há falta de recursos, oportunidades de formação e profissionalização e de opções de lazer. Já a cidade, oferece o acesso a tudo isso (pontos positivos), mas o problema está na falta de qualidade de vida, problema não associado à cidade de São Brás do Suaçuí que por ser de pequeno porte, se aproxima, também neste quesito, do campo.
Por fim, os grupos rurais, enquanto minorias sociais, mostraram, pela análise de suas relações com os grupos urbanos, as dificuldades que enfrentam para manterem-se como grupo. Assim, apesar do rural permanecer desvalorizado quando consideramos as representações que se têm de cada espaço, deve-se destacar o movimento identitário de cada grupo analisado, especialmente do rural em buscar destacar um maior número de características positivas para o seu grupo, exemplificando o fenômeno de comparação social e valorização do próprio grupo em detrimento dos grupos externos (Bonomo & Souza, 2013b, Deschamps & Moliner, 2009; Tajfel 1983b).
10. DISCUSSÃO