As representações sociais identificadas durante as discussões nos grupos focais foram organizadas a partir de seu caráter valorativo, sendo dividida em pontos positivos e pontos negativos de cada espaço (rural e urbano).
Os pontos positivos do espaço rural, segundo o grupo oriundo das comunidades rurais, foram: a tranquilidade de vida, a amizade e a liberdade. Os pontos negativos descritos foram: a falta de tecnologias como a internet, a falta de festas, o fato de terem que se deslocar até a escola e a “fofoca”, descrita como a mania das pessoas de querer cuidar da vida umas das outras. Em relação à cidade,
esse mesmo grupo apontou como aspectos positivos a presença de mais opções de coisas para fazer, a possibilidade de uso da internet e como pontos negativos, o movimento mais intenso de pessoas e carros e a violência.
Já o grupo residente na cidade de São Brás do Suaçuí apontou como aspectos positivos do campo a tranquilidade e o contato com a natureza e como negativos a ausência de internet, poucas opções de lazer, de festas e de coisas para fazer, as distâncias entre as casas, a maior dificuldade de visitar amigos e a dependência de transporte para o acesso à educação, a serviços de saúde especializados, a bens de consumo, dentre outros serviços. A tranquilidade, associada também à boa qualidade de vida no campo, apareceu como o principal aspecto positivo desse espaço e de várias formas tais como: o pouco movimento de carros, o contato com a natureza, o silêncio e o pouco barulho, uma vida mais calma, sem o estresse diário da cidade; não ter tanta violência e roubos como na cidade. Embora a segurança, a calma e a tranquilidade tenham sido citadas de forma unânime pelo grupo, uma jovem afirmou que teria medo de morar no campo, justamente pelo silêncio absoluto, pela mata ao redor da casa e pela escuridão da noite. Eles afirmaram, ainda, em tom de deboche, que lá (as áreas rurais) deve ser tranquilo, pois nenhum ladrão vai querer roubar nada, pois lá não tem nada de interessante para roubarem. É importante ressaltar que essas representações foram construídas a partir de uma referência geral de rural e carregada de aspectos negativos, uma vez que nenhum dos participantes deste grupo conhece as regiões rurais analisadas, remetendo-nos aos conceitos de estereótipo e preconceito (Deschamps e Moliner, 2009; Tajfel, 1983b).
Em relação à cidade de São Brás do Suaçuí, o grupo urbano apontou como aspectos positivos: “poder fazer o que se tem vontade”, o fato da cidade não ser violenta, a boa qualidade da escola e as festas tradicionais da cidade (Carnaval e a Festa de Exposição, sendo esta última uma festa de valorização do produtor rural). Como pontos negativos, o grupo mencionou a falta de opções de atividades educacionais, de lazer e profissionalizantes, principalmente para os jovens, e também o hábito da fofoca e a infraestrutura ruim dando como exemplo, a falta de um hospital. Percebemos aqui uma semelhança em relação aos pontos negativos da cidade e do campo apontados pelos moradores da cidade e os problemas do
campo apontados por seus próprios moradores. No entanto, tais problemas se diferenciam no que diz respeito à intensidade, estando presentes com maior força no meio rural (faltam mais recursos no campo que na cidade, a fofoca é mais intensa no campo). Trata-se de um lócus privilegiado para a análise do processo de diferenciação, uma vez que está presente a tentativa de ambos os grupos de proteção endogrupal através de suas representações.
Aos alunos foi perguntado também a respeito do vínculo e das representações que possuem dos grandes centros urbanos. No grupo rural não apareceram muitas falas sobre esses espaços, revelando que os grandes centros urbanos não são parte de seu contexto e convívio habitual e, portanto, não fazem pressão para que eles se diferenciem, uma vez que é o outro próximo, diferente, mas igual, que me faz saber quem sou (Bonomo & Souza, 2010; Tajfel, 1983b). A referência desses centros se objetiva em figuras da mídia (novelas, jornais e outros programas), elementos que não estão diretamente relacionados às experiências dos sujeitos. Eles mencionaram, por exemplo, em relação às grandes cidades, a presença da violência e a existência de muitas opções de atividades. As cidades mencionadas pelo grupo rural como sendo grandes centros foram: Conselheiro Lafaiete, Belo Horizonte e Ibirité. Um dado interessante para nossa análise é que a representação do “urbano”, em seus aspectos negativos, é colocada em locais distantes, sinalizando que a cidade mais próxima, São Brás do Suaçuí, não é materializada inteiramente como urbana e sim suas vizinhas, economicamente maiores.
Já o grupo urbano demonstrou ter um acesso maior a esse meio o que facilitou o relato em relação aos grandes centros urbanos. Foram apontados como pontos positivos desses espaços: mais opções de lazer, maior infraestrutura (opções de escolas, hospitais e serviços no geral) e como pontos negativos, a vida corrida e estressante, a violência e o trânsito intenso de automóveis. O grupo urbano mostrou-se ainda dividido em relação à vontade de usufruir dos recursos oferecidos pelos grandes centros, uma vez que sabem que terão que enfrentar os problemas desse espaço, como a falta de liberdade e violência, fatores que não são problemas para eles e que os faz valorizar as cidades menores como São Brás do Suaçuí. Para o grupo da cidade os grandes centros citados foram capitais como Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.
Ambos os grupos identificam aspectos negativos nas representações de urbano que eles tendem a afastar de si mesmos, ainda que o exogrupo seja diferente, no caso dos jovens rurais, as cidades grandes, e para os jovens urbanos, as capitais. As representações são construídas numa tensão que ora aproxima seus autores, ora os distancia, uma vez que uma de suas funções é justamente dar conta de uma realidade ameaçadora.